12:48 21 Agosto 2018
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    Explosão nuclear (imagem referencial)

    Arma do Juízo Final: os testes mais destruidores de artefatos nucleares

    CC0 / Pixaby
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    O minúsculo atol Enewetak, perdido algures nas vastidões da Micronésia, ficou tristemente célebre 65 anos atrás. Em 1º de novembro de 1952, às 07h05 de acordo com o horário local, os norte-americanos testaram o protótipo da primeira bomba de hidrogênio na história da humanidade.

    Um lugar paradisíaco se transformou em segundos em um inferno artificial. Tudo começou com um relâmpago fortíssimo. A onda de choque, que veio em seguida, varreu com muita facilidade árvores e construções. A água do mar ficou fervendo, a areia começou derretendo e a terra estava em chamas. Por cima surgiu uma enorme nuvem em forma de cogumelo, cuja altura era quatro vezes a do Everest. A potência da explosão foi de 10,4 megatons, o equivalente a quase 700 bombas atômicas lançadas sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Talvez o único "golpe" mais forte que abalou a Terra antes deste tenha sido o asteroide que atingiu a superfície do nosso planeta há 65 milhões de anos e marcou o início da era do gelo. Apesar disso, posteriormente a humanidade já "brincou" muitas vezes com armas ainda mais potentes.

    Este artigo descreve os testes mais destruidores de bombas termonucleares realizados pelas superpotências.

    Bomba-casa

    A arma Ivy Mike destruiu completamente o atol Enewetak. No local da explosão surgiu uma cratera de quase dois quilômetros de diâmetro. Os cientistas norte-americanos, que observaram a detonação de um ponto seguro, ficaram satisfeitos com os resultados dos testes. Eles conseguiram provocar uma fusão nuclear, que em condições naturais acontece apenas nas profundezas do Sol e outras estrelas.

    É difícil qualificar Ivy Mike como uma verdadeira bomba. Era enorme, de dimensão equivalente a uma casa de dois andares e pesava 82 toneladas.

    Nuvem em forma de cogumelo que surgiu após os testes da arma Ivy Mike sobre o Pacífico, 1º de novembro de 1952
    © AP Photo / Los Alamos National Laboratory
    Nuvem em forma de cogumelo que surgiu após os testes da arma Ivy Mike sobre o Pacífico, 1º de novembro de 1952
    Os militares dos EUA realizaram testes de uma bomba de hidrogênio verdadeira apenas um ano e meio depois, em 1º de março de 1954. Os testes, com nome de código de Castle Bravo, tiveram lugar no atol de Bikini, que faz parte das Ilhas Marshall. Este polígono era usado pelo Pentágono para testes de munições nucleares e termonucleares. O novo artefato, que os militares apelidaram de SHRIMP (camarão), era muito mais compacto que o Ivy Mike e representava um cilindro de 4,5 metros de comprimento, 1,35 metros de diâmetro e 10,5 toneladas de peso. Os testes foram realizados a fim de criar uma arma que tivesse um tamanho adequado para ser transportada por bombardeiros pesados. Posteriormente, na base dos resultados de Castle Bravo foi elaborada a bomba aérea de hidrogênio Mk21, que esteve ao serviço dos EUA até 1962.

    A potência calculada da bomba devia ser de quarto até oito megatons. Contudo, sua explosão superou todas as expetativas. A potência dela era equivalente a 15 milhões de toneladas de TNT. Observadores da explosão, que se encontravam em um búnquer, descreveram o efeito da explosão como um terremoto forte que fez seu abrigo tremer de forma fortíssima. A nuvem de cogumelo era muito mais alta que a do Ivy Mike, com 60 quilômetros de altura, 100 quilômetros de diâmetro do "chapéu" e 7 quilômetros do "tronco". A explosão causou destruições muito maiores e mudou para sempre os contornos do atol de Bikini.

    A contaminação radioativa da área foi extremamente grave. De acordo com a mídia norte-americana, Castle Bravo se tornou a explosão mais "suja" de entre todos os testes nucleares dos EUA. Uma área com mais de 550 quilômetros de comprimento e 100 de largura ficou contaminada. O vento espalhou rapidamente precipitação radioativa: sete horas após a explosão, o aumento de radiação de fundo foi registrado a 240 quilômetros de distância do epicentro. A nuvem de precipitação nuclear cobriu o barco de pesca japonês Daigo Fukuryu Maru a 170 quilômetros de Bikini. No resultado, toda a tripulação recebeu uma alta dose de radiação e todos ficaram inválidos. O operador de rádio do barco faleceu seis meses depois. Este incidente provocou uma vaga de manifestações antinucleares no Japão e no resto do mundo.

    Resposta da União Soviética

    O primeiro artefato termonuclear da URSS foi testado em 12 de agosto de 1953 no Campo de Testes de Semipalatinsk, menos de um ano após os testes de Ivy Mike realizados pelos EUA. A potência de RDS-6s era muito menor que a das bombas norte-americanas, cerca de 0,4 megatons. Mas, em comparação com as mesmas, o artefato soviético era muito compacto e facilmente cabia na escotilha de bombas do Tu-16. Contudo, os criadores resolveram não jogar a bomba a partir de um avião, mas a fixaram em um mastro de 40 metros. A cinco metros do local do mastro foi instalado um búnquer reforçado. Em total, nas casamatas subterrâneas e na superfície foram instalados mais de 500 aparelhos de registro e de filmagem. A partir do céu, 16 aviões registravam os testes.

    O sinal para detonação foi soado às 7h30. Cientistas russos, que estavam observando os testes, reconheceram que a potência da explosão superou 20 vezes a produção de energia da primeira bomba atômica da URSS. Edifícios de tijolo à distância de 4 quilômetros do epicentro foram completamente destruídos. Uma ponte ferroviária com vãos de 100 toneladas, que estava situada a um quilômetro do local da explosão, foi jogada a 200 metros como uma caixa de papelão.

    Os testes soviéticos provocaram um verdadeiro pânico nos EUA. Enquanto eles tinham uma bomba de hidrogênio do mesmo tamanho que um chalé, a União Soviética elaborou uma arma destruidora que até mesmo no dia seguinte poderia ser carregada em um avião e jogada por cima do inimigo. Depois, a potência do artefato foi aumentada. A RDS-37, testada em 22 de novembro de 1955, já detonou com 1,6 megatons. Os cientistas, engenheiros e projetistas soviéticos superaram o limite de um megaton.

    Considera-se que a arma termonuclear mais potente de todos os tempos é a bomba de hidrogênio de 58 megatons Tsar Bomba, nome dado à AN602 desenvolvida pela União Soviética nos anos de 1954 a 1961. Este monstro de 26,5 toneladas de peso foi testado em 30 de outubro de 1961 no polígono Sukhoy Nos no arquipélago de Nova Zembla, no oceano Ártico. Um bombardeiro estratégico Tu-95V foi utilizado como portador. A AN602 foi largada sobre o alvo de 10,5 quilômetros de altitude e foi detonada à altura de 4,2 quilômetros. Mesmo depois de o avião-portador ter tido tempo de se distanciar a 40 quilômetros, ele recebeu uma forte onda de choque. Aquilo que os pilotos observaram pessoalmente, mais ninguém nunca viu.

    A bola de fogo se estendeu por um raio de 4,5 quilômetros. A nuvem de cogumelo cresceu até 70 quilômetros, superando os limites de estratosfera. A onda sísmica que surgiu no resultado da explosão, contornou por três vezes a Terra. A radiação luminosa poderia potencialmente causar queimaduras de terceiro grau a uma distância de até 100 quilômetros.

    É interessante que praticamente não foi registrada contaminação radioativa, pois os primeiros participantes do teste apareceram no epicentro depois de apenas duas horas após a explosão.

    Os criadores da Tsar Bomba provaram que a potência de uma arma termonuclear é praticamente ilimitada. Mas, felizmente, ainda nenhum país se decidiu a testar algum artefato ainda mais "pesado".

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    Tags:
    Juízo Final, testes, bomba de hidrogênio, União Soviética, EUA
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