16:31 27 Outubro 2020
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    Com 70 anos de carreira e 89 de idade, Ruy Guerra surpeende o público com filme inovador no Festival de Cinema dos BRICS em Moscou.

    Entre os dias 1º e 7 de outubro, Moscou recebe o Festival Internacional de Cinema do BRICS, celebrado no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Moscou.

    Ator Aleksei Agranovich conduz a cerimônia de abertura do Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 1º de outubro de 2020
    © Sputnik / Ekaterina Chesnokova
    Ator Aleksei Agranovich conduz a cerimônia de abertura do Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 1º de outubro de 2020

    Dentre os dez indicados oriundos de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, estão os filmes de dois diretores brasileiros consagrados: Daniel Filho e Ruy Guerra.

    Destaque deste fim de semana foi o filme "Aos Pedaços", com direção e roteiro assinados por Guerra. O filme chega a Moscou logo após ter sido laureado com três prêmios Kikito no 48º Festival de Cinema de Gramado.

    No filme, Eurico se relaciona com duas mulheres com o mesmo nome, Ana e Anna, em duas casas idênticas: uma na praia, outra no deserto.

    Seu estado mental fica comprometido após receber um bilhete com uma ameaça de morte e a assinatura sugestiva "A.". Uma de suas mulheres quer matá-lo? Se sim, qual das duas?

    "Cada espectador pode construir a sua própria história", disse o diretor Ruy Guerra à Sputnik Brasil.

    Um dos principais nomes do cinema brasileiro, Ruy Guerra teve participação fundamental no movimento Cinema Novo, com seu primeiro longa-metragem, "Os Cafajestes" (1963) e "Os Fuzis" (1964).

    Na década de 80, Guerra dirigiu o musical "A ópera do Malandro" (1985), em parceria com o compositor Chico Buarque de Holanda.

    Com narrativa arrojada, "Aos Pedaços" retrata as alucinações de Eurico e a sua vivência material no mesmo plano, desafiando as fronteiras entre o real e o imaginário.

    "No filme, estou trabalhando com outro tipo de dramaturgia: uma dramaturgia anti-ilusionista, de transparência", disse o diretor.

    Segundo ele, essa linha dramatúrgica busca romper as amarras da narrativa tradicional, que limita o desenvolvimento do cinema.

    Atrizes Simone Spoladore e Chris Ubach em cena do filme Aos Pedaços
    © Foto / Assessoria de Imprensa Festival Internacional Moscou
    Atrizes Simone Spoladore e Chris Ubach em cena do filme "Aos Pedaços"

    "Todo o cinema americano, que foi adotado no resto do mundo, se baseia em uma estrutura de narrativa viciada", acredita Guerra. "Apesar dessa estrutura remontar à Grécia antiga [...] ela continua amarrando todas as outras possibilidades."

    De 89 anos de idade, sendo 70 deles de carreira, Ruy Guerra segue como um dos mais inovadores diretores de cinema da contemporaneidade.

    "Por que nós continuamos a pensar como filósofos gregos? Como é que não conseguimos pensar em nada de novo?", questionou o diretor, respondendo que "estamos amarrados a conceitos filosóficos ultrapassados que não permitem que o cinema avance".

    O elenco de "Aos pedações" é composto por quatro atores: Emílio de Melo, como Eurico, Júlio Adrião, como seu interlocutor e confidente, e Simone Spoladore e Chris Ubach interpretam as Anas.

    "O filme tem alguns personagens fora de quadro, como o narrador, na voz de Arnaldo Antunes, a fotografia e a própria casa", notou a produtora do filme, Janaína Diniz Guerra.

    Para Ruy Guerra, a proposta inovadora do filme permitiu que os atores trabalhassem com mais liberdade.

    "Como é uma experiência em uma forma de narrativa diferente, a equipe participa do processo criativo. [...] Para os atores, isso traz muita liberdade", relatou Guerra. "E dessa liberdade eu tiro coisas novas."

    Janaína concorda que o caráter experimental do filme propicia a inovação.

    "Fazer um filme sem as amarras de uma necessidade comercial, permitiu que [o diretor] realizasse experimentalismos", disse a produtora. "E se permitiu errar, porque a possibilidade do erro é o que provoca a inovação."

    Filmado em preto e branco, "Aos Pedaços" aposta no contraste de luz e sombra para acentuar a inquietação do protagonista. A fotografia é assinada por Pablo Baião, parceiro de Guerra no filme "Quase Memória" (2015), também agraciado com o prêmio Kikito em Gramado.

    "Para mim, foi uma grande experiência de sair da linha tradicional do cinema [...] que faz com que os filmes sejam todos iguais", disse Guerra. "Com esse filme, temos, sim, um grito de liberdade."

    Rodado em 2018 nas cidades de Cataguases (MG) e Maricá (RJ), "Aos Pedaços" foi lançado em 2020. Laureado com três prêmios Kikito no 48º festival de Cinema de Gramado, o filme concorre ao prêmio de melhor filme no Festival de Cinema do BRICS, celebrado em Moscou.

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    Tags:
    festival, filme, Cinema, Rússia
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