15:37 17 Abril 2021
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    Depois de uma polêmica envolvendo a construção de um suposto campo de golfe na Base Naval de Lisboa, a Marinha de Portugal afirmou à Sputnik Brasil, de forma reiterada, que o espaço não se trata de um campo de golfe. 

    A polêmica foi levantada pelo jornal português Diário de Notícias, na última quarta-feira (24), quando noticiou que a construção de um campo de golfe na Base Naval do Alfeite, em Almada, a meia hora da capital, estava gerando uma onda de indignação nos meios militares, principalmente na Marinha.

    Fontes ouvidas pela Sputnik Brasil confirmaram a revolta com a possibilidade de a Marinha investir na construção de um campo de golfe enquanto Portugal passa por uma crise econômica e humanitária em decorrência da pandemia de COVID-19.

    "O golfe é um desporto com fama de ser elitista, por isso talvez este não fosse o momento mais oportuno para avançar com esta medida. Estamos todos a combater a pandemia, e alguém parece que tem tempo e dinheiro para pensar criar uma escola de golfe. É chocante", afirma uma fonte da Marinha, que pediu para ter sua identidade preservada.

    Segundo o Diário de Notícias (DN), o Gabinete do Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA) justificou a construção "atendendo à necessidade, já há muito identificada, de edificar uma capacidade para campo de treino destinado ao ensino de golfe". 

    Sputnik Brasil questionou a Marinha se havia alguma relação com o fato de o atual comandante naval, vice-almirante Silvestre Correia, ser jogador de golfe e participar de campeonatos nacionais das Forças Armadas, como inferia o jornal, mas a instituição negou textualmente se tratar de um campo de golfe. 

    A Base Naval de Lisboa, com sede no Alfeite, a meia hora da capital portuguesa
    © Foto / Divulgação/Marinha de Portugal
    A Base Naval de Lisboa, com sede no Alfeite, a meia hora da capital portuguesa

    Marinha alega que área será aberta a jovens e crianças

    Na nota enviada à Sputnik Brasil, o Serviço de Comunicação, Informação e Relações Públicas (CIRP), vinculado ao CEMA, afirma que o espaço, situado entre uma infraestrutura de combustíveis e uma Unidade de Comunicações da Marinha, foi requalificado de forma a cumprir com as condições de segurança exigidas para a área, designadamente na prevenção de incêndios, criando-se uma faixa de proteção corta-fogo e de acesso de viaturas de bombeiros.

    "Assim, foi efetuada uma terraplanagem de toda a área, uma faixa constituída por material inútil e por mata com arbustos de espécies invasoras, tendo-se criado uma zona de acesso limpa e verde, em uma extensão de aproximadamente 250 metros de comprimento", lê-se na nota.

    De acordo com o comunicado, essa área verde permitirá a prática e treino de várias atividades esportivas (entre elas, o golfe). Conforme o CIRP,  à semelhança do que atualmente já acontece com outras infraestruturas da Marinha na Base Naval do Alfeite, como as piscinas, será possível que, através dos municípios, crianças e jovens possam fazer usufruto deste espaço para a prática desta ou de outras modalidades desportivas.

    Neste ponto, a explicação também difere das informações publicadas pelo DN e atribuídas à Marinha, segundo as quais a instituição confirmou a construção de uma área para o ensino de golfe, exclusivo a militares, estendendo-o de uma forma generalizada a oficiais, cadetes, sargentos e praças, e respectivas famílias. 

    "Permita-me ainda reiterar que o espaço requalificado não corresponde a um campo de golfe, cujo comprimento tem aproximadamente entre os 6.000 e os 7.000 metros e, como foi referido, toda a área requalificada tem uma extensão de aproximadamente 250 metros de comprimento", lê-se em outro trecho da nota enviada à Sputnik Brasil.  

    Contudo, a Marinha não respondeu perguntas enviadas sobre o valor das obras, quanto será custeado pelas entidades particulares que dariam apoio financeiro por meio de protocolos de cooperação nem quais são essas entidades.

    Dificuldades orçamentárias para manutenção de embarcações

    Uma fonte da Marinha também confirmou à Sputnik Brasil, sob a condição de anonimato, o cenário de dificuldades orçamentárias, com embarcações inoperantes por falta de manutenção, o que fez aumentar o descontentamento diante da hipótese da construção de um campo de golfe.

    "Os últimos navios-patrulha oceânicos não receberam o armamento, os restantes sete que a Marinha está à espera foram anunciados em julho de 2018, mas o contrato de construção nunca foi assinado, apenas existe uma fragata operacional, não há verba para pagar o Arsenal que deveria fazer a manutenção dos navios, os fuzileiros nunca receberam as viaturas blindadas e não houve verba para substituição da arma ligeira, que continua a ser a G.3", enumera.

    De acordo com a agência Lusa, há vários anos o Arsenal do Alfeite S.A. tem passado por graves dificuldades financeiras, com atrasos de salários e até do subsídio do último Natal aos mais de 400 trabalhadores, responsáveis pela manutenção e reparação dos navios da Marinha. 

    O Arsenal do Alfeite, estaleiro onde é feita a manutenção das embarcações.
    © Foto / Reprodução
    O Arsenal do Alfeite, estaleiro onde é feita a manutenção das embarcações

    No fim de novembro de 2020, o ministro da Defesa Nacional, Gomes Cravinho, enviou à administração dos estaleiros navais a resolução da falta de verbas para pagar os subsídios de Natal, apontando que a empresa tem um problema financeiro estrutural grave há cerca de 10 anos. 

    Há duas semanas, José Luís Serra Rodrigues, novo presidente do conselho de administração do Arsenal do Alfeite S.A., informou à Comissão de Defesa Nacional, no Parlamento português, que identificou "um desequilíbrio estrutural de exploração, com origem no preço aplicado nos orçamentos de venda à Marinha, sem atualização desde 2009", quando a sociedade anônima entrou em vigor.

    "Enquanto a questão do preço a praticar em sede orçamental com efeito em contrato com a Marinha não for atualizada, está em causa a sustentabilidade da empresa", disse Serra Rodrigues no Parlamento.

    Para ele, a solução dos problemas estruturais do Arsenal do Alfeite apenas se dará por meio da formação, em breve, de uma "comissão de auditoria de preços, de forma a ajustar o desequilíbrio estrutural ao nível da exploração, que lhe provoca naturalmente déficits de tesouraria significativos". 

    De acordo com o que Serra Rodrigues informou ao Parlamento, um plano estratégico para a década 2021-2030 foi entregue e estaria sob a análise dos Ministérios da Defesa e das Finanças. Entre as prioridades estão o aumento da capacitação do estaleiro, o recrutamento de trabalhadores, a modernização e a formação.

    Ele também antecipou que haverá a assinatura de um protocolo para a criação da Academia do Arsenal, entre o Arsenal do Alfeite, a Plataforma das Indústrias de Defesa Nacionais (a IdD), o Consórcio das Escolas de Engenharia e a Associação de Indústrias Navais.

    Troca de comando na Superintendência de Material

    Na segunda-feira (29), durante a troca de comando da Superintendência de Material da Marinha, o chefe do Estado-Maior da Armada, almirante António Maria Mendes Calado, destacou que a ação do almirante Coelho Cândido, substituído pelo vice-almirante Bastos Ribeiro, desenvolveu-se em um contexto externo marcado "pelo progressivo envelhecimento dos meios, por constrangimentos financeiros e, no decurso do último ano, pelo impacto da pandemia da COVID-19".

    O vice-almirante Bastos Ribeiro toma posse como superintendente do Material da Marinha portuguesa
    © Foto / Reprodução
    O vice-almirante Bastos Ribeiro toma posse como superintendente do Material da Marinha portuguesa

    O novo superintendente designou a missão de consolidar um modelo de relacionamento com o Arsenal do Alfeite que permita melhorar o alinhamento da matriz de interesses das duas organizações e a qualidade dos serviços prestados na manutenção da esquadra. Segundo Mendes Calado, isso depende de dois dois pilares incontornáveis.

    O primeiro é uma relação robusta entre a administração do Arsenal do Alfeite e o diretor de Navios, que é fator crítico de sucesso para o planejamento e a condução dos processos de contratação e das ações de manutenção que o Arsenal realiza para a Marinha, de acordo com o militar.

    O segundo é um alinhamento de nível estratégico, focado em médio e longo prazos, que permita a evolução das organizações de forma sustentada, garantindo a manutenção dos meios navais, a sustentação das capacidades críticas para realização e desenvolvimento empresarial.

    "A Marinha reconhece a importância decisiva para o cumprimento da sua missão de um Arsenal do Alfeite perfeitamente sincronizado com as suas necessidades e prioridades de manutenção, garantindo o uso eficiente dos recursos disponíveis e o cumprimento de prazos, com elevados padrões de qualidade", discursou Mendes Calado.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    fragatas, base naval, Portugal, Marinha, forças armadas
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