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    Hoje (12), completam-se 60 anos desde que iniciou sua comissão o primeiro submarino soviético capaz de lançar um ataque nuclear contra os EUA. Sputnik apresenta detalhes sobre sua trajetória.

    Movido por dois reatores nucleares e carregando três mísseis balísticos, a história do serviço do submarino K-19 começou em 12 de novembro de 1960, data de seu comissionamento à Marinha da URSS.

    Durante seus 30 anos de serviço, a embarcação do projeto 658 ganhou a reputação do navio mais azarado da frota soviética e foi apelidado pelos marinheiros do país de "Hiroshima".

    Para entender a razão da má reputação, a Sputnik decidiu trazer momentos importantes da trajetória do K-19.

    Vazamento no reator

    Às 04h00 de 3 de julho de 1961, o eletricista responsável pelos compartimentos da proa, o segundo-sargento Viktor Strelets, iniciou seu turno. Neste momento, no sistema de resfriamento do reator de estibordo já havia uma rachadura, através da qual estava vazando água.

    A embarcação regressava para sua base em sua primeira viagem de longa distância.

    "Passados 15 minutos chegou Nikolai Efremov, eletricista de navegação, e disse: 'Alguma coisa aconteceu com o reator'", disse Strelets em conversa com a Sputnik.

    "Nós acordamos o comandante, ele correu para o segundo compartimento. Logo descobrimos que a água vazou. Iniciou-se um aquecimento incontrolável [do reator]. O comandante reuniu os responsáveis pelo reator e perguntou: 'Que vamos fazer?' Tínhamos que de alguma forma resfriar o reator e não permitir o derretimento dos elementos de emissão de calor. Não havia instrução que prescrevesse o que se deveria fazer em situações semelhantes. Antes de nós nunca houve tal tipo de acidente na frota. [Já tinha ocorrido] os geradores de vapor avariarem em outros navios, isso sim. Mas isso é outra coisa", relatou.

    Ainda segundo Strelets, a radiação a bordo do submarino começou a subir gradativamente, enquanto este emergiu de emergência. A equipe de combate a situações de emergência tentou por várias vezes molhar o reator com água, inclusive pelo sistema central de remoção de ar, mas a bomba quebrou e a mangueira se rompeu.

    Em seguida, um membro da tripulação sugeriu utilizar os tubos dos sistemas de lançamento de torpedos para os conectar ao sistema de remoção de ar e através dele jogar água no reator. A ideia deu certo, mas a situação se complicou devido à falta de reserva de água destilada, fazendo com que o resfriamento do reator fosse feito com água potável.

    "O reator só pode receber água destilada. A água doce comum tem muitos sais, os quais 'absorvem' a radiação. Mas não havia outra água a bordo. Os rapazes que montaram o sistema de resfriamento de emergência, que soldaram os tubos, receberam as maiores doses [de radiação]. Em breve eles morreram de síndrome de radiação. Oito pessoas – seis quase em seguida, e depois outros dois", lembra Strelets.

    Devido à descompressão do reator e bombeamento da água radioativa por uma bomba de porão, a contaminação acabou se espalhando por toda a embarcação.

    Em seguida, a tripulação foi evacuada de emergência para outros navios da Marinha soviética. Mais tarde, 26 submarinistas foram condecorados "por sua coragem e bravura demonstradas durante o cumprimento de sua missão".

    Problemas desde a construção

    O infortúnio do K-19 começou ainda durante sua construção, quando em 1959 nos seus tanques de lastro ocorreu um incêndio, no qual morreram três pessoas. Já em 1961, pouco antes do vazamento no reator, durante o carregamento de um míssil balístico a escotilha do silo se fechou esmagando fatalmente um marinheiro.

    Submarino soviético K-129 (foto de arquivo)
    © Sputnik / A. Steshanov
    Submarino soviético K-129 (foto de arquivo)

    Após o incidente com o reator, o submarino foi descontaminado e rebocado para reparo em Severdovisnk, onde o compartimento do reator foi totalmente substituído e ocorreu uma modernização segundo o projeto 658M.

    Ao ser lançado à água, a tripulação foi totalmente substituída, enquanto a primeira foi desmantelada.

    Encontro indesejável

    Contudo, a série de tragédias não terminou por aí e em 1969 o K-19 se chocou com o submarino-espião americano USS Gato.

    "Por volta das 07h12, tendo decido especificar o planejamento do dia, eu peguei o diário, e naquele momento na parte da proa do submarino soaram duas pancadas fortes seguidas, quase contínuas. O navio foi sacudido, sentiu-se um forte estremecimento do casco e literalmente sua proa vibrou", escreveu no relatório o capitão de primeira classe Lebedko sobre o incidente que se deu em 15 de novembro de 1969.

    O submarino começou a afundar com caimento para vante. Felizmente a tripulação conseguiu esvaziar os tanques de lastro principais e o K-19 emergiu.

    O caso se deu sem vítimas. Uma vez no convés da embarcação, os marinheiros observaram um grande amassado na proa do navio e os tubos dos torpedos danificados. A embarcação voltou à sua base navegando à superfície.

    Vazamento de óleo

    No fim de fevereiro de 1972, outro incidente aconteceu, desta vez com vítimas.

    Enquanto o submarino navegava debaixo d'água, um dos tubos do sistema hidráulico estourou. Como resultado, parte do óleo acabou entrando em contato com o aquecedor de ar do filtro do sistema de purificação do ar e pegou fogo.

    Como consequência, surgiu um incêndio que atingiu os compartimentos oito e dez, no qual se encontravam 12 pessoas. O submarino veio à superfície, contudo, devido aos problemas com os geradores a diesel, ele logo perdeu o andamento.

    Como resultado do incêndio 28 pessoas morreram na embarcação, além de outras duas em outros navios que vieram prestar socorro.

    "Depois de tudo isso eu estava viajando para Moscou, eu usava então o símbolo do K-19 no casaco. Se aproximou de mim um rapaz em traje civil. Ele tocou com o dedo no símbolo e perguntou: 'Você serviu nele?' Eu disse que sim, na primeira tripulação. Ele me respondeu: 'Eita, depois de terminarmos a faculdade de medicina nos mandaram para os submarinos, e ninguém queria ir pro K-19. Era comum a opinião de que esse submarino era azarado", disse Strelets.

    Dez anos depois do incêndio no K-19, ocorreu um curto-circuito no quadro dos disjuntores das baterias de estibordo.

    O forte arco elétrico acabou queimando dois marinheiros, um deles o segundo-sargento Kravchuk, que posteriormente faleceu.

    Apesar de seu destino trágico, o submarino ficou na história da Marinha da Rússia como um símbolo do heroísmo dos marinheiros soviéticos, que por diversas vezes salvaram sua embarcação, mas também por ter sido o primeiro submarino do país a carregar mísseis balísticos e capaz de atacar os EUA.

    A embarcação foi descomissionada em 1990, enquanto sua ponte de comando se tornou um monumento na margem do lago artificial Pyalovskoye na região de Moscou, Rússia.

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    Tags:
    tragédia, desastre, acidente, URSS, Marinha, submarino
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