18:03 24 Novembro 2020
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    O Brasil planeja assinar nas próximas semanas uma declaração com os governos dos Estados Unidos e Japão em que os três países defendem uma rede de telecomunicações confiável e segura em mais um gesto que tem como alvo a empresa chinesa Huawei.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e especialista em política chinesa, disse que o Brasil "amarra as próprias mãos" ao não discutir implantação da tecnologia 5G com a Huawei.

    "Ao excluir uma das principais empresas do setor simplesmente porque ela é uma companhia chinesa, porque ela tem um vínculo com o Estado chinês, o Brasil está amarrando as próprias mãos em termos de conseguir acordos mais vantajosos", afirmou.

    Santoro lembrou que a tecnologia 5G será fundamental para o país não ficar "para trás" no desenvolvimento tecnológico global.

    "Toda essa questão do 5G tem um papel fundamental para o desenvolvimento de uma série de novas tecnologias que vão ser cruciais para a Quarta Revolução Industrial, como Internet das coisas, veículos autoconduzidos", disse.
    Em Brasília durante encontro dos BRICS, em 13 de novembro de 2019, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (à esquerda) caminha ao lado do presidente chinês Xi Jinping (à direita).
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Em Brasília durante encontro dos BRICS, em 13 de novembro de 2019, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (à esquerda) caminha ao lado do presidente chinês Xi Jinping (à direita).

    Para o especialista, o Brasil deveria aproveitar a disputa entre os Estados Unidos e China na corrida pelo 5G para se beneficiar e conseguir melhores acordos.

    "O que o governo brasileiro deveria fazer é aproveitar essa rivalidade entre a China e os Estados Unidos para extrair o máximo possível de cada parceiro. Pensando, por exemplo, em transferência de tecnologia, em parcerias econômicas, em transformar o leilão do 5G em algo que pudesse estimular o desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro", declarou.

    O chamado diálogo trilateral Japão-EUA-Brasil deverá defender valores comuns desses países na Ásia e na América Latina, mas tem como objetivo principal criar mais um fórum de contraposição à China.

    Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (à esquerda), e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (à direita), conversam na Casa Branca em 19 de março de 2019.
    © AP Photo / Manuel Balce Ceneta
    Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (à esquerda), e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (à direita), conversam na Casa Branca em 19 de março de 2019.

    O cientista político pensa, no entanto, que no atual cenário é difícil o Japão cumprir o papel exercido pela China no Brasil e no continente.

    "O Japão hoje não tem como oferecer para o Brasil aquilo que os chineses fazem. O comércio da China com o Brasil é mais de dez vezes maior do que o comércio do Brasil com o Japão", explicou.

    Maurício Santoro ainda foi além e lembrou que o Japão não possui o mesmo nível de desenvolvimento tecnológico que a China possui.

    "A China hoje conseguiu ter uma tecnologia muito avançada em áreas-chave como o próprio padrão 5G de Internet, onde o Japão não é um concorrente. É absolutamente impossível que o Japão preencha esse espaço que a China tem hoje para a economia e para o sistema financeiro brasileiro", declarou.

    Segundo a reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, o acordo entre o Brasil, EUA e Japão independe do resultado das eleições nos EUA.

    Santoro vê que, de fato, o resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos não deve interferir no posicionamento do país em relação à China.

    "Hoje em dia existem muitas coisas que separam os democratas dos republicanos nos Estados Unidos, mas você tem um grande tema que une os dois partidos: a hostilidade à China e o medo da ascensão chinesa", disse.

    Segundo o professor da UERJ, caso Biden seja eleito, Bolsonaro pode adotar uma postura ainda mais ríspida com o governo chinês.

    "Provavelmente a cartada que o Bolsonaro teria na mão, para tentar manter um diálogo com o governo americano, seria assumir uma posição ainda mais crítica à China do que ele vem tendo até agora", completou.

    O leilão de frequências do 5G no Brasil está previsto para ocorrer em 2021. Depois dele, as operadoras deverão escolher seus fornecedores.

    Confira a apuração dos votos nas eleições presidenciais norte-americanas em tempo real:

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Quarta Revolução Industrial, América Latina, Japão, tecnologia 5G, tecnologia, Estados Unidos, Huawei, China, Brasil
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