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    Opinião: Ideologia e disputa política impedem o apoio às exportações do país

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    Ao depor na CPI do Congresso sobre o BNDES, o ex-diretor da área internacional do Banco, Luiz Eduardo Melin, disse que a onda ideológica e de disputa política no país está impedindo o apoio às exportações. O presidente da AEB – Associação de Comércio Exterior do Brasil comenta para a Sputnik Brasil.

    O pensamento do ex-diretor do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social expresso aos parlamentares da CPI parece ser o mesmo dos exportadores brasileiros, especialmente os proprietários e executivos de empresas de engenharia de serviços no exterior.

    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o empresário José Augusto de Castro, presidente da AEB – Associação de Comércio Exterior do Brasil, revela que em todo o mundo somente 15 países – entre os quais, o Brasil – possuem empresas gabaritadas para exportar serviços de engenharia. Mas, devido à intensa repercussão da Operação Lava Jato, que investiga pagamentos de propinas por parte de empresários para obtenção de vantagens junto à Petrobras, as iniciativas brasileiras estão paralisadas. Tudo isso, na visão de José Augusto de Castro, tem como pano de fundo a disputa pelo poder entre as correntes políticas do país.

    A seguir, a entrevista com o presidente da AEB.

    Sputnik: O que o senhor pensa das declarações de vários empresários do setor, acusando a paralisação de exportação de serviços, e o próprio ex-dirigente da área internacional do BNDES, Luiz Eduardo Melin, identificando como uma onda ideológica e de disputa política o agente causador da paralisação das exportações de serviços do país?

    José Augusto de Castro: Primeiro vamos destacar que exportação de serviços de engenharia é fundamental para qualquer país. Existem apenas 15 países no mundo que exportam serviço de engenharia, porque serviço de engenharia é um status. Não basta querer, tem que ter três condições básicas para exportar: primeira, claro, o mercado; segunda, empresas com competência para realizar empreendimentos no exterior; e, terceira, um banco de fomento que financie a longo prazo, superior a 10, 12, 15 anos ou até mais. Quando falamos que estamos exportando um projeto de engenharia, não estamos vendendo só o serviço, estamos vendendo equipamentos que serão utilizados na construção e na instalação do empreendimento para que ele possa se desenvolver no futuro. Exportação de serviços de engenharia é uma forma de abrir mercado para exportação de produto manufaturado. Um exemplo: se construirmos uma hidrelétrica no exterior, ninguém vai comprar do Brasil uma turbina só para aquela hidrelétrica, quem executa a obra é que vai fornecer a turbina. O Brasil é que vai fornecer a turbina, fabricada no Brasil.

    S: O Brasil, no caso o país exportador, entra com o projeto acabado?

    JAC: Todo. Ele contrata entregar o projeto funcionando. Seja uma estrada, uma hidrelétrica, uma termelétrica, o que seja. Isto faz com que hoje cada projeto de engenharia no exterior tenha entre 1.200 e 2.500 pequenas e médias empresas no Brasil que dão suporte àquele projeto. Essas empresas não exportam diretamente ao exterior, mas subsidiam a empresa de engenharia à frente para que ela possa viabilizar o empreendimento. Sempre dizemos que a empresa de engenharia nada mais é do que uma estruturadora de negócios, ela não produz nada mas estrutura negócios junto a diferentes empresas, e tem que pensar a longo prazo, e por isso ela tem um financiamento a longo prazo para que possa desempenhar a função de comprar os equipamentos no mercado interno, instalá-los e exportá-los. Por que a China está crescendo hoje em exportação de serviço de engenharia? Na África, a China domina 50% de todas as obras de engenharia, o Brasil tem apenas 4%. São dados de estudo que temos aqui. Porque a China está colocando produtos manufaturados chineses na África e faz uma coisa que o Brasil não faz, ela exporta o equipamento e exporta o chinês também para fazer a obra, e ganha duas vezes, reduz a população da China, pois a coloca no exterior, vende os equipamentos e ocupa espaço no mercado. Uma política altamente agressiva. Hoje, todas as vezes que falamos que vai haver um acordo bilateral em negociação, os países desenvolvidos querem discutir primeiramente os serviços, é o ponto básico, todos querem discutir serviços. O Brasil não pode ir em posição contrária, temos que seguir o que o mundo faz. São apenas 15 países no mundo que exportam serviços de engenharia, incluindo o Brasil. Cada vez que criamos dificuldades internamente, passamos uma imagem negativa ao exterior. Neste ano não foi aprovado nenhum projeto de engenharia no Brasil, ou seja, no ano que vem não tem exportação de serviços de engenharia e máquinas e equipamentos porque não tem projeto aprovado.

    S: Qual seria a causa?

    JAC: A causa basicamente são as operações como a Lava-Jato. E resolveram suspender tudo. Claro que os países nossos concorrentes ficam felizes da vida porque na América do Sul, que é a nossa área, onde poderíamos estar fazendo mais obras, não estamos fazendo nada. Estamos dando oportunidade para que China, Coreia, Estados Unidos e Espanha ocupem este espaço que teoricamente seria do Brasil.

    S: Talvez o exemplo mais emblemático desta rivalidade ideológica, desta disputa política, seja a construção do Porto de Mariel, em Cuba, em que a oposição e várias outras correntes consideram que o BNDES estava financiando o projeto a juros muito baixos e que este dinheiro seria mais bem investido no Brasil. Como o senhor vê esta questão?

    JAC: Juros são internacionais. Não adianta imaginarmos que a taxa Selic a 14,25% vai ser usada nas exportações. As taxas do Brasil são definidas pela OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, e se o Brasil estivesse praticando taxas abaixo das definidas, mesmo o Brasil não sendo membro da instituição, estaríamos sendo acusados disso, e não existe nenhuma acusação contra o Brasil. Mesmo o Brasil não tendo a obrigação de seguir as taxas da OCDE, para evitar qualquer acusação futura, ele adota seus princípios e com isso está imune. Não há nenhum projeto de engenharia do Brasil no exterior que tenha sido contestado por estar praticando uma taxa baixa. Além disso, a China financia uma coisa que o Brasil não financia e isso gera uma grande vantagem para a China, ela financia os chamados gastos locais. O Brasil só financia os gastos ocorridos no Brasil, o que é gasto no exterior está fora do financiamento. A China oferece financiamento para este gasto também, e com isso ela tem uma vantagem competitiva muito maior que o Brasil. As tentativas feitas até agora para que o BNDES financiasse os gastos locais foram infrutíferas.

    Brasil, Anápolis, GO, 19/12/2013. Vista parcial de área do Porto Seco Centro-oeste, em Anápolis (GO)
    ED FERREIRA / AGE / Estadão Conteúdo
    S: Qual a lógica de uma disputa ideológica paralisar um setor tão importante quanto o da engenharia civil e de exportações?

    JAC: Claramente um componente político, porque Cuba, até agora, não tem nenhum exemplo de inadimplência, tudo que foi financiado por Cuba com as garantias de recursos de turismo e qualquer outra forma, até agora não houve nenhuma perda para o Brasil, nenhum projeto deixou de ser pago ao Brasil, ou seja, cada um deles estava bem garantido. Além disso, os projetos aqui na América do Sul contam com o CCR – Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos, que também nunca teve nenhum caso de inadimplência. O Brasil fica criando uma expectativa do que “pode vir a acontecer” e até chegar o “pode vir a acontecer” o que podemos fazer? Temos que ser mais agressivos. O mundo hoje deixa de ter ideologia – no comércio internacional a ideologia só serve para futrica. O mundo quer fazer negócios, e negócios não fazem ideologia. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    economia, exportação, Petrobras, BNDES, AEB, José Augusto de Castro, Brasil
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