05:31 24 Setembro 2017
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    Prototipo do Pulqui II

    Conheça os pilotos nazistas que revolucionaram a aviação na América Latina

    © Foto: Força Aérea Argentina
    Defesa
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    No final da Segunda Guerra Mundial, as potências aliadas disputavam os pilotos alemães para tirar proveito da superioridade que o derrotado Terceiro Reich tinha alcançado na aeronáutica. A Argentina conseguiu atrair alguns dos mais notórios, que marcaram uma das páginas mais importantes da história da aviação latino-americana.

    Apesar de sua derrota, no final da guerra, o Terceiro Reich possuía uma vantagem na corrida tecnológica. Os alemães tinham desenvolvido uma potente máquina militar sustentada em uma importante aposta na investigação científica. As aeronaves alemãs eram revolucionárias em velocidade e aerodinâmica, por isso o conhecimento gerado era uma herança valiosa para os serviços secretos dos países vencedores da guerra.

    "[Os homens que tinham trabalhado nas fábricas militares alemãs] eram transportados para a Inglaterra e submetidos a extensos interrogatórios para, posteriormente, lhes oferecerem trabalho em seus respectivos países", destaca um artigo de Ricardo Burzaco, historiador argentino especializado em Segurança e Defesa.

    Os pilotos e cientistas alemães foram para os EUA, URSS, França e Reino Unido, mas também para a Argentina. Lá, o presidente Juan Domingo Perón se propôs colocar um fim à dependência de seu país, que havia mantido a neutralidade na Segunda Guerra Mundial. Por isso, ele sofreu um importante isolamento com a suspensão de voos comerciais para a Europa, e com seus navios mercantes sob risco de serem afundados por navios inimigos, indica Burzaco em seu artigo intitulado "Os cientistas alemães e Perón", publicado no número 334 da revista Tudo é História (Todo es Historia).

    Em 1945, como ministro da Guerra, Perón criou uma Força Aérea Argentina independente do Exército. A nova arma foi equipada com aeronaves de última geração. "Havia mais aviões que pilotos com capacidade para manejá-los", por isso, ex-oficiais da Luftwaffe chegaram à Argentina para dotar de novos recursos o recém-nascido ramo da Defesa.

    Adolf Galland

    O grupo era liderado por Adolf Galland, "chefe de toda a Arma de Caça de seu país" durante a Guerra. Em 1948, o general de aviação do Terceiro Reich chegou à Argentina sem quaisquer dificuldades com a língua: havia prestado serviço na Legião Condor durante a Guerra Civil Espanhola. O acolhimento não foi mau, segundo ele relatou depois em suas memórias, publicadas em Buenos Aires em 1955.

    Adolf Galland
    CC BY-SA 3.0 / Hoffmann, Heinrich / Adolf Galland
    Adolf Galland

    "Lá, para mim foi oferecida a possibilidade de retomar a minha vida como aviador, bloqueada sem esperanças pelo infeliz fim do conflito, ao serviço de um país amigo que nos recebia sem preconceitos e com os braços abertos", escreveu Galland no livro.

    O então presidente da argentina (1946-1955) reservou "um capítulo muito especial para o desenvolvimento da aeronáutica no Primeiro Plano Quinquenal do Governo". Este impulso se refletiu na criação de um Instituto Aerotécnico, que tinha entre suas atribuições contratar especialistas estrangeiros.

    Kurt Tank

    Kurt Tank, um experiente piloto de testes que esteve a cargo de uma das fábricas de aviões mais famosas da Alemanha, a Focke Wulf, veio da Dinamarca, junto com dois colaboradores, com passaportes argentinos emitidos com identidades falsas. "Nenhum dos três 'argentinos' falava uma palavra em espanhol, mas conseguiram chegar a Buenos Aires no outono de 1947 com uma mala carregada de microfilmagens", relata Burzaco.

    Kurt Tank
    Kurt Tank

    O alemão projetou alguns dos aviões de caça mais notórios que utilizava seu país, como o FW-190 e o FW-200. Ao chegar às terras patagônicas, Tank elaborou um relatório para Perón com os elementos que considerava necessários desenvolver: "Um caça a jato, um treinador primário, um avião de reconhecimento e um bombardeiro para a Força Aérea."

    Apesar de Perón "considerar que o projeto poderia ser faraônico", ele finalmente aceitou o relatório de Tank. Além disso, garantiu ao ex-piloto nazista e seus colaboradores "igualdade de trabalho, sem discriminação de nenhum tipo".

    A equipe do ex-chefe da Focke Wulf continuou se completando com engenheiros, designers e especialistas em aeronáutica que trabalharam nas fábricas mais importantes de aeronaves e motores da Alemanha, entre eles Otto Behrens, ex-diretor do Centro de Ensaios da Luftwaffe. O contingente de alemães que trabalhava com Tank na Fábrica Militar de Aviões na província de Córdoba chegou a ter cerca de 60 pessoas.

    O projeto mais importante foi o AE-33 Pulqui II, "um caça a jato com asas em flecha que colocou a Argentina em uma vanguarda tecnológica que então só possuíam os EUA, a URSS e a Suécia, à frente de países como a Inglaterra e a França", salienta Burzaco.

    Primeiro prototipo do Pulqui II
    Primeiro prototipo do Pulqui II

    O desenvolvimento do Pulqui II começou em 1948 com a construção de um planador, ao que logo se juntaram as turbinas. O protótipo "estava em condições de voar em meados de junho de 1950".

    Em fevereiro de 1951, foi realizada a apresentação oficial do Pulqui II perante uma multidão no Aeroparque de Buenos Aires. Em jeito de brincadeira, escreve Burzaco, Tank telefonou a Perón a partir de Córdoba e disse que pousaria o caça antes de o carro presidencial chegar ao terminal aéreo. Enquanto o mandatário deveria percorrer uma dezena de quilômetros a partir de sua residência, o Pulqui II deveria voar cerca de 600 quilômetros a partir de Córdoba.

    "Perón aceitou o desafio, mas não contou que sua viagem de automóvel ia ser prejudicada pelo trânsito do público que se dirigia ao Aeroparque Metropolitano, para ver em ação este sonho argentino. Tank cumpriu sua palavra!", relata o historiador argentino.

    Kurt Tank com General Juan D. Perón na apresentação do Pulqui II
    © Foto: Força Aérea Argentina
    Kurt Tank com General Juan D. Perón na apresentação do Pulqui II

    Burzaco encontro uma crônica de Hans Rudel, um ex-piloto nazista, também residente na Argentina na época: de acordo com o alemão, "dezenas de milhares haviam chegado em ônibus, caminhões, bicicletas e a pé, para serem testemunhas desse acontecimento decisivo para a aviação" do país.

    Na apresentação, Tank fez uma demonstração de todas as possibilidades da aeronave. "Chegou rapidamente até aos 1.000 metros, virou suavemente e desceu para efetuar uma passagem nivelada a 25 metros a mais de 900 quilômetros por hora sobre o aeródromo." Então subiu "até 13.000 metros a todo motor". Finalmente, pousou o Pulqui II e, ao sair, cumprimentou Perón com um abraço.

    Em maio de 1951, o Pulqui II foi tripulado pela primeira vez por pilotos que não tinham tanta experiência, mas teve um problema e o piloto se ejetou, embora não tenha chegado a abrir o paraquedas. Assim, o projeto teve a sua primeira vítima fatal. Para outubro de 1952 estava prevista uma nova apresentação, mas desta vez Otto Behrens, o famoso piloto sofreu um acidente e morreu.

    Em 1955, uma ditadura cívico-militar autodenominada Revolução Libertadora derrubou Perón. Nesse ponto, "uma onda de ódio" destruiu tudo o que tinha relação com o ex-presidente, que teve que partir para o exílio.

    Tank e seus colaboradores já não tinham a mesma tranquilidade. De acordo com Burzaco, o pai do Pulqui II emigrou para a Índia depois de receber pressões e ameaças por "posse de passaporte falso". Outros emigraram para os EUA, onde abundaram as ofertas de gigantes da aviação, como a Lockheed ou Boeing.

    Os irmãos Horten

    Outra equipe de alemães desenvolveu as chamadas "asas voadoras". Se trata dos irmãos Walter e Reimar Horten. Ambos tinham desenvolvido planadores e protótipos de aeronaves sem cauda na Alemanha. Em 1948, chegaram à Argentina e trabalharam no Instituto Aerotécnico. Walter voltou para seu país, mas Reimar permaneceu o resto de sua vida em Córdoba.

    I. Ae 41
    CC0 / Força Aérea Argentina
    I. Ae 41

    O engenheiro aperfeiçoou aí vários protótipos: I Ae 34 e I Ae 41, o último foi primeiro planador que atravessou os Andes em setembro de 1956.

    I.Ae 34
    CC0 / Força Aérea Argentina
    I.Ae 34

    O mais ambicioso dos projetos de Horten foi o I Ae 37, um interceptador supersônico bimotor. O avião não chegou a ser concluído devido à conjuntura política no país. Após o afastamento de Perón, ele construiu um planador e o protótipo de uma versão motorizada subsônica. No entanto, o financiamento foi cancelado em 1961.

    Ae 37
    CC0 / Força Aérea Argentina
    Ae 37

    A mesma coisa aconteceu com o I Ae 38 Naranjero, um planador, projetado para o transporte de cargas perecíveis, como resposta à falta de infraestrutura rodoviária e de aeroportos. A chegada da Revolução Libertadora suspendeu o seu desenvolvimento.


    Este artigo foi elaborado com a inestimável colaboração do brigadeiro na reserva Horacio Mir González e seus colegas da Biblioteca Nacional de Aeronáutica da Força Aérea Argentina.

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    Tags:
    aeronave, nazistas, pilotos, Segunda Guerra Mundial, Terceiro Reich, Argentina
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