04:07 11 Agosto 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    23271
    Nos siga no

    Uma semana atrás a coalizão internacional suspendeu suas operações contra o Daesh em Raqqa. Pouco depois, os terroristas conseguiram se reagrupar e avançar contra Palmira no preciso momento em que o Exército da Síria estava mais do que nunca perto de libertar Aleppo.

    É bem evidente que ninguém está disposto a entregar Palmira, que foi reconquistada dos jihadistas na primavera pela segunda vez. Fica também bem claro que os arquitetos da ofensiva entendiam perfeitamente que as tropas governamentais seriam obrigadas a deslocar unidades em boas condições de combate de Aleppo para Palmira, ou seja, tinham uma estratégia e escolheram o momento certo.

    Porém, vale a pena questionar: será que na verdade há uma ligação entre a "limpeza" de Aleppo, a suspenção da batalha por Raqqa e da tomada de Palmira pelos terroristas do Daesh?

    Segundo comentou o vice-chefe do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Damasco, Taleb Ibrahim, em uma entrevista à Sputnik Internacional, "ainda alguns dias atrás os militantes não conseguiriam reunir tantos combatentes para o ataque, mas a ofensiva contra Raqqa de repente parou e a inteligência ocidental não reparou na sua mudança de localização".

    "Por isso existe a probabilidade de uma conspiração entre os terroristas e a coalizão ocidental", concluiu.

    Ao falar da situação atual em Palmira, o especialista comunicou que o Exército Sírio está perto da cidade, tendo conseguido evacuar a maioria dos civis e se reagrupar.

    "Agora se estão travando combates contra o Daesh e, acredito eu, o exército Sírio começará a contraofensiva daqui a alguns dias ou mesmo horas", adiantou. "Acho que 80-90% da população conseguiu fugir. A meu ver, neste momento devem estar apenas entre 300 e 500 civis na cidade", sugeriu Ibrahim.

    Segundo o acadêmico, a ofensiva foi muito inesperada. Eram por volta de 5 mil os militantes que de repente começaram atacando a cidade, sendo que o Exército, no momento, não estava pronto para reverter este ataque por todas suas forças estarem sendo utilizadas em Aleppo.

    Mas o fator principal, conforme ressalta o especialista, é a tática que o Daesh está usando para atacar. O próprio grupo chama isso de "tática de vespões": no início, pequenos grupos de militantes atacam as posições do Exército e depois lançam vagas de ofensiva, uma após outra, até tomar pleno controle do território.

    "É uma tática muito eficiente e eu acredito que as forças governamentais não estavam preparadas para ela", destacou o analista.

    Vale relembrar que o Daesh está fazendo frente a várias grandes operações militares: em Mossul, no norte do Iraque, e em Raqqa, no norte da Síria. Levando isso em conta, surge uma pergunta — como é que o grupo conseguiu mobilizar tantos combatentes para a reconquista de Palmira?

    "Acredito que o Daesh colaborou com os serviços de inteligência que estão atuando na região. Apenas alguns dias atrás eles não conseguiriam organizar tal ofensiva. Todos sabem que há poucos dias as Forças Democráticas da Síria estavam se preparando para uma ofensiva contra Raqqa e se reuniram com os norte-americanos para discutir o plano de ação. De repente tudo é canceladp e o Daesh recebe o aval para atacar Palmira. Acho que a ofensiva contra Raqqa foi suspensa por ordem de algum serviço de inteligência dos EUA ou do Oriente Médio. <…> Como tudo isso foi possível, se os aviões, satélites e outros equipamentos de vigilância da coalizão internacional encabeçada pelos EUA estão em Raqqa? Como conseguiram os combatentes passar sem que ninguém os detectasse? Tenho certeza que o Daesh está cooperando com a CIA e outros serviços de inteligência <…>", resumiu Ibrahim.

    Em uma conversa com a Sputnik Persa, o cientista político e ex-conselheiro do chanceler e embaixador iraniano na Organização para a Cooperação Islâmica, Sabbah Zanganeh, explica que tal estratégia é, de fato, própria dos terroristas:

    "Quando os militantes do Daesh e da Frente al-Nusra são sujeitos à pressão e aos ataques que levam ao seu extermínio total, eles tentam se deslocar para as outras regiões. Após a cidade iraquiana de Mossul ter sido bloqueada, uma parte considerável da província de Aleppo perto de Al-Bab foi reconquistada aos terroristas. <…> Os militantes do Daesh e outros terroristas, visando escapar a este cerco de ataques, empreenderam uma tentativa de invadir outro território — o de Palmira."

    O especialista fala em uníssono com o primeiro entrevistado e assegura que esta operação não teria sido possível sem a ajuda dos "patrocinadores" estrangeiros — Turquia, Arábia Saudita, Qatar e EUA.

    "É impossível que tal quantidade de militantes (mais de 4 mil) tenha conseguido passar despercebidos aos radares dos aviões norte-americanos no caminho de Mossul para a Síria e não serem interceptados", especificou Sabbah Zanganeh.

    Ao resumir, o especialista ressaltou que a operação de Raqqa encabeçada pelos EUA foi apenas uma preparação para que os militantes fossem capazes de se deslocarem de Mossul para Palmira. "Toda esta campanha foi planejada e se realizou em colaboração com os EUA e outros atores regionais", expressou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    Rússia registra 36 violações do cessar-fogo na Síria nas últimas 24 horas
    Kerry apela à oposição síria para dar primeiro passo no estabelecimento da paz
    Assembleia Geral da ONU adota resolução sobre trégua na Síria
    Tags:
    contra-ataque, ofensiva, militantes, colaboração, opinião, Guerra Civil Síria, coalizão internacional, Forças Democráticas da Síria, Exército Árabe Sírio, Organização de Cooperação Islâmica, Daesh, Frente al-Nusra, Aleppo, Palmira, Mossul, EUA
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar