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    Cédulas de real

    Economista: o que parecia ser consequência da crise era manipulação

    Fotos Públicas / Rafael Neddermeyer
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    O órgão supervisor do Departamento de Serviços Financeiros de Nova York (DFS) divulgou um documento nesta semana indicando que o real foi uma das moedas afetadas pela manipulação do mercado cambial envolvendo alguns dos maiores bancos do mundo entre os anos de 2008 e 2012. Sobre esse assunto, falou à Sputnik o economista Gilberto Braga, do Ibmec.

    O esquema internacional, protagonizado por Barclays, Citibank, JP Morgan, Royal Bank of Scotland (RBS), UBS e Bank of America, foi alvo de uma longa investigação pelas justiças dos EUA e do Reino Unido e resultou em multas de US$ 5,6 bilhões para as instituições responsáveis por essa "ação criminosa em larga escala", segundo o FBI. No entanto, a influência sobre a moeda brasileira só foi revelada após a divulgação do acordo final de compensação entre autoridades americanas e o Barclays, assinado na última terça-feira. O banco britânico sofrerá a maior punição e terá que pagar cerca de US$ 2,4 bilhões. 

    De acordo com o Departamento de Justiça norte-americano, no período logo após a crise financeira global, de 2008, operadores financeiros dessas diferentes instituições estabeleceram um cartel para manipular, através de estratégias combinadas por mensagens eletrônicas, os preços das moedas. Com isso, eles conseguiam influenciar os mercados e garantir lucros consideráveis.

    Em entrevista à Sputnik, o economista Gilberto Braga, professor do Ibmec e da Fundação Dom Cabral, lembrou que em 2009, quando teria ocorrido essa tentativa de manipulação, ou manipulação efetiva, do real, "se falava em ataques especulativos a países emergentes, que seriam as economias 'bola da vez', após os conflitos econômicos da crise do subprime do ano anterior". Nessa época, afirma o especialista, "se dizia que nós vivíamos em um ambiente de contaminação e que, portanto, os efeitos negativos da economia americana já se faziam sentir na Europa e, dentro de um efeito de propagação, iriam atingir os BRICS". O Brasil, uma das economias citadas como alvo, experimentou efetivamente "um período de subida da cotação da moeda norte-americana e, em contrapartida, naturalmente, uma desvalorização do real". 

    "Se falava muito que parte desse movimento tinha um fundamento, em relação à crise do sistema, porque o sistema capitalista estava ruindo e as moedas iriam ruir junto por falta de lastro. E havia análises até mais de ciência política do que de dados financeiros propriamente ditos. Mas o fato é que nós vivemos uma especulação com a moeda", declarou Braga. A novidade nisso tudo, segundo ele, é que aquilo que todos pensavam ser um movimento do mercado e consequência da crise era, em parte, "uma manipulação combinada de grandes agentes financeiros" de grandes bancos. 

    Levando em consideração o fato de que o Barclays recebeu a maior multa, o economista brasileiro acredita que o banco britânico tenha tido uma participação mais ativa no processo. Em declarações à imprensa do Reino Unido, o executivo-chefe da instituição, Antony Jenkins, lamentou profundamente o ocorrido e disse que as ações conduzidas por alguns de seus funcionários eram incompatíveis com os valores do banco, que, como parte do acordo firmado com a justiça, terá que demitir oito colaboradores. 

    Para Gilberto Braga, é importante destacar que os corretores e os bancos brasileiros não foram um alvo exclusivo dos boicotes e dessa conspiração internacional, que tinha como objetivo lucrar com o câmbio das moedas. 

    "Esses ativos financeiros são também negociados sob a forma de contratos. Muitos desses contratos lastreiam operações de comércio exterior, lastreiam apostas no mercado futuro etc. Então, sabendo que você tem a possibilidade de interferir para que o comportamento de um desses ativos se dê dentro de um sentido que você já sabe qual será, você pode fazer apostas e se aproveitar da confirmação desse cenário que você vem apostando. É nesse sentido que a gente pode entender essa especulação, aparentemente muito mal feita, porque deixou rastros e foi identificada". 

     

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    Tags:
    manipulação, crise financeira, Bank of America, UBS, Royal Bank of Scotland (RBS), JP Morgan, Citibank, Barclays, Fundação Dom Cabral, Ibmec, Sputnik, BRICS, Antony Jenkins, Gilberto Braga, Nova York, Reino Unido, EUA, Brasil
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