16:31 19 Outubro 2021
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    Os cidadãos italianos se manifestaram claramente contra a reforma constitucional do premiê Matteo Renzi – quase 60% dos participantes do referendo votaram negativamente. O premiê vai embora, mas o mais interessante ainda está pela frente. E o que será?

    "Meu governo termina. Eu me esforcei para reduzir o número dos assentos no parlamento, mas afinal perdi o meu", foi com estas palavras que Renzi anunciou a sua demissão após o referendo que evidenciou a maior taxa de comparecimento na história do país. Estes 1000 dias do governo de Renzi resultaram em um fracasso, porém, o desenvolvimento ulterior da situação permanece nebuloso.

    Será que as eleições se realizarão em um futuro próximo? Pode ser que o próximo governo seja meramente técnico e quem é que substituirá Renzi no cargo de premiê? Tentando responder a esta pergunta, a Sputnik Itália falou com vários especialistas — com o professor de direito constitucional da Terceira Universidade de Roma Alfonso Celotto, e também obteve a opinião de outro acadêmico italiano reconhecido, Giulietto Chiesa.

    A primeira coisa para a qual Celotto chama a atenção dos leitores é uma taxa extraordinariamente elevada de comparecimento. Nenhum dos antigos referendos constitucionais provocou tal ânimo, o que é um traço de uma verdadeira democracia. O governo se esforçou muito para conduzir esta reforma, mas o povo disse "não" e o fosso atingiu 6 milhões de votos.

    É também impressionante a representação de votantes por localização geográfica: no sul do país 80% dos que votaram se manifestaram contra. Se olharmos para a representação por idade, a maioria dos jovens se pronunciou contra, enquanto a parte esmagadora das pessoas de meia-idade e idosos aprovaram a iniciativa. Dos italianos que residem no exterior, e que tinham provocado muitas disputas às vésperas do referendo devido a eventuais fraudes, 65% votaram a favor, o que ainda não exclui a hipótese de falsificação.

    O analista Alfonso Celotto nos propôs olharmos para vários cenários possíveis. Primeiro: a antiga lei eleitoral já não pode regular as eleições, já que ela foi elaborada apenas para a Câmara dos Deputados, e, provavelmente, já virou inconstitucional.

    "Deste modo, é precisa uma nova lei eleitoral, que não há, por isso posso dizer com toda a certeza que não poderemos eleger um novo governo antes que passe um ano", afirma o acadêmico.

    Tal cenário pressupõe a criação de um governo com funções meramente técnicas, até pode ser Renzi de novo. O governo funcionará por um ano ou ano e meio, e neste caso as eleições serão marcadas para outubro de 2017 ou fevereiro de 2018.

    "Por enquanto, é impossível prognosticar. O governo deve conseguir uma moção de confiança, ou seja, o apoio por parte do Partido Democrata, que tem 54% do apoio na Câmara dos Deputados. Em outras palavras, tem de ser um governo que seja apoiado pelo Partido Democrata, inclusive todas suas diferentes facções, e a fraqueza de Renzi significaria o reforço dos seus rivais democratas", frisa Celotto ao modelar um possível desenvolvimento da situação.

    Entre os eventuais candidatos ao cargo do premiê estão o presidente do Senado Grasso, o chefe do Banco Central Cantone e o ministro da Cultura, Franceschini. O cenário "Renzi 2" também não se descarta. "De qualquer maneira, o governo precisa ter apoio político", frisa o analista.

    Ao mesmo tempo, o especialista frisa que o mais importante não é a questão da ‘força' do governo, mas de uma série de reformas necessárias para a Itália — na área de impostos, burocratização, migração, desemprego, juventude, etc. E a confiança no novo governo por parte da população depende da sua capacidade de lidar com estes desafios.

    Ao concluir, Celotto sublinha: há vários problemas que é indispensável resolver: normalizar as relações com Bruxelas e sair da crise financeira.

    "A economia está estagnada, a dívida é enorme, é preciso agir. <…> Até 2004, todos éramos adeptos do projeto europeu, e depois viramos eurocéticos angustiados", destaca.

    Giulietto Chiesa parece ser mais otimista nas suas conclusões quanto aos resultados do referendo.

    "Tal derrota absoluta fez com que o país ficasse incapaz de voltar a ter algum tipo de governo normal em que ele estivesse envolvido", afirma.

    O analista afirma: Renzi não partiu só. Com ele foi embora o projeto perigoso de transformar a democracia italiana em uma variante deformada do poder monocrático, ou seja, da supremacia de um só partido ou uma só pessoa. O projeto foi bloqueado por uma quantidade inesperadamente grande de votantes — 60%, porque era um projeto "destruidor", afirma Chiesa.

    "Há que acrescentar que a ideia de reforma constitucional foi amplamente apoiada pela União Europeia e pelos EUA. Eles se uniram ao se disfarçarem com a diretiva JP Morgan, cujo objetivo é eliminar as constituições dos países do Sul europeu, já que elas são demasiado "socialistas". Deste modo, tudo se fazia sob o lema "o excesso de democracia prejudica o mercado", manifesta o colunista da Sputnik Itália.

    O analista destaca que a tendência antieuropeia abalou a Itália após vários acontecimentos cruciais: o Brexit, o fato de políticos como Marine Le Pen ganharem popularidade na França — tudo isso são os elementos de um mesmo mecanismo.

    "Deste modo, o golpe contra Renzi foi um golpe contra a União Europeia na sua atual forma e com suas regras de hoje", concluiu.

    "Claro que uma das razões para tal resultado foi também a política externa da Itália, sua submissão total aos EUA e às exigências da OTAN de reforçar a confrontação com a Rússia, em particular. As sanções antirrussas fizeram com que a maioria esmagadora de empresários dissesse não à reforma, sendo que eles possuem os votos de dezenas de milhares de trabalhadores em várias áreas da indústria e agricultura que, por sua vez, ficaram prejudicados pelo embargo russo", diz Chiesa.

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    Tags:
    Rússia, EUA, Europa, Itália, Matteo Renzi, Giulietto Chiesa, União Europeia, referendo, prognóstico, governo interino, crise financeira, projeto europeu
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