06:00 23 Outubro 2017
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    Edgard Raoul com criança refugiada desfalecida, na Ilha de Lesbos, na Grécia.
    Arquivo Pessoal

    Entrevista exclusiva: Brasileiro conta sua experiência como refugiado na Europa

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    Advogado especializado em Direitos Humanos, Edgard Raoul, de 30 anos, resolveu deixar o trabalho e a vida confortável em São Paulo para passar 26 dias vivendo como refugiado de guerra na Europa. Em entrevista exclusiva, ele contou sua aventura à Sputnik Brasil.

    Edgard Raoul passou por 8 países (Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia, Croácia, Eslovênia, Áustria e Alemanha) junto com sírios, iraquianos e afegãos, ajudando a quem podia e enfrentando o frio e a fome, para poder entender a crise humanitária pela visão de um verdadeiro refugiado.

    O jovem paulista lembra que sua tomada de decisão de ir para a Europa partiu do reconhecimento do fato de estar diante da maior crise de refugiados depois da Segunda Guerra Mundial. E, por ser um advogado especializado em Direitos Humanos, ele não podia deixar de se envolver na causa.

    “A minha ideia foi entender como os países mais poderosos e ricos do mundo estão lidando com a crise e também como as organizações internacionais trabalham diante da questão.”

    A viagem de Edgard Raoul começou em março de 2015. Inicialmente o advogado foi para Nova York, para aprender com as grandes organizações humanitárias como agir com os refugiados. Em seguida foi ser voluntário na Turquia e na Grécia, e depois decidiu viver como refugiado numa rota até a Alemanha.

    “A maioria das grandes organizações tem suas sedes em Nova York, e eu entendi ser aquele um local interessante para checar e também para entender a visão norte-americana diante do assunto. Passados alguns meses, resolvi ir para a Turquia e para a Grécia, porque entendi que a minha atuação em campo seria mais produtiva do que em Nova York.”

    Após trabalhar como voluntário independente por 22 dias na ilha grega de Lesbos, o advogado percebeu que ali há muita atenção para crianças e bebês, mas que os jovens recebem pouco apoio, e foi nessa posição de homem jovem, solteiro e sem dinheiro que Edgard Raoul se colocou como refugiado.

    “Entende-se, e é verdade, que o homem solteiro não precisa de tanta assistência quanto uma criança, como um bebê, mas o homem solteiro também sofre, também tem dor, sente fome e frio, e como sou homem, jovem e solteiro, essa era a única maneira de me enquadrar como refugiado. Eu me tornei um refugiado justamente para entender a crise na perspectiva de um refugiado, porque até então eu entendia a crise na perspectiva de um voluntário e de um advogado.”

    Para Raoul, o momento mais marcante da viagem foi quando ele, ainda como voluntário em Lesbos, ajudou um pai que chegou com a filha em um bote e a criança estava praticamente sem vida.

    “Eu estava na costa, junto com outros voluntários, esperando os botes chegarem, e num dos botes um pai desesperado carregava a filha inconsciente. Eu me aproximei do pai e, tentando ajudar de alguma forma, recebi a filha dele em meus braços. E pude sentir naquele momento toda a injustiça em relação à crise de refugiados, porque senti em meus braços uma criança sem vida, considerando que ela estava desacordada, inconsciente, pálida, completamente gelada. Felizmente, porém, ela sobreviveu e pôde continuar sua jornada.”

    Edgard Raoul conta que a presença dele como brasileiro causou desconfiança em alguns refugiados e em policiais, mas de forma geral ele não teve problemas para se relacionar.

    “Como voluntário, quando descobriam que eu era brasileiro, a reação deles era completamente positiva e muito alegre. Eles começavam a falar os nomes dos nossos jogadores de futebol, como Neymar, Ronaldo, Roberto Carlos, Ronaldinho e Kaká, e isso rendia horas de bate-papo e era um quebra-gelo. Como refugiado, no meio do percurso eles desconfiavam da minha posição, porque não conseguiam entender como um brasileiro estava vivendo nas mesmas condições que eles. Havia certa resistência no começo, mas depois a gente se entendia e seguíamos a jornada juntos.”

    O advogado falou ainda da relação dos refugiados com a polícia e disse que em muitos momentos fez um papel de mediador nos conflitos no trajeto até a Alemanha.

    “Durante todo o meu percurso eu pude atuar como mediador, a fim de deixar mais amena, mais tranquila, a relação entre autoridades e refugiados. É difícil assistir àquela situação, seja para o voluntário, para o policial, para o soldado. Algumas vezes, quando as autoridades estavam mais agressivas, eu tentava conversar com elas, para mostrar que os refugiados não têm culpa da situação, que a circunstância é muito dura e que nós podemos contornar a situação ou viver a situação de uma forma mais amena. Na qualidade de mediador, a minha ideia era conscientizar as autoridades a respeitarem a integridade física dos refugiados e também explicar aos refugiados que os policiais e soldados obedecem ordens, não se trata de algo pessoal.”

    Segundo Edgard Raoul, a Grécia e a Alemanha são os países que melhor atendem e recebem os refugiados. Já a Macedônia e a Sérvia são os que oferecem menos condições, ressaltando ainda que os refugiados são explorados pelos comerciantes locais. O advogado contou que chegou a pagar 10 euros, cerca de R$ 44, por uma maçã, para dá-la a uma criança síria. E diz também que na Macedônia e na Sérvia as populações locais não são receptivas. Lá os refugiados não têm ainda a proteção total das autoridades, o que possibilita que as máfias locais e outras pessoas explorem e tirem vantagem da situação dos refugiados.

    Edgard Raoul com um jovem refugiado sírio.
    Arquivo Pessoal
    Edgard Raoul com um jovem refugiado sírio.

    Depois dos quase 3 mil quilômetros percorridos entre a Grécia e a Alemanha em 26 dias, vivendo como um refugiado, Edgard Raoul quer partir para a próxima etapa de sua experiência. Ele diz que a primeira parte foi na Ilha de Lesbos, na Grécia, para entender o local aonde os refugiados estão chegando. O segundo momento foi perceber como se dá a travessia até a Alemanha, que é o local aonde a maioria dos refugiados quer ir. E a terceira etapa, a próxima, será no Oriente Médio.

    Somente depois dessa viagem final é que o advogado vai resolver o que vai fazer com toda essa experiência.

    “A minha ida para o Oriente Médio visa a entender os locais de onde os refugiados estão saindo. A ideia é compreender os três momentos, e eu acredito que após o Oriente Médio vou ter uma noção melhor da crise dos refugiados.”

    O brasileiro agora se prepara para a primeira parada no Oriente Médio, que será na Jordânia. Depois ele seguirá para Líbano, Iraque, Afeganistão e, por fim, Síria.

    Finalmente, para resumir sua experiência entre os refugiados, Edgard Raoul diz que apenas seguiu um desejo, um sonho. “Tenho vivido o melhor momento da minha existência, porque resolvi seguir realmente o que desejo na vida, que é auxiliar e ajudar as pessoas em campo. Nós temos que ser leais a nós e à nossa carreira, independentemente do preço que se vá pagar.” 

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    Tags:
    voluntários, assistência humanitária, campo de refugiados, experiência, refugiados, Macedônia, Áustria, Nova York, Turquia, Oriente Médio, Grécia, Irã, Iraque, Afeganistão, Sérvia, Croácia, Alemanha, Brasil
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