00:44 07 Dezembro 2019
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    Farhad Saidi: A Rússia tem potencial para desenvolver sistema bancário islâmico

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    Quando a economia se pode comparar a um sorvete: Farhad Saidi, um banqueiro iraniano, explica as vantagens do sistema bancário islâmico.

    O sistema financeiro islâmico, difundido no Oriente Médio e no Sudeste Asiático está experimentando uma fase de grande crescimento.

    Este sistema bancário, organizado segundo as normas islâmicas que proíbem a usura, está chegando à Rússia.

    Mas o seu desenvolvimento ativo não levará a investimentos por parte de países islâmicos enquanto no país não surgirem projetos adequados, diz o banqueiro iraniano Farhad Saidi, que vive há quase três décadas na Rússia. Saidi, presidente do Conselho de Administração do Asia Bank, falou à agência RIA Novosti sobre as especificidades do sistema bancário islâmico e suas perspectivas de desenvolvimento.

    Pergunta: O mundo financeiro do Oriente continua sendo um mistério para os agentes do mercado russo. Por favor, conte-nos sobre as vantagens do sistema bancário islâmico. De que forma ele pode ser interessante para a Rússia, na sua opinião?

    Resposta: O sistema bancário islâmico é uma variante do sistema bancário convencional. É a mesma coisa que dizer que o sorvete com açúcar é prejudicial e substituir o açúcar por algo menos nocivo. Mas, em geral, o sorvete continua sendo sorvete.

    P.: De que forma este sistema poderá ser interessante para a Rússia?

    R.: Agora ele é interessante em todo o mundo e, se é interessante em todo o mundo, por que razão não deveria ser para a Rússia? Primeiro de tudo, na Rússia há mais de 20 milhões de muçulmanos. Este é um potencial muito bom.

    Em segundo lugar, não é algo que se refira especificamente aos muçulmanos, é interessante para todos. As regras do sistema bancário islâmico existem também no Cristianismo e no Judaísmo, simplesmente no Islamismo elas foram aperfeiçoadas. No mundo de hoje, é um sistema alternativo de serviços bancários, e esta alternativa é necessária.

    É um tipo de economia em que existe uma relação saudável entre o investidor e o beneficiário dos investimentos. Na organização tradicional de crédito, o banco dá dinheiro e diz ao cliente: "Eu não me importo o que acontece com você e com seu negócio, só preciso que pague o empréstimo e mais 15%”, por exemplo. No sistema bancário islâmico, o banco se considera um parceiro, um co-investidor no investimento. Portanto, no lucro e nas perdas, o banco e o cliente estão juntos.

    No sistema bancário islâmico não existe mais ou menos lucro. O banco precisa saber o destino desses fundos e em que grau o cliente conhece o seu negócio. E este investimento tem de ser útil à sociedade. Se você precisa de dinheiro para abrir um casino, que terá o dobro dos lucros – o banco não aceitará. Porque neste caso existe lucro para o banco, mas não existe para a sociedade.

    A economia, tal como o sangue no corpo, deve sempre se mover, mas este movimento tem de ser correto. Quinhentos anos atrás, as pessoas não tinham esse capital, mas as pessoas trabalhavam e a economia girava. Em seguida, o capital se tornou um instrumento, e isso começou na América. O instrumento pode ser bom, pode ser ruim — mas trabalha sempre a favor de quem detém o instrumento em suas mãos. No sistema bancário islâmico não existe tal noção de capital — é essa a diferença.

    No nosso sistema bancário, o capital é um dos elementos da economia, vista como um time, tal como no futebol um goleiro ou um atacante. Agora, a situação chegou a tal ponto que na economia tradicional há um conflito com os interesses da sociedade. Portanto, o sistema bancário islâmico é visto como uma espécie de fenômeno.

    Se implementarmos adequadamente o sistema bancário islâmico, isso será muito útil para a sociedade russa. Mas, se este sistema se tornar um instrumento nas mãos de alguém, isso só vai piorar.

    A minha sugestão é que o sistema bancário islâmico deve começar em pequena escala, de forma correta, e se desenvolver sobre essa base.

    P.: O que nos pode dizer sobre o Asia Bank? Quem é o dono do banco? Na mídia apareceu a informação de que o banco pertence a cidadãos do Irã.

    R.: O banco é russo e não pertence a iranianos. Eu sou um cidadão do Irã e presidente do Conselho de Administração do banco. Ao mesmo tempo, sou iraniano e vivo há 27 anos na Rússia, e há 41 anos — na Alemanha.

    P.: Em que medida as sanções têm complicado o trabalho do banco? Espera o levantamento das sanções em um futuro próximo?

    R.: Eu responderia assim: se as sanções forem removidas, então trabalharemos sem sanções. Se não forem, trabalharemos com sanções. Em qualquer caso, para nós, o principal é o trabalho que fazemos. Nós não reclamamos, não pedimos ajuda a ninguém. Nós dissemos a nossa equipe: ou trabalhamos ou seremos testemunhas da destruição do banco.

    P.: Você é um cidadão de um país sujeito a sanções há muitos anos. A Rússia também foi submetida a sanções por parte dos países ocidentais. Será que a experiência do Irã na esfera econômica seria útil para a Rússia?

    R.: Poderia dividir esta questão em duas partes. A primeira é a parte moral, a segunda é a parte técnica. Mas, o mais importante é a parte moral.

    O que fez o Irã? Após a imposição de sanções, o Irã criou um grande número de centros de onde se podia transferir dinheiro, mesmo com perdas, para o país. As sanções têm lacunas, nunca acontece serem como um círculo vicioso.

    Na economia russa, eu não vejo problemas nas sanções, vejo problemas na abordagem ao trabalho. O problema é que há muitos banqueiros que não querem aceitar o fato de que no mundo dos negócios, por vezes, há ascensões e quedas.

    Uma vez, 30 anos atrás, eu me encontrei nos Emirados com um sheik muito rico. Ele costumava ir de vez em quando viver em sua tenda como um beduíno. Perguntei-lhe se era nostalgia. Ele respondeu — não, vivemos de tal modo que, se de repente perdermos tudo, saberemos como se vivia antes em tendas com camelos.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    economia, rublo, Rússia
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