21:52 22 Maio 2018
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    Economia brasileira foi prejudicada por manipulação das taxas de câmbio

    PIB encolhido do segundo trimestre compõe cenário de recessão na economia brasileira

    Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas
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    O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou nesta sexta-feira, 28, que a economia brasileira encolheu 1,9% no segundo trimestre deste ano, na comparação com o primeiro trimestre. Nos primeiros seis meses de 2015, a retração acumulada da economia brasileira foi 2,1%, segundo o IBGE.

    Analistas econômicos interpretaram os números divulgados como o pior resultado para qualquer trimestre desde o período entre janeiro e março de 2009, quando houve uma diminuição de 2,2% no Produto Interno Bruto. Os analistas disseram mais: “Este foi o pior resultado para um segundo trimestre de toda a série histórica, iniciada em 1996.”

    Com a constatação de que a economia brasileira sofreu crescimento negativo em dois trimestres consecutivos, o Brasil já pode ser considerado tecnicamente em recessão. É o que afirma o economista Roberto Fendt, diretor-executivo do Cebri – Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

    Fendt falou com exclusividade para a Sputnik Brasil:

    “Os economistas têm uma série de conceitos que só eles entendem bem. Não sei se é um problema de comunicação dos economistas ou se é de outra natureza. O que os economistas entendem por recessão, eu acho que esta é a definição mais adequada, porque a recessão é da atividade econômica e ninguém melhor que os economistas para definir o que é isso. Mas na linguagem dos economistas recessão é quando há uma queda do PIB por pelo menos dois trimestres seguidos. Temos essa queda seguida de uma nova queda, e isso caracteriza uma recessão. A rigor, o PIB já havia declinado no trimestre anterior. Então, pela definição usual dos economistas – só dos economistas – o país está em recessão. O fato concreto é que dificilmente o país vai escapar de chegar ao final do ano sem que essa queda provavelmente se acentue. E a razão para isso é simples: os indicadores que vão surgindo vão mostrando que diversos fatores combinados estão provocando uma retração na demanda por produtos em diversos segmentos.” 

    Roberto Fendt lembra que também nesta sexta-feira foi noticiado que pela primeira vez este ano houve uma queda na demanda por passagens aéreas. 

    “Isso quer dizer”, explica o economista, “que até então os passageiros continuavam usando os voos para seus deslocamentos tanto dentro do país como para o exterior. Mas a subida do dólar está começando a doer no bolso de quem pretende viajar. Muita gente já está pensando que continua pagando os mesmos dólares, só que os mesmos dólares não são os mesmos reais do início do ano ou do ano passado. Estão ficando muito mais caros, estamos com uma desvalorização do real da ordem de 50%, então quem tinha se preparado para sair do país e ir para Paris ou para a Disney, em qualquer dos dois casos a passagem, em reais, está em torno de 40% a 50% mais cara, e as despesas locais também. Quando chegar o cartão de crédito, vai se pagar com o real valendo a cotação do dólar de agora e não o que se tinha imaginado fazer no ano passado. Este é apenas um exemplo.” 

    Outro exemplo citado por Roberto Fendt está na indústria automobilística:

    “A retração em outras atividades, nós vemos de longe, o setor automotivo está com os pátios cheios, não se consegue vender. A atividade econômica como um todo está se retraindo não só por estes fatores mas pelo fato de que a inflação está tornando as coisas mais caras e os salários não acompanham, como no passado, mensalmente, o ritmo da inflação. Qualquer contrato desta natureza tem validade por doze meses, no mínimo, então não tem como indexar coisas, só os impostos, que variam todo santo dia.”

    Para deixar mais claro seu raciocínio, Roberto Fendt continua a exemplificar:

    “É bom ilustrar para não falar genericamente: até o ano passado, o pedágio na rodovia Rio–Juiz de Fora custava R$ 8. No final do ano passado, ou início deste, passou para R$ 9. Agora passou para R$ 11,20. Muitas coisas estão sendo reajustadas por percentuais que são muito altos. Um percentual de mais de 20%, neste caso específico, é muito alto. No supermercado, nós vemos que está tudo mais caro. O poder de compra das pessoas está se reduzindo. Não é só o poder de compra das pessoas que querem viajar ao exterior, mas o poder de compra em geral das coisas que compramos aqui. Isto tudo vai diminuindo a demanda. Do lado da oferta, os empresários estão todos muito ressabiados com o que vem pela frente, e ninguém está investindo porque o investimento é guiado pelas expectativas. O empresário olha o mercado e diz: vai faltar isso, vai faltar aquilo, vou fazer uma fábrica nova, vou ampliar esta aí, vou contratar mais gente, vou criar mais um turno. A situação agora está ao contrário, o número de demissões está muito grande, o desemprego bateu o recorde de vários anos.”

    Tags:
    recessão, PIB, Cebri, Roberto Fendt, Brasil
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