15:34 22 Agosto 2017
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    Em dificuldades financeiras há quase uma década, Porto Rico deu calote de US$ 58 milhões em seus credores e entrou em moratória

    Calote: Porto Rico pensava que EUA não o deixariam chegar ao nível de mau pagador

    © AFP 2017/ PAUL J. RICHARDS
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    Porto Rico, um Estado Livre Associado aos EUA, deixou de pagar a maior parte de uma dívida de US$ 58 milhões, em função, segundo o seu Banco de Desenvolvimento, de “escassez de recursos”. O especialista em assuntos porto-riquenhos Augusto Cattoni falou com exclusividade para a Sputnik News sobre a moratória da ilha caribenha.

    A seguir, a entrevista com o cientista político Augusto Cattoni sobre a moratória de Porto Rico.

    Sputnik: Porto Rico entrou para o clube dos maus pagadores internacionais. Qual é o status político dessa ilha do Caribe? Como podemos defini-la politicamente?

    Augusto Cattoni: Começando pelo que Porto Rico não é: não é um Estado soberano, é um Estado Livre associado aos Estados Unidos. Em inglês, a expressão é Commonwealth. Por decisão própria, os porto-riquenhos resolveram não se tornar um Estado. E este status lhes dá o direito de votar nas eleições primárias americanas, porque não se trata de eleições oficiais, e, sim, partidárias, mas eles não podem votar nas eleições presidenciais.

    S: Porto Rico tem governo próprio?

    AC: Sim, tem um governador próprio que foi quem decretou o calote, a moratória.

    S: O Governador Alejandro García Padilha. E por que Porto Rico chegou a este nível de mau pagador? O que aconteceu para que o país se endividasse e não tivesse condições de pagar suas dívidas?

    AC: É o excesso do chamado “governo grátis”. Eles gastaram muito durante mais de uma década, e o déficit público foi enorme. Com isso, a dívida do território aumentou também, a tal ponto que eles não podem mais honrá-la.

    S: No sábado, dia 1 de agosto, havia uma dívida a ser paga, de 680 mil dólares, que não foi honrada; e na segunda-feira, 58 milhões de dólares, com mais razão ainda para não se fazer frente ao pagamento. E o débito total de Porto Rico ultrapassa 72 bilhões de dólares. O senhor atribui a situação de Porto Rico a um excesso de assistencialismo por parte do Governo?

    AC: À gastança de ambos os partidos que governaram a ilha, tanto o Partido Democrata quanto o Republicano, que se alternaram no poder e ambos foram perdulários. Nenhum controle, nenhuma responsabilidade fiscal.

    S: Os principais credores de Porto Rico são os fundos hedge, uma dívida de quase 22 bilhões de dólares; investidores e cooperativas, 20 bilhões de dólares; e fundos mútuos dos EUA, 10 bilhões de dólares. O que acontece agora com Porto Rico, uma vez chancelado internacionalmente como mau pagador?

    AC: Porto Rico vai ter que renegociar a dívida para ver se encontra uma saída satisfatória para ambas as partes, com prazos maiores, e talvez uma diminuição dos valores a ser pagos. É um processo demorado, porque a ilha não deve receber ajuda do Governo americano.

    S: Quando o senhor diz que Porto Rico gastou demais, significa que gastou além do que tinha e do que poderia?

    AC: Além do que arrecadava.

    S: É possível traçar um paralelo entre a situação de Porto Rico e a situação da Grécia?

    AC: Há semelhanças. A Grécia tinha uma moeda forte, que era o euro, e Porto Rico uma moeda forte, que é o dólar. Mas isso não impediu que ambos os países gastassem muito. E, talvez porque tivessem essa moeda forte, eles se sentissem ricos e pensando que jamais Washington ou Bruxelas os deixariam ir pelo ralo. E eles se enganaram, evidentemente.

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    Tags:
    euro, Commonwealth, crise, dívida, moratória, Alejandro García Padilha, Augusto Cattoni, Bruxelas, Washington, Caribe, Grécia, EUA, Porto Rico
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