17:38 04 Agosto 2020
Ouvir Rádio
    Europa
    URL curta
    Por
    3166
    Nos siga no

    Mais de 34% dos estudantes universitários de Lisboa e das cidades da região metropolitana já foram vítimas, pelo menos uma vez, de algum tipo de violência sexual física. O número faz parte de um estudo apresentado nesta terça-feira (10), na capital portuguesa.

    O estudo foi realizado pela Federação Acadêmica de Lisboa (FAL), através de questionários, com estudantes de cursos de licenciatura, mestrado e doutorado entre os 17 e os 30 anos. Entre os casos de violência física, 22% responderam que alguém já "acariciou, beijou ou se esfregou nas partes íntimas e genitais contra a minha vontade" e 14% foram coagidos a praticar atos sexuais.

    "Sentíamos que havia problemas e muita incidência de abusos, então resolvemos averiguar para ver qual era mesmo a realidade. Entrei no ensino superior em 2014 e já naquela altura havia colegas a falar sobre esses problemas. Infelizmente pouco ou nada foi feito", diz à Sputnik Brasil a presidente da entidade, Sofia Escaria.

    O estudo também mostra que 61% dos estudantes foram vítimas de assédio sexual pelo menos uma vez e 65% já ouviram comentários provocativos de natureza sexual. De acordo com Sofia Escaria, autoridades nacionais e municipais "ficaram muito alarmadas".

    A Câmara Municipal de Lisboa, órgão equivalente às prefeituras brasileiras, solicitou os dados para "começar a lançar internamente e definir uma campanha de divulgação para a cidade toda sobre este tema e sobre o estudo. Vamos ter reuniões para definir medidas concretas a princípio na semana que vem", diz a presidente da FAL. A nível nacional, representantes da entidade participam de uma reunião nesta quinta-feira (12) com o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, João Teixeira Sobrinho.

    Estrangeiros vulneráveis

    Portugal se mostra cada vez mais aberto à internacionalização acadêmica. Dados recentes do governo somam 50 mil alunos estrangeiros no ensino superior nacional atualmente. Só a Universidade de Lisboa, a maior do país, recebe todos os anos cerca de 6.900 estudantes internacionais, vindos de mais de 100 países. Neste cenário, o estudo da FAL levanta questionamentos.

    O relatório mostra que 46% das vítimas são estudantes deslocados da sua área de residência. Não existe nenhuma distinção entre nacionalidades, mas as entidades estão atentas à vulnerabilidade de grupos estrangeiros. "Não é claro neste estudo, mas também é percepção nossa que essas situações acontecem muito com a comunidade imigrante na academia. Se pensarmos que muitos estudantes se encontram isolados de referência familiar, de comunidade, mesmo dentro da faculdade, isto aumenta o grau de vulnerabilidade dos mesmos e das mesmas. Temos que pensar nisto", diz à Sputnik Brasil Daniel Cotrim, assessor técnico da direção da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que prestou assistência à FAL para realização do estudo. 

    De acordo com o técnico, as autoridades agora devem atuar para conscientizar e eliminar riscos. O estudo mostra que a maioria dos alunos se sente insegura em áreas próximas dos campi acadêmicos, como estacionamentos, e nos trajetos entre casa e faculdade. Entre as recomendações feitas no documento, estão ações simples.

    "Os responsáveis pelos campi acadêmicos de Lisboa devem ter em atenção que o espaço público é perigoso. A primeira, e acho que é muito concretizável, é colocar postes de iluminação, alterar o próprio espaço físico em volta das universidades", explica Daniel Cotrim. "Por outro lado, também criar planos de contingência dentro das próprias universidades, para saberem lidar com as questões e saberem fazer as pontes com as associações de apoio às vítimas que estão nas comunidades. Esse caminho não tem sido feito. No âmbito das recomendações, estas são as mais concretizáveis."

    Mais:

    Sede da COP25 em 2020, Portugal destaca capital verde e avanço das energias renováveis
    Chile condena Igreja Católica a indenizar vítimas de abuso sexual
    Para Portugal OTAN seria ameaça mais séria que 'inimigos imaginários'
    Tags:
    violência sexual, Lisboa, Portugal
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar