14:32 25 Março 2017
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    Relatório estadunidense prevê “fragmentação” da Rússia até 2025

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    O relatório traz um prognóstico meio inesperado sobre a Federação da Rússia, dizendo que esta irá “se fragmentar” nos próximos dez anos, em função do conflito na Ucrânia e do fortalecimento dos laços dos países vizinhos com o Ocidente.

    A agência estadunidense de inteligência e análise Stratfor publicou um relatório com previsões geopolíticas para 2015-2025 que se tornou manchete mundial imediatamente. Os autores do documento destacam como eventos mais importantes que esperam o mundo a fragmentação da Rússia, o colapso da União Europeia, o fortalecimento da Turquia, o declínio da China e o crescente poder político e econômico dos EUA.

    A Rússia é o tema central do relatório. O conflito da Ucrânia, que irá persistir, segundo os especialistas, permanecerá “o elemento central do sistema internacional nos próximos anos”. Depois disso, os autores começam a tratar da Federação da Rússia, insistindo que o país “não pode continuar existindo na sua forma atual por uma década inteira”.

    Já segundo vários analistas contatados pela Sputnik, tal previsão é errônea. Por exemplo, o jornalista brasileiro Mário Russo disse:

    “A parte que me preocupa é que essas previsões em relação à Rússia são ao mínimo apocalípticas, parciais ou pretensiosas”.

    Falar sobre desmembramento ou fragmentação de um Estado nos próximos dez anos é bastante arriscado e forte, é preciso ter provas suficientes para justificar tal previsão. E os analistas da Stratfor não apresentam essas provas, afirma José Niemeyer, professor de Relações Internacionais do Ibmec do Rio de Janeiro.

    Outro assunto importante destacado pelos autores do relatório é o crescimento do papel da OTAN e dos EUA na “linha de frente” entre a Europa Central e a Rússia. Esta “linha” tem como pontos especialmente importantes a Polônia e a Romênia, países que estão se alinhando claramente mais e mais com os EUA.

    Até prognosticam que a Polônia irá se tornar o Estado mais influente (do ponto de vista da OTAN e dos EUA), opinião esta compartilhada por certos especialistas e rejeitada por outros.

    A China também mereceu um prognóstico pouco positivo. Segundo os analistas da Stratfor, o seu problema, tal como a Rússia, é a imensidão do seu território, mas nesse país não haverá cisão ou fragmentação, senão declínio econômico e fortalecimento do modelo autoritário de governação. Sem isso, acreditam os analistas do Texas, não é possível governar o país, que tem problemas em várias fronteiras, por exemplo com a Mongólia e com o Tibete.

    Não obstante, há um grande país que não irá ter nenhum separatismo, fragmentação ou autoritarismo. São os EUA, aponta o relatório. Este país, que, ademais, será “a maior economia do mundo”, irá se centrar na agenda interna, deixando de lado por um tempo os assuntos de segurança internacional. Portanto, segundo a agência, isto trará mais força política, inclusive no palco internacional, aos Estados Unidos.

    Voltando à agenda mundial, os analistas preveem o fortalecimento das posições da Turquia no Oriente Médio, graças também à sua parceria com os EUA.

    Stratfor esqueceu-se de algo importante

    Vários especialistas consultados pela Sputnik destacaram a relativa ausência no relatório da América Latina e do Caribe. Segundo o professor Niemeyer, isto significa que a Stratfor e os EUA não consideram esta região como "relevante".

    Mas a região é relevante, sim, afirma Fernando Bossi, editor-chefe do portal venezuelano ALBA. Entre os países desta região, a Nicarágua tem mais oportunidades: "Manágua pode se transformar em um jogador regional sério, com uma economia forte, caso o canal que liga dois oceanos seja construído".

    O doutor Bossi explica que os autores do relatório podiam estar preocupados com o fortalecimento dos laços entre a Rússia e a China e a América Latina, por isso prepararam não um relatório completo, senão um "esboço". O jornalista concorda que o mundo estará sujeito a grandes mudanças nos próximos dez anos, mas estas mudanças bem podem ser diferentes das que a equipe da Stratfor delineou.

    Zhang Xin, do Instituto das Relações Internacionais e Desenvolvimento Regional da Universidade Pedagógica Oriental da China também nota que os analistas da Stratfor "esqueceram-se" das relações russo-chinesas na parte do relatório que comenta a situação na Ásia Oriental. Segundo o cientista, "É a parceria militar entre a China e a Rússia que, durante um período bastante largo de tempo, irá influenciar a situação geopolítica e militar na Ásia Oriental e na região asiática do Pacífico".

    Já segundo o ex-presidente da Eslováquia, Jan Carnogursky, o relatório da Stratfor é "uma aplicação dos critérios anglo-saxônicos à Rússia, sem ter em conta os laços históricos que mantêm a Rússia unida".

    "As lições da história russa não são expressas só em termos de dinheiro. De outro lado, se o fardo financeiro levar o sistema norte-americano ao colapso, não há laços históricos capazes de manter a sociedade heterogênea norte-americana unida", acredita o ex-presidente.

    Este é o quinto relatório da Stratfor, que publica previsões desde 1995.

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