14:53 23 Fevereiro 2020
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    Um novo caso de intervenção dos EUA evidencia como Washington atua na América Latina em relação aos seus governantes e ao povo: a atual campanha de desinformação dos EUA e da CIA no Equador.

    Os ataques mediáticos foram elementos cruciais das campanhas de “poluição informativa”, com interesses políticos encobertos, usados para desequilibrar o Governo de Rafael Correa, denunciou Patricio Barriga, secretário de Comunicações no Equador.

    “Nos países progressistas temos observado que o ataque tem sido feroz nos meios de comunicação, se protegendo com uma falsa defesa da liberdade de expressão que vai numa linha inconfessável dos interesses da direita”, comentou Barriga.

    A realidade do povo equatoriano é manipulada pelos meios de comunicação, tais como Mil Hojas, Plan V e Fundamentos, sob os auspícios da CIA, que  atacam o governo do presidente da República, afirmou Barriga.

    O Equador não é a única vítima de manipulações desse tipo, pois a CIA já tem um portfolio com mais de mil folhas que esboça os aparentes planos obscuros do país norte-americano.

    Guatemala, 1954

    Jacobo Árbenz Guzmán foi eleito democraticamente presidente da Guatemala em1954. Ao incomodar Dwight Eisenhower e a CIA com as suas reformas, as quais prejudicavam especialmente a multinacional United Fruit Company e a oligarquia guatemalteca, foi lançada uma operação encoberta (PBSucess) para derrubar o democrata, tendo a capital da Guatemala sido bombardeada e os líderes camponeses assassinados. A situação somente piorou, terminando numa guerra civil, onde mais de 200 000 pessoas foram mortas, acabando os militares por tomarem o poder do país.

    A atitude dos EUA chamou a atenção de várias figuras púbicas importantes, tais como ‘Che’ Guevara, que esteve no país centro-americano nesse ano e radicalizou as suas posturas anticapitalistas, e o pintor Diego Rivera, que documentou o massacre no seu famoso mural com o título irónico ‘Gloriosa Vitória’.

    'Gloriosa Victoria' de Diego Rivera
    © AFP 2019 / LUIS ACOSTA
    'Gloriosa Victoria' de Diego Rivera

    Haiti, 1959

    François Duvalier virou ditador em 1959, graças à proteção norte-americana. Os EEUU precisavam dele como um instrumento que poderia estabilizar o controle americano na área, ameaçado por um levantamento popular. Assim surgiu o órgão opressor que tirou a vida de mais de 100 000 pessoas — o Milice Volontaires de la Securité Nationale (MVSN).

    Brasil, 1964

    Os benefícios das multinacionais norte-americanas que operavam no Brasil se viram afetadas negativamente com as reformas socialistas de Jango, que estava cumprindo o seu  quarto ano de governo democrático no país. Os EUA não hesitaram em achar uma solução ao problema – oposição de direita e as Forças Armadas receberam apoio para resolver “o inconveniente” mediante um golpe de Estado que tirou Goulart do comando, resultando em aproximadamente 20 anos de ditadura militar.

    Uruguai, 1969-1973

    O surgimento dos Tupamaros (MLN-T), que faziam frente ao controle norte-americano no Uruguai, foi abordado com estratégias cruéis que viraram rotineiras na vida dos uruguaios nos anos 70. Juan María Bordaberry usou a sua ditadura para tirar do mapa inúmeras  pessoas  ‘inconvenientes’, mas os seus crimes não escaparam a punição, e ele foi sentenciado em 2006.

    O filme dirigido por Costa-Garvas, ‘Estado de Sítio’, ganhou o prémio das Nações Unidas e foi nomeado aos Globos de Ouro, ao retratar as ocorrências dignas de um filme de terror que aconteceram na terra uruguaia.

    Bolívia, 1971

    No final de 1966, Ernesto "Che" Guevara chegou à Bolívia para incitar uma revolução contra a ditadura militar do general René Barrientos, que tinha entregado o controle sobre os recursos naturais aos EUA. Dois anos depois, Che foi executado por ordem da CIA.

    No entanto, a junta militar de Juan Jose Torres foi responsável por reformas sociais e laborais anti-imperialistas, o que levou os EUA a preparar um novo golpe no país andino. Assim, em 1971, foi estabelecida a ditadura de Hugo Banzer, que teve como resultado milhares de prisioneiros, mortos e desaparecidos.

    Chile, 1973

    Certamente, a intervenção mais conhecida dos EUA na América Latina foi no Chile no início dos anos 70. Esta culminou com o golpe de 1973, que empurrou o presidente socialista Salvador Allende a morte.

    Salvador Allende en la URSS
    © Sputnik / M. Ganckin
    Salvador Allende en la URSS

    Allende cometeu os mesmos erros que outros presidentes latino-americanos: realizou reformas sociais e laborais, privatizou os recursos nacionais e deu moradia e educação a milhares de pessoas com baixa renda, ou seja, tudo o que ia contra os interesses dos EUA.

    No final das contas, o exército chileno, liderado por Augusto Pinochet e patrocinado pelos EUA, realizou o golpe de Estado em 11 de setembro 1973 e pediu a renúncia imediata de Salvador Allende, que escolheu se suicidar para não se render aos militares.

    "Allende não se rende, militares de merda!" Estas foram as últimas palavras de Allende antes de atirar na sua cabeça de um rifle AK-47 dado a ele como presente por Fidel Castro.

    O regime militar de Pinochet durou até 1990, que depois foi condenado várias vezes por todos os tipos de violações dos direitos humanos e crimes contra a humanidade.
    Salvador Allende se tornou um dos símbolos da luta contra o imperialismo na América Latina, e tem sido imortalizado em canções, filmes e livros, homenageado hoje em todo o continente.

    Argentina, 1976

    A ditadura mais sangrenta da América do Sul, convocada pela Operação Condor, teve lugar na Argentina e foi resultado do golpe de Estado de 1976. Mais uma vez, patrocinado pela CIA, este golpe de Estado serviu para derrubar o presidente, Maria Estela Martinez Perón, e estabelecer o regime de uma junta militar, que permaneceu no poder até 1983.

    Durante a ditadura, dirigida pelo então secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, mais de 30.000 pessoas foram mortas, milhares foram torturadas e desapareceram, e os filhos da oposição foram sequestrados e entregues a famílias militares após seus pais terem sido torturados ou mortos.

    O filme argentino "A História Oficial", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1985, retrata os eventos nos anos da ditadura de Videla.

    El Salvador, 1980

    Após mais de 50 anos de ditadura, entre 1931 e 1981, El Salvador foi dividido e mais de metade do país passou a ser controlado por 13 famílias famosas. A CIA começou, gradualmente, a preparar o exército governamental, fornecendo-lhe armas, para um possível golpe de Estado.

    A situação chegou a tal ponto que a CIA viu nos jesuítas, que ajudaram as pessoas, uma ameaça e ordenou a matar Dom Oscar Arnulfo Romero durante uma missa em 1980.

    A morte de Romero foi o preâmbulo para uma sangrenta guerra civil em El Salvador, que durou mais de 12 anos, na qual se enfrentaram as Forças Armadas de El Salvador as forças rebeldes da Frente da Libertação Nacional de Farabundo Martí. Estes acontecimentos foram imortalizados no filme Romero de 1989.

    Panamá, 1989

    Em 1983, Manuel Antonio Noriega, um suposto agente da CIA, se tornou o presidente do Panamá, um país que sempre foi de imensa importância para os EUA. Embora Noriega fosse fiel aos EUA, ele tinha grande poder, sendo um traficante de drogas. Gradualmente o dinheiro e poder adquirido o fizeram um problema para a agência.

    Em 1989, Noriega se recusou a aceitar os resultados das eleições, ganhas pelo representante da oposição, Guillermo Endara Galimany. Em vez disso, Noriega nomeou como presidente Francisco Rodriguez, um dos seus seguidores.

    Isto levou à invasão americana no Panamá em 1989, conhecida como Operação Causa Justa, cujo objetivo era capturar e extraditar Noriega. Os EUA conseguiram o que queriam mas somente depois de matar cerca de 4.000 pessoas.

    Peru, 1990

    Alberto Fujimori é outro ditador que deixou muito sangue na história da América Latina. Este engenheiro chegou ao poder com a ajuda dos EUA e do Fundo Monetário Internacional, que viram na sua chegada ao poder a oportunidade de controlar o país. O papel mais importante nesta história pertenceu a Vladimiro Montesinos, ex-agente da CIA e chefe do Serviço de Inteligência de Fujimori.

    Fujimori criou um grupo militar que foi responsável por assassinar ativistas de esquerda e marxistas, incluindo membros do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Tupac Amaru.

    Em 2009, Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão. Hoje, continua cumprindo sua sentença.

    Estas são apenas algumas das histórias terríveis relacionadas com o papel da CIA na América Latina, que pouco a pouco aparecem graças aos documentos divulgados pelo site Wikileaks, por exemplo, e a desclassificação e publicação de antigos arquivos norte-americanos.

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    Tags:
    vítimas, história, conspiração, golpe de Estado, manipulação, política, ameaça, CIA, Rafael Correa, Estados Unidos, América Latina, América do Norte, EUA, Equador
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