07:58 29 Outubro 2020
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    Os lançamentos da bomba atômica, pelos Estados Unidos, sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki completaram 70 anos nos dias 6 e 9 de agosto, respectivamente. Yasuko Saito, diretora da Associação Hibakusha Brasil pela Paz, comenta para a Sputnik Brasil os trágicos e covardes eventos agora lembrados.

    No domingo (9), realizou-se em Nagasaki uma cerimônia para recordar a tragédia da morte de cerca de 80 mil pessoas. O evento reuniu sobreviventes e autoridades de vários países, que chamaram a atenção para o alerta de que o Governo japonês quer diminuir as restrições às forças armadas no país, pois, segundo as vítimas, isso tiraria o caráter pacifista da Constituição japonesa.

    Em nosso país, a Associação Hibakusha Brasil pela Paz, fundada em 1984 por sobreviventes que migraram para o Brasil e se uniram com o objetivo de solicitar ao governo japonês alguns benefícios, como assistência médica, continua atuante. Segundo uma das diretoras da Associação, a professora de História Yasuko Saito, que nasceu no Japão dois anos depois das bombas de Hiroshima e Nagasaki, a assistência para as vítimas só era concedida aos sobreviventes que moravam no Japão. “Para aquelas vítimas que por vários motivos saíram do país após a guerra, o Governo japonês negava esse auxílio. A nossa luta então começou naquele momento.”

    Saito explica que seu pai, Takashi Morita, fundador da entidade no Brasil, foi um sobrevivente em Hiroshima, onde o ataque aconteceu quando ele tinha apenas 21 anos. “Ele era de Hiroshima, mas foi para Tóquio, onde se formou como policial militar. Na ocasião, escolheu a cidade natal para servir, e estava em Hiroshima há menos de uma semana quando caiu a bomba atômica. Ele estava liderando um grupo de soldados para fazer um abrigo antiaéreo. Tinha saído do alojamento, que ficava uns 800 metros do epicentro da explosão, e estava caminhando por um local a 1,5 km do epicentro.”

    De acordo com a professora, o pai se lembra muito bem do momento do ataque e diz que um dos motivos de ter se salvado é porque estava fardado com roupas pesadas. “Agosto no Japão é uma época muito quente, e muitas pessoas, civis, estavam com camisas leves, mas ele não”, diz Yasuko Saito. “Ele estava muito bem fardado, uniforme pesado, de chapéu, e de costas para o epicentro. E diz que se salvou por causa disso. Meu pai foi arremessado por vários metros, e quando levantou os olhos viu que à curta distância as casas e escolas estavam sendo esmagadas como pisadas por um gigante. Depois vieram a escuridão e o silêncio. Quando ele se levantou minutos depois, chamou pelas pessoas que estava liderando, alguns responderam, mas outros, não. Por três dias ele ainda ficou na cidade, tentando socorrer e fazendo o que podia. No terceiro dia, um médico mandou que ele fosse para um hospital improvisado fora da cidade, porque os ferimentos dele já estavam muitos graves.”

    Yasuko Saito observa que na ocasião dos ataques não se sabia nada sobre os efeitos da radiação, e muitas vítimas sofreram com a desinformação e o preconceito. “Por 10 anos depois da guerra as vítimas da bomba atômica foram tratadas como vítimas normais de um evento normal da guerra. Antes do preconceito, eles tinham problemas de saúde que ninguém sabia o que era, principalmente as pessoas que não estavam no local, mas que entraram na cidade dentro de um espaço de tempo que se contaminaram com a radiação. Eles não tinham nada de ferimentos aparentes, só que começavam a ficar muito doentes, e era uma doença que ninguém conhecia.”

     O pai de Yasuko, Takashi Morita, está com  91 anos e é um comerciante estabelecido em São Paulo que até hoje faz questão de passar sua história como sobrevivente para que as tragédias de Hiroshima e Nagasaki não mais se repitam no mundo. E Morita foi convidado pelas autoridades japonesas a participar da cerimônia dos 70 anos da bomba atômica em Hiroshima.

    O Memorial da Paz de Hiroshima após o bombardeio de 6 de agosto de 1945 e hoje.
    © REUTERS / Masami Oki/Hiroshima Peace Memorial Museum/Issei Kato
    A diretora da Associação Hibakusha Brasil pela Paz explica que anualmente são realizadas cerimônias para lembrar as vítimas. “No dia 6 de agosto, num templo budista, e no dia 9, missa numa igreja católica, porque Nagasaki é uma cidade cristã dentro do Japão. Fizemos o mesmo este ano.”

    Em São Paulo existe ainda a Escola Técnica Estadual Takashi Morita, que tem como objetivo ser um símbolo de entidade que trabalha para a divulgação dos efeitos nocivos da radiação.

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    Tags:
    bomba atômica, bombardeiro nuclear, radiação, Associação Hibakusha Brasil pela Paz, Yasuko Saito, Takashi Morita, Hiroshima, Nagasaki, EUA, Japão, Brasil
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