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    O primeiro incêndio florestal de grandes proporções neste verão português começou na madrugada desta terça-feira (17) em Faro, no sul do país, e foi controlado no fim da tarde por mais de 600 bombeiros. Em entrevista à Sputnik Brasil, um especialista diz que todos os partidos políticos têm culpa no cartório.

    O foco inicial do fogo foi registrado no município de Castro Marim e se estendeu a outras duas cidades vizinhas, Tavira e Vila Real de Santo António, obrigando cerca de 80 pessoas a deixarem suas casas. Não houve vítimas, apenas um bombeiro com ferimentos leves. 

    De acordo com as autoridades locais, as chamas chegaram a se alastrar por um perímetro de 43 quilômetros e consumiram cerca de nove mil hectares. Com uma velocidade de 650 ha/hora, o fogo teria capacidade de queimar 20 mil hectares caso não fosse debelado a tempo. Uma oficina foi atingida, mas ainda não foi feito o levantamento dos danos materiais.

    Em comunicado enviado à imprensa, o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) informou que nove aeronaves apoiaram o combate ao incêndio no município do Algarve. 

    "Destas aeronaves fazem parte dois 'Fire Boss' do Centro de Meios Aéreos (CMA) constituído na BA11, dois 'Canadair' do CMA de Castelo Branco e quatro 'Fire Boss' dos CMA de Ponte de Sor e de Viseu, que foram movimentados para a base, assim como um helicóptero 'Koala' da Força Aérea, que efetua a coordenação dos meios", lê-se em um trecho.

    Aviões das Forças Armadas Portuguesas utilizados no combate a incêndios
    © Foto / Reprodução/FAP
    Aviões das Forças Armadas Portuguesas utilizados no combate a incêndios

    O EMGFA acrescenta que o Exército empenhou dois destacamentos de engenharia, duas máquinas de rasto (tratores que abrem caminho para evitar reacendimentos), apoiando no combate indireto ao incêndio, na proteção das populações e no rescaldo. Conforme a nota, a Marinha, o Exército e a Força Aérea prosseguem o reforço ao dispositivo nacional de vigilância e detecção de incêndios rurais com 38 equipes, num total de 76 militares, efetuando patrulhas terrestres em vários pontos de Portugal. 

    "Neste apoio, as Forças Armadas contam ainda com dois veículos aéreos não tripulados, da Força Aérea, a operar a partir da Lousã e Beja, bem como dois drones, do Exército, em Portalegre, no apoio das patrulhas terrestres", lê-se em outro trecho do comunicado.

    Na última sexta-feira (13), o Partido Social Democrata (PSD) requereu explicações ao governo pelo fato de, pelo segundo ano consecutivo, a capacidade operacional de 12 drones de detecção de incêndios da Força Aérea Portuguesa (FAP) estar reduzida. A pressão política ocorreu após a queda de mais um drone, próximo à Base de Beja, deixando-o destroçado, um dia antes, conforme revelou o Diário de Notícias.

    De acordo com o jornal, foi o quarto incidente desde o verão do ano passado envolvendo drones, e a segunda vez que a FAP parou a operação de apoio ao Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais (DECIR). Os voos foram reativados no último sábado (14), mas apenas com três dos 12 drones, comprados por € 4,5 milhões (R$ 27,9 milhões).

    "O levantamento das restrições relativas à operação destes veículos deve-se ao teor da avaria que foi identificada no drone acidentado no passado dia 11 de agosto e à reduzida probabilidade de esta vir acontecer novamente, conforme conclusões do relatório preliminar da Comissão Central de Investigação da Inspeção-Geral da Força Aérea", lê-se em uma nota no site do EMGFA.

    Drones permitem perceber velocidade de expansão do fogo

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista em incêndios e proteção civil António Bento Gonçalves, professor do departamento de Geografia da Universidade do Minho, diz que não são raros acidentes com veículos aéreos não tripulados.

    "É normal haver alguns acidentes com drones, porque, dependendo do modelo, eles têm mais resistência para uma determinada velocidade do vento, há algumas correntes ascendentes que o próprio incêndio gera e, dependendo da altura, podem ter alguma influência", explica Bento Gonçalves.

    Segundo o EMGFA, os drones partilham as imagens recolhidas em tempo real com o Comando de Operações Conjuntas do Comando Conjunto para as Operações Militares (CCOM), do EMGFA, com a Guarda Nacional Republicana e com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), permitindo maior celeridade na análise e resposta por parte das entidades no terreno.

    Bento Gonçalves reforça a importância dos veículos não tripulados como de todas as outras ferramentas disponíveis para o combate aos incêndios. De acordo com o especialista, em condições aceitáveis, eles podem ser muito úteis porque permitem perceber a dinâmica do incêndio, a direção e a velocidade de expansão.

    "Portanto, podemos reposicionar os meios de combate em função dessa progressão, com base em modelos e uma série de estudos. Nesse sentido, os drones como são os nossos 'olhos' no céu que podem ser facilmente colocados no local do incêndio, se o incêndio não tiver determinadas particularidades como libertar muito fogo e correntes ascendentes", detalha.
    O perito em incêndios e proteção civil António Bento Gonçalves, professor da Universidade do Minho
    © Foto / Divulgação/UMinho
    O perito em incêndios e proteção civil António Bento Gonçalves, professor da Universidade do Minho

    Questionado pela Sputnik Brasil se havia aproveitamento político dos incêndios por parte de determinados partidos, Bento Gonçalves não poupou nenhum. Na opinião dele, todos que governaram o país desde a Revolução de 25 de Abril de 1974 têm responsabilidade por terem virado as costas para o interior do país, permitindo o desordenamento do território e a falta de gestão do espaço florestal.

    "Infelizmente, temos todo um conjunto de políticos que falam sem saber rigorosamente nada do que estão a falar. Quando vemos o panorama político dos diferentes partidos, todos têm inquestionavelmente culpa no cartório", critica.

    O perito exemplifica com a demora da entrada em vigor da legislação que proibiu ações de arborização com eucaliptos, permitindo a rearborização com essas árvores quando a ocupação florestal constitua um povoamento puro ou misto dominante. Apesar de ter sido publicada em 2017, após os incêndios em Pedrógão Grande, que deixaram 66 mortos, a lei só entrou em vigor em 2018. 

    Proibição de plantar eucaliptos demorou 2 anos para entrar em vigor

    Ainda assim, quem tivesse recebido autorização para o plantio de eucaliptos até 31 de dezembro de 2017 poderia efetuá-lo até 31 de dezembro de 2019. Bento Gonçalves reforça que, quando se está próximo de eleições, como as autárquicas em setembro, todos os partidos se aproveitam politicamente da questão.

    "Veja a chamada liberalização das plantações dos eucaliptos promovida por um governo do qual o CDS fazia parte, a ministra da Agricultura foi a responsável na altura. Depois, entrou o PS, que decidiu anular essa lei, mas que só entrou em vigor essa anulação anos depois e, portanto, as plantações continuaram a ser feitas. Especula-se muito, usa-se muito essa questão como arma de arremesso, mas a ignorância é demasiada, e há aproveitamento político muitas vezes", compara.

    Apesar de reconhecer que os eucaliptos dão rendimentos a quem precisa, ele alerta que a árvore tem características mais inflamáveis. Segundo ele, com a profunda desestruturação do mundo rural, a única forma de rentabilizar locais sem mão de obra e com uma população envelhecida é plantar espécies que não requerem grandes cuidados, com rápido retorno e investimento baixo.

    O professor ressalta que a melhor arma para prevenção aos incêndios é a educação de todos, desde o povo até os políticos, passando pela imprensa, a quem responsabiliza pela espetacularização do drama vivido pelas vítimas. Nesse sentido, ele acredita que houve avanço após a catástrofe de 2017. 

    "É completamente inaceitável, no século XXI, pessoas perderem vidas em incêndios florestais. Temos que apostar na educação das pessoas nos vários níveis. Mas também temos que educar os políticos para não haver políticas [públicas] numa perspectiva de 4 ou 5 anos, pois tudo isso precisa de 30 ou 40 anos para ser trabalhado. Se tiverem essas pressas dos ciclos políticos, não vamos a lado nenhum", ensina.

    Indagado pela Sputnik Brasil se Portugal poderia voltar a sofrer com incêndios nas proporções dos de 2017 ou mesmo dos que têm atingido a Grécia e a Turquia, Bento Gonçalves destaca que a desregulação do clima tem avançado muito rapidamente, e a capacidade de resposta humana não tem sido tão célere como as mudanças efetuadas pelos sistemas naturais. 

    Incêndio em Pedrógão Grande, parte central de Portugal, 18 de junho de 2017
    © REUTERS / RAFAEL MARCHANTE
    Incêndio em Pedrógão Grande, parte central de Portugal, 18 de junho de 2017

    Por isso, apesar de reconhecer que as pessoas estão mais conscientes de quando não podem usar o fogo e sobre o que devem fazer em caso de incêndios, ele não descarta o risco de novas chamas devastadoras.

    "Aprendemos muito com 2017 e acredito que, em situações similares, não tenhamos episódios tão dramáticos como naquele ano. Mas continuamos a ter uma mancha florestal enorme, extensíssima por todo país, não ordenada, não gerida. Portanto, infelizmente, temos potencial para ter grandes incêndios e muito destruidores", reconhece.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    incêndio, Portugal, Algarve, Faro, Força Aérea, Exército, bombeiros, fogo
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