02:29 26 Abril 2018
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    Embaixador russo em Brasília: 'Brasil é uma Rússia tropical'

    Wilson Dias/ Agência Brasil
    Opinião
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    Dia do Diplomata na Rússia (8)
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    Em entrevista exclusiva à Sputnik, o embaixador da Rússia no Brasil, Sergei Akopov, aborda temas atuais e de grande importância para o mundo, como o combate ao vírus zika, as dificuldade políticas e econômicas enfrentadas por Brasil e Rússia e a crescente cooperação dos dois países no âmbito do BRICS.

    A seguir, a íntegra da entrevista com o Embaixador Sergei Akopov. 

    Sputnik: Houve casos de contaminação pelo vírus zika de funcionários da Embaixada ou de russos no Brasil? Que medidas a missão diplomática planeja adotar durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro? A Embaixada chegou a receber propostas de cooperação na área do combate à doença por parte das autoridades brasileiras? 

    Sergei Akopov: Felizmente, ainda não tivemos casos de contaminação pelo vírus zika de funcionários das nossas instituições diplomáticas no Brasil. Tampouco recebemos informações sobre russos residentes que tivessem contraído a doença no país. Afinal, a maioria dos casos de contaminação pelo zika é registrada no Norte e no Nordeste do Brasil. E o vírus da dengue ainda representa um perigo muito maior. A dengue também não tem vacina e está se espalhando rapidamente. E tivemos casos de contaminação entre os funcionários da Embaixada, mas, felizmente, de forma leve. Só existe uma defesa – combate ao mosquito transmissor e medidas de proteção individual contra picadas, usando repelentes e roupas com áreas expostas de menor tamanho possível. É importante também não praticar a automedicação ao aparecimento dos primeiros sintomas (isso é muito perigoso), mas procurar ajuda médica o quanto antes. No caso da dengue, por exemplo, não se pode usar quaisquer outros remédios além do paracetamol. Todas essas informações são disponibilizadas nos sites da nossa Embaixada e dos nossos Consulados no Rio de janeiro e em São Paulo. É preciso dizer que as autoridades brasileiras estão dando a maior importância ao combate contra esses vírus. O Governo lançou uma ampla campanha nacional de luta contra os transmissores dessas doenças perigosas, envolvendo, inclusive, as Forças Armadas. Elas têm uma grande experiência. Também foram intensificados os esforços para desenvolver vacinas adequadas.

    S: No final do ano passado o Brasil sofreu uma brusca deterioração da sua situação política interna – a presidente do país se viu à beira de um impeachment. Como estão os ânimos da sociedade e da elite política atualmente nesse sentido? Moscou não considera que essa crise política no Brasil possa ter sido desencadeada do exterior?

    SA: A diplomacia não tem o costume de avaliar ou comentar a situação política interna do país de acreditação. O que eu posso dizer: o Brasil é um país de democracia madura, com instituições e tradições democráticas consolidadas. É nosso bom amigo e parceiro estratégico. Estou certo de que o povo brasileiro não deixará que ninguém, muito menos alguém de fora, manipule o seu destino. Desejamos aos nossos amigos brasileiros que superem o quanto antes esses tempos difíceis.

    S: Por causa dos problemas econômicos existentes tanto no Brasil quanto na Rússia, alguns analistas ocidentais acreditam que em breve estes dois países irão prejudicar as economias em desenvolvimento dos demais membros do BRICS, e que a existência do bloco deixará de ser vantajosa. Qual é a sua opinião com relação a essa questão? Que previsão o senhor poderia fazer quanto à situação econômica no Brasil?

    SA: Esses analistas tentam fazer passar o desejado pela realidade. Mas os fatos evidenciam o contrário. O BRICS conseguiu se consolidar como um novo polo na arena internacional. E isso foi possível muito graças aos esforços, muitas vezes conjuntos, da Rússia e do Brasil. A cooperação no âmbito do BRICS, o reforço dessa união, o seu crescente papel em assuntos internacionais – tudo isso está nos interesses dos nossos dois países, bem como de todos os nossos outros parceiros desse bloco. Quanto às dificuldades econômicas, não devemos esquecer que uma das diretrizes mais importantes de cooperação no âmbito dessa união está na busca de soluções conjuntas para esse tipo de problema. Acredito que as atuais dificuldades econômicas servirão apenas como um estímulo extra ao futuro aprofundamento e expansão das relações dos nossos países no âmbito do BRICS. Quanto às perspectivas, sou um otimista. Não existem no mundo outros dois países tão ricos e autossuficientes como Rússia e Brasil. Não é à toa que dizem que o Brasil é a Rússia tropical. Como aconteceu diversas vezes no passado, ela também conseguirá superar a atual crise.

    S: Anteriormente, foram apresentadas em Moscou ideias de criação de joint ventures para o processamento de produtos agrícolas. Em sua opinião, até que ponto é possível que esses planos se concretizem? Existem condições para o surgimento de primeiros empreendimentos desse tipo?

    Entre os 35 acordos de cooperação assinados por Brasil e China em maio, há parcerias no processamento de milho e soja e exportação de carne bovina brasileira
    Fotos Públicas / Palácio Piratini / Camila Domingues
    SA: Creio que a criação dessas joint ventures representa o futuro. O entendimento de que o simples comércio de produtos agrícolas tem seus limites está pouco a pouco chegando aos empresários tanto do Brasil quanto da Rússia. E já estão surgindo projetos reais de criação desse tipo de empreendimento. Por exemplo, um grupo de empresários brasileiros do Estado do Paraná, apoiado pelas autoridades, está desenvolvendo um projeto de criação de um grande complexo de produção e processamento de carne na Crimeia e no Sul da Rússia. O Brasil é um dos maiores produtores e fornecedores de produtos agrícolas do mundo, inclusive para o mercado russo (carne, soja, açúcar, tabaco, laticínios, etc.). Existe uma grande experiência acumulada nesse setor – tecnologias de ponta, pesquisa e desenvolvimento. Tenho a certeza de que os nossos países têm grandes perspectivas de cooperação mutuamente vantajosa na área da produção agrícola.

    S: Especialistas dos países BRICS foram consultados sobre a criação de uma agência de classificação de risco de crédito. Em que estágio se encontram essas negociações no momento? Até que ponto é viável a criação dessa instituição em futuro próximo?

    SA: Apoiamos ativamente a ideia (defendida por muitos parceiros do BRICS) de criação de uma agência comum de classificação, ou de uma rede de agências regidas por procedimentos acordados. Afinal, não é nenhum segredo que as classificações de risco de crédito emitidas por agências ocidentais são parcialmente politizadas. Esse trabalho já foi iniciado no âmbito do BRICS. Creio que isso é bastante real.

    S: A escolha da profissão foi por acaso ou o senhor buscou o serviço diplomático?

    SA: Eu não passei pela questão da escolha da profissão. Nasci e cresci numa família de um diplomata arabista. Meus maravilhosos pais sempre foram e são um modelo, um ideal que busco em toda a vida. Naturalmente, sempre quis ser o mesmo que o meu pai. Desde criança absorvi “sabedorias” da nossa maravilhosa profissão, ligando-a a toda uma gama de qualidades. Isto diz respeito a um amplo conhecimento em diferentes áreas e à capacidade de recolher e analisar informações, tirar conclusões corretas, expressar pensamentos com competência, além de ter um bom conhecimento de línguas estrangeiras, pelo menos duas, e a capacidade de persuadir, negociar, falar na frente de diversos públicos, mostrar habilidades de comunicação, etc. Em outras palavras, a diplomacia não é apenas uma profissão, é também um modo de vida. Os diplomatas não são apenas os olhos, os ouvidos e a voz da pátria no exterior. É por eles que em larga medida se julga a Rússia como um todo. Isso não só impõe uma grande responsabilidade, mas também gera um sentimento incomparável de orgulho pelo seu país e seu povo. Estou no serviço diplomático há 40 anos e imensamente feliz porque meu sonho foi realizado. 

    S: Qual foi o caso mais memorável, incomum, da prática diplomática, que o senhor teve? 

    SA: Durante os anos de serviço aconteceram muitas coisas interessantes e curiosas. É difícil destacar qualquer uma delas como particularmente memorável. Por exemplo, é difícil esquecer o que aconteceu durante uma visita oficial do presidente da Rússia à Venezuela em 2008, quando a Guarda Presidencial venezuelana cantou nosso Hino Nacional, na íntegra, em russo. Você pode imaginar os sentimentos que dominaram todos os presentes. E isso certamente contribuiu para a atmosfera positiva e amigável em que a visita ocorreu.

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    Tags:
    zika, agricultura, diplomacia, impeachment, política, entrevista, economia, Embaixada da Rússia no Brasil, BRICS, Serguei Akopov, Rússia, Brasil
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