04:57 16 Outubro 2019
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    Professor Fabiano Mielniczuk, delegado brasileiro no Civic BRICS

    Documento final do Fórum BRICS Civil é enviado à Presidência da Rússia

    brics2015.ru / Divulgação
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    BRICS: organização do futuro (189)
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    O Fórum BRICS Civil reuniu em Moscou, nesta semana, think tanks dos países do grupo e de outras nações. O encontro foi um dos fóruns preparatórios da Cúpula do BRICS, que vai se realizar na próxima semana em Ufá. Em entrevista exclusiva à Sputnik, diretamente da capital russa, o representante do Brasil conta como foi o evento.

    O Professor Fabiano Mielniczuk, delegado brasileiro ao evento de Moscou, é diretor do Instituto Audiplo, de preparação para o curso de formação dos diplomatas do Itamaraty, e ex-coordenador do BRICS Policy Center, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

    A seguir, ele fala do encontro.

    Sputnik: Como foi realizado o Fórum BRICS Civil, nesta semana, em Moscou?

    Fabiano Mielniczuk: Foram três dias de um evento bastante intenso, marcado por inúmeras discussões, debates, troca de ideias e a possibilidade de um documento que acabou sendo redigido no final do encontro por um representante da sociedade civil dos países BRICS, para ser enviado para a Presidência da Rússia, que é a atual presidência do bloco BRICS, a fim de que seja levado em consideração quando os lideres se encontrarem na 7.ª Cúpula dos BRICS, na próxima semana, na cidade de Ufá.

    S: Surgiram novas e boas ideias?

    Estou muito satisfeito com as ideias que surgiram durante o encontro. Eu participei de discussões no grupo relacionado ao desenvolvimento sustentável e também no grupo referente à segurança e à paz. Nós tivemos grupos de trabalho que envolveram saúde, educação, cultura, desenvolvimento sustentável, segurança e paz, economia e comércio, e um outro grupo muito interessante chamado Harmonização das Relações Interétnicas. E nesses grupos os representantes da sociedade civil dos países BRICS se encontravam, discutiam pontos que haviam sido organizados pela comissão coordenadora do evento, a partir de especialistas da sociedade civil da Rússia, que propuseram um documento-base. Depois disso, numa plenária com os delegados e os representantes de todos os países, o documento foi sendo revisado ponto por ponto e acabou sendo aprovado. Ele foi entregue no final do evento a uma diplomata russa que representa seu país no G20 e também em agrupamentos como o BRICS, para, então, encaminhar ao Presidente Vladimir Putin.

    S: Essa questão da integração étnica é uma das principais preocupações do Governo russo, integrar as diversas etnias que habitam a Federação Russa.

    FM:  É uma questão importante na Rússia, assim como na Índia, na China, no Brasil, com populações indígenas, na África do Sul, com grupos etnicamente diferentes. Foi um debate bastante interessante para promover o respeito às diferenças.

    S: A sua abordagem sobre segurança e paz versou sobre qual aspecto?

    FM: Quando eu participei dos debates sobre segurança, acho que a maior preocupação que tive como especialista em Rússia foi de entender o contexto internacional em que a Rússia está submetida, que é um contexto de acirramento dos ânimos, entre o Ocidente e a Rússia, e elaborar uma forma de sair desse círculo vicioso de alimentar a sensação de Guerra Fria. Então eu discuti bastante com os delegados russos a necessidade de se enfatizar, enquanto sociedade civil, o respeito à Carta das Nações Unidas, a ideia de não agressão, a ideia de desarmamento e questões que são importantes para tentar resolver a crise. É claro que ocorreram debates acalorados porque muitos russos estão se sentindo pressionados pela comunidade internacional e sugeriram até declarações mais fortes da sociedade civil dos BRICS, para apoiar os russos em relação ao que vem acontecendo. Mas a versão que prevaleceu no documento final foi de uma proposta mais pacificadora, para tentar aliviar um pouco essa tensão. A sociedade civil tem como principal objetivo buscar alternativas de paz para as crises, e os Estados é que têm seus compromissos em termos de interesse de defesa nacional. Foi uma participação mais voltada para essa tentativa de harmonização do que tem acontecido em termos de segurança.

    S: O tema da ecologia, da defesa ambiental, esteve também em debate?

    FM: Na parte de desenvolvimento sustentável, que foi bastante interessante porque foram discutidas as Metas do Milênio e também as Metas do Desenvolvimento Sustentável elaboradas e aprovadas na Rio+20, realizada no Rio de Janeiro em 2012, discutiu-se como os países BRICS poderiam alcançar estas metas, e quais as sugestões da sociedade civil para que eles trabalhem com o objetivo de alcançá-las. Em meu grupo, eu me preocupei especificamente com algumas questões relacionadas à biotecnologia, que é quando você modifica tecnologicamente a produção de alimentos, no campo da segurança alimentar e da produção de alimentos, quando você modifica esses alimentos e muitos deles passam a ser geneticamente modificados, organismos geneticamente modificados. A minha preocupação principal foi fazer com que os países BRICS se preocupem em liderar um processo de pesquisa científica, a partir do setor público, que priorize a modificação dos alimentos para valorizar e aumentar os componentes nutricionais, e não de acordo com o que acontece na lógica de mercado de grandes multinacionais desse setor de alimentos, que trabalham com organismos geneticamente modificados para aumentar a capacidade de lucro das empresas. Esse foi um ponto que eu sugeri e foi incorporado ao documento final. Acho que pode ser uma posição muito boa de os países BRICS se unirem e desenvolverem tecnologias para aumentar a qualidade dos alimentos e acabar com o problema de subnutrição dos respectivos países. Se nós pegarmos o número total de pessoas subnutridas no mundo hoje, a metade – cerca de 400 milhões – está na China e na Índia. É um assunto bastante sério, e não se encontra mais na Índia a possibilidade de aumentar as terras cultiváveis porque as terras da Índia já são bastante ocupadas com plantações. Então, temos que melhorar a qualidade do alimento produzido, dando mais nutrientes ao mesmo alimento para poder conseguir acabar com esse quadro de desnutrição. Foi um debate com participantes da sociedade civil, de organizações não governamentais, de câmaras de debates. Foi muito interessante e profícuo.

    S: O Professor Fabiano Mielniczuk mencionou China e Índia. É oportuno lembrar que são os países mais populosos do mundo.

    FM: São. Temos 1,3 bilhão de pessoas na China, 1,2 bilhão na Índia. E são países que sofrem com uma boa quantidade de pessoas que passam necessidades em termos alimentares. É fundamental que os países BRICS troquem experiências em termos de tecnologia. O Brasil desenvolve pesquisas interessantíssimas no âmbito da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.

    S: Representantes dos governos participaram do Fórum BRICS Civil?

    FM: Nós tivemos alguns representantes da diplomacia russa. Como eram os anfitriões do evento, eles vieram apresentar a versão dos russos a respeito da importância do BRICS, e de como a sociedade civil pode colaborar com as decisões tomadas pelos líderes.

     

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    BRICS: organização do futuro (189)

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    Tags:
    Civic BRICS, Rio+20, Guerra Fria, Embrapa, BRICS Policy Center, Audiplo, PUC, G20, BRICS, ONU, Fabiano Mielniczuk, Vladimir Putin, Ufa, África do Sul, Índia, Rio de Janeiro, China, Moscou, Rússia, Brasil
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