16:03 23 Maio 2018
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    Em 2017, bancos lucraram mais do que a soma das 262 empresas negociadas em Bolsa

    Brasileiros trabalham cada vez mais para engordar lucro de bancos

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    Economia
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    O spread bancário no Brasil — a diferença entre o que os bancos pagam a quem investe em seus títulos e o que cobram de juros dos clientes — é o mais alto do mundo, segundo estudo divulgado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

    O levantamento projeta que, diante dessas taxas, os brasileiros vão desembolsar R$ 1,04 trilhão no período de 2017 a 2022. Mesmo com a redução da taxa Selic — a taxa de juros básicos da economia determinada pelo governo — de 14,5% em 2017 para 6,25% agora e a redução da inflação, os juros cobrados pelos bancos não só não recuaram na mesma proporção, como voltaram a subir. Em março, por exemplo, a taxa cobrada no cheque especial passou de 324,1% para 324,7% ao ano, enquanto a do rotativo do cartão de crédito saltou de 332,4% para 334,5%.

    Segundo a Fiesp, para o spread médio de 2017 ser compatível com os números de 2012/14, a taxa deveria ser de 31,1 pontos percentuais e não dos 54,6 pontos de hoje. E mais: a redução proporcionaria uma economia de R$ 141,6 bilhões em juros às famílias no ano passado, o equivalente a 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Outro número mostra o quanto representa o lucro dos bancos no Brasil. Em 2017, os ganhos foram maiores do que a soma das 262 empresas negociadas em Bolsa.

    Para o educador financeiro do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) José Vignoli, nada justifica a cobrança desse spread no Brasil. Os bancos sempre justificam a cobrança de juros pelo elevado índice de inadimplência, mas o estudo da Fiesp desmente essa afirmativa. O Brasil ocupa hoje o 66º lugar no ranking mundial de inadimplência bancária, mais elevada em países como Itália, Irlanda, Portugal, Rússia e Espanha. A Itália, por exemplo, tem inadimplência 4,4 vezes maior que a brasileira, embora o spread cobrado aqui seja quase 20 vezes maior que o italiano.

    "Esse spread é realmente muito elevado, e aí temos que levar em conta uma questão que nem sempre é lembrada: a qualidade do crédito. Então por que o crédito não foi dado com mais qualidade (de análise)? Hoje o brasileiro paga muito caro pelo juro bancário, o sistema está concentrado, mas o Banco Central deu uma luz interessante ao permitir que as fintech — empresas startups de tecnologia — ofereçam crédito. Elas estão apresentando custos mais baixos de serviços, e vão ser uma forma de tentar diminuir esses spreads e a concentração bancária", explica o consultor.

    Vignoli afirma que os juros altos são negativos para a economia pelo fato de que as famílias deixam de consumir, de dar uma educação melhor para os filhos, de ter uma cobertura melhor de saúde. "É um dinheiro que acaba sendo gasto para manter um padrão de vida irreal e alimentando um sistema que acaba cobrando cada vez mais sem reverter em outros benefícios", diz Vignoli.

    O consultor financeiro do SPC Brasil diz que a concentração bancária no Brasil, com três bancos privados (Itaú-Unibanco, Bradesco e Santander) e dois públicos (Banco do Brasil e Caixa) acaba cobrando juros elevados para manter uma estrutura muito inchada em um mundo em transformação, onde os jovens já não se importam se há ou não agências físicas, que não se importam com o status do cartão de crédito, buscando cada vez mais facilidades e operações pela internet.

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    Tags:
    concorrência, tecnologia, juros, inadimplência, crédito, economia, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Santander, Bradesco, Itaú, Fiesp, Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), José Vignoli, Brasil
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