02:45 20 Janeiro 2020
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    “Fortes interesses estão por trás das especulações com mais um possível rebaixamento da nota de credibilidade do Brasil” – é a opinião do economista Heitor Silva, da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista à Sputnik Brasil.

    Heitor Silva, que integrou as equipes econômicas de dois governadores do Estado do Rio de Janeiro, Leonel Brizola e Anthony Garotinho, analisa a avaliação do diretor da agência Fitch Ratings no Brasil, Rafael Guedes. 

    Ao falar no IBRI – Instituto Brasileiro de Relações com os Investidores, Rafael Guedes disse que “a meta de superavit primário de 0,7% do Produto Interno Bruto para 2016 só será alcançada se o Congresso Nacional aprovar as medidas propostas pelo Governo”. Guedes também afirmou que “o Orçamento do próximo ano, enviado com deficit ao Congresso, coloca nova pressão sobre o rating brasileiro”. 

    Para o Professor Heitor Silva, as avaliações das agências de classificação de risco devem ser vistas com reservas e cautelas: “O Brasil tem reservas internacionais de mais de 370 bilhões de dólares, o que é mais do que suficiente para garantir o pagamento da sua dívida.”

    Sputnik: O que lhe parece esta declaração do diretor da Fitch Ratings do Brasil, Rafael Guedes, de que o Brasil está arriscado a sofrer um novo rebaixamento, desta vez por parte da própria Fitch ou, quem sabe, da Moody's, em função da não aprovação pelo Congresso, até agora, das medidas econômicas que o Governo considera como fundamentais para a recuperação da economia?

    Heitor Silva: Eu gostaria de agradecer a oportunidade porque este é um assunto que o leigo não domina e acompanha com apreensão, e dizer que, na verdade, há interesses muito fortes em transformar alguma coisa que tem um grau de seriedade mas que se exagera por interesses de alguns setores da economia brasileira. Quando se fala em redução de notas por estas agências de ratings, elas podem significar algum impacto porque se tivermos notas negativas de duas agências os fundos de pensão e alguns bancos ficam impedidos de comprar os títulos da dívida soberana. Por que então tanto alarde? Para justificar os aumentos na taxa de juros, que representam menos gastos sociais e mais ganhos para os bancos. Para que não fique um discurso muito politizado, vou exemplificar: o Orçamento da União, ou seja, de tudo o que o Governo arrecadou e de tudo o que ele gastou no ano de 2014, 45,11% foram para pagamento de dívida, ou seja, quase a metade. Em termos de comparação, os gastos com saúde representaram 3,98%. Quanto mais pressão se faz, mais se aumenta a taxa de juros e mais se aumenta a capacidade de pagamento do Governo a estes setores. É isto que está em jogo.

    S: Especulações e interesses?

    HS: Isso.

    S: A quem interessa especular com o grau de confiabilidade do Brasil?

    HS: Temos uma pressão interna, feita pelo sistema financeiro, que utiliza isso como mecanismo para alavancar a taxa de juros, e externa, porque se os títulos de nossa dívida ficarem muito rebaixados o país começa a ser visto como um país de alto risco e acaba tendo uma desvalorização de patrimônios nacionais. Fica mais fácil, por exemplo, comprar a Petrobras, comprar as empresas nacionais, comprar a Embraer, que é uma grande companhia aeronáutica nacional, com uma presença forte no exterior. Fica mais fácil comprar nossas fazendas que produzem soja, laranja. Ou seja, fica mais fácil tomar o patrimônio nacional.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    juros, política, economia, Fitch Ratings, Fitch, Rafael Guedes, Heitor Silva, Brasil
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