21:28 20 Agosto 2019
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    Maurício Macri comemora a vitória nas eleições presidenciais argentinas

    Analista: “Mauricio Macri precisa dar satisfações a quem o patrocina”

    © REUTERS / Ivan Alvarado
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    Eleito no domingo, 22, Presidente da Argentina, Mauricio Macri concedeu entrevista coletiva no dia seguinte e deixou claro algumas das metas que pretende implantar na política interna e externa do país.

    Mauricio Macri, que liderou a aliança política Cambiemos (Mudemos), dedicou boa parte da entrevista à política externa e, neste aspecto, declarou que irá propor aos colegas presidentes da América do Sul a suspensão da Venezuela do Mercosul, alegando que a Venezuela do Presidente Nicolás Maduro não é um país democrático por não permitir liberdade e manifestação a quem, lhe faz oposição. A intenção de Mauricio Macri em relação à Venezuela foi criticada pela Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e combatida pelo Presidente do Equador, Rafael Correa. Nas palavras do líder equatoriano, “Mauricio Macri está interferindo nos assuntos internos da Venezuela.” Sobre todos estes fatos, a Rádio Sputnik Brasil ouviu o Professor de História, João Cláudio Pitillo, pesquisador do Núcleo das Américas da UERJ, Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

    Sputnik: Como o senhor recebe essa declaração do Presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, de que vai sugerir aos seus colegas do Mercosul suspender a Venezuela alegando que ela infringe a cláusula democrática do bloco?

    João Cláudio Pitillo: Mauricio Macri já vinha, desde sua campanha, demarcando um campo conservador e reacionário. Ele é o preposto dos ângulos estadunidenses no continente e dá essa declaração de efeito que, tenho certeza, nem ele acredita nela. Macri porém cumpre com sua agenda conservadora e precisa ter mídia e palco, e com este tipo de declaração, sabe que vai agitar o cenário latino-americano. Como está nadando contra a corrente, ele é um opositor desse processo que caminha na América Latina, região de governos mais progressistas e irmanados com o projeto bolivariano. Mauricio Macri precisa dar satisfação a quem o patrocina. E é óbvio que a Venezuela é a principal espinha na garganta dos estadunidenses na América do Sul e por isso ele vai direcionar seu cabedal de agressões contra a Venezuela, já que ele precisa unir as correntes conservadoras no continente sul-americano que estão desarticuladas. Com essa onda de vitórias progressistas, as correntes conservadoras ficaram na defensiva e, por isso, Macri vem trabalhando com agitação e propaganda com esse viés reacionário, com o intuito de aglutinar essas forças, de se mostrar como um preposto dos intentos ingleses e estadunidenses no continente. Isso é muito mal pois traz uma quebra de equilíbrio, gera tensões, cria uma série de problemas, o que não é nada bom para a Argentina, para o povo argentino e muito menos para a Venezuela. É ruim que nós tenhamos, em pleno Século XXI, pessoas do nosso continente — tão oprimido e tão desgastado pelo imperialismo dos Estados Unidos e da Inglaterra- que ainda se coloquem como agentes da colônia.

    S: Segundo Rafael Correa, Presidente do Equador, Mauricio Macri está interferindo nos assuntos internos da Venezuela. O senhor concorda com essa observação do líder equatoriano?

    JCP: Plenamente. Quando Macri invoca o Protocolo de Ushuaia e fala que a Venezuela não cumpre os seus acordos democráticos,  ele praticamente coloca a Venezuela num local de ditadura onde não há liberdades individuais, o que nós sabemos que é mentira. O pleito eleitoral na Venezuela é respeitado por todos os organismos internacionais. Existe liberdade de imprensa na Venezuela, o número de mídia opositora ao governo é maior do que a mídia de situação e a oposição que foi presa e encarcerada, foi julgada por crimes. Nós tivemos em 2002 uma tentativa de golpe de Estado na Venezuela, golpe este patrocinado por muitos deles que hoje foram levados às barras do Tribunal, e esse intento sim, quebra a cláusula democrática. Obviamente que, quando Macri se arroga no papel de dizer o que é e o que não é democracia, para impor sua vontade para além do pleito eleitoral venezuelano, está cometendo uma ingerência nos assuntos internos da Venezuela. Ele se mostra então com direito de governar a Venezuela desde Buenos Aires, passando por cima da população venezuelana.

    S: O Protocolo de Ushuaia, ao qual o Professor João Cláudio Pitillo se refere, foi assinado em 1988 e determina que suas resoluções só podem ser aprovadas por consenso. Portanto, todos os membros do Mercosul devem estar de acordo com a posição sugerida por um dos integrantes para que a cláusula tenha plena vigência e no caso seria a suspensão da Venezuela por alegado desrespeito a direitos políticos ou mesmo direitos humanos em relação aos opositores do regime. O senhor acredita que a posição do Rafael Correa será referendada pelos demais líderes da América do Sul?

    JCP: Não sei se na mesma intensidade mas acredito que há um consenso pela maioria dos líderes não só da América do Sul mas como de vários outros países caribenhos e do norte do continente que não vão concordar com isso. A fala do Macri é uma fala de agitação e propaganda que não só fere a soberania venezuelana como também proporciona um grau de instabilidade muito grande porque coloca a Argentina contra todos os países do Mercosul que reconhecem a legitimidade do processo político, social e eleitoral da Venezuela. Num momento de graves instabilidades econômicas, do qual os países da América do Sul são vítimas, Mauricio Macri não deveria apresentar esta proposta de distensão mas sim pensar em como os países sul-americanos devem se unir para superar este momento de crise que recai com muito mais peso sobre os países em desenvolvimento.

    S: Rafael Correa disse que esse movimento defendido por Mauricio Macri sinaliza uma campanha de desprestígio contra os governos progressistas da região latino-americana. Palavras literais do Presidente do Equador Rafael Correa.

    JCP: O que eu disse antes sobre o Macri se colocar como o porta-voz dos interesses políticos e econômicos dos ângulos estadunidenses, é ressaltado na fala do Presidente Rafael Correa. O processo venezuelano está muito mais ligado à rua, ao movimento social, aos interesses das camadas mais baixas e com uma participação muito grande entre sociedade civil organizada e governo do que esse conceito de democracia que fica sendo a todo momento repetido, aqui no Ocidente, como mantra, como se bastasse votar para se ter democracia, como se a antítese da democracia fosse não votar. Se fosse assim, nós teríamos que prestar atenção ao pleito eleitoral estadunidense, aquela confusão que é votar nos EUA onde os escândalos de desvios de voto e de eleições fraudulentas perduraram durante os governos Bush. Isto tem que ser observado. O que a Venezuela propõe é um projeto social completamente novo, de participação popular, que tem o voto como um dos seus instrumentos mas o voto não pode ser um fim em si mesmo. O Macri vem com toda essa verborragia tentando deslegitimar esse projeto que caminha na América do Sul. A Bolívia, a Venezuela e o Equador são vanguarda nesse processo que coloca a sociedade civil em discussão contínua com o governo, diferente do que acontece hoje na maioria dos países latino-americanos, onde temos governos conservadores que tocam pautas distantes dos interesses sociais mas que agradam as grandes economias europeias e a estadunidense. E aí retornamos para o processo de dependência não só econômica mas política porque passamos a ter um projeto político eleitoral intimado pelo hemisfério norte. As famosas oligarquias da Europa e dos Estados Unidos continuam com o tacão na mão, dizendo a maneira que devemos agir no nosso continente. Logo, a política do big stick, a aliança para o progesso, continuam em marcha. Os Estados Unidos continuam nos dizendo o que é bom e o que não é, o que é progressista e o que não é, o que é conservador e o que não é, isso quem tem que dizer somos nós. A Venezuela deu um passo à frente quando determina que o seu destino será escrito e confeccionado por sua população. Isto já tinha acontecido em Cuba e tomou uma dimensão maior quando Hugo Chavez assumiu o poder. Agora, vamos vendo uma série de processos similares pipocando em toda a região sul. A fala do Macri não é só preocupante por ser direcionada à Venezuela, mas ela é preocupante também por ser direcionada à própria Argentina, que era vanguarda numa luta contra os fundos abutres; era vanguarda no modelo econômico de relação com a Rússia ao colocar o rublo e o peso para trabalharem juntos sem precisar cambiar para o dólar; estava liderando um processo de redemocratização da mídia. Então, o Presidente do Equador, Rafael Correa, está atento a isso e deu um puxão de orelha no Mauricio Macri mostrando para ele que “os seus conceitos não são os nossos conceitos”.

    Tags:
    Mercosul, Rafael Correa, Mauricio Macri, João Cláudio Pitillo, América Latina, Venezuela, América do Sul, Argentina
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