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    Recentemente, os cientistas da Universidade Técnica Estatal de Yaroslavl, na Rússia, criaram uma tecnologia única para comandar grupos de robôs. A Sputnik Brasil falou com dois especialistas sobre o futuro da robótica, os avanços da tecnologia e quais as consequências da automação em massa.

    De acordo com os autores do estudo, publicado na coletânea de trabalhos científicos Cyber-Physical Systems: Modelling and Intelligent Control, um algoritmo será capaz de elevar a eficiência dos processos de automatização, tais como colheita, ações de resposta contra o derramamento de óleo, limpeza de grandes áreas ambientais e diversas outras tarefas.

    O algoritmo permitirá que os robôs se movendo em um ambiente irregular mantenham-se em grupos e cumpram o objetivo, mantendo a formação.

    A inteligência de enxame, neste caso, assume o movimento dos robôs dentro do grupo, semelhante ao movimento de um bando de pássaros ou de um cardume, ou seja, mudando de acordo com o movimento do grupo de forma sincronizada e sem colidirem entre si.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o professor adjunto de Engenharia Aeroespacial da UFMA e fundador da Acrux Aerospace Technologies dr. Oswaldo B. Loureda e o professor do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense Raphael Guerra comentaram o futuro da robótica, os avanços da tecnologia e quais as consequências que a automação em massa pode gerar à humanidade.

    Futuro da robótica

    Para o dr. Oswaldo B. Loureda, o futuro da robótica está associado à pesquisa de cibernética e à automação, a autonomia destes equipamentos, ou seja, a tomada de decisões sem intervenção humana.

    "O futuro da robótica está intimamente ligado à inteligência artificial, computação em nuvem, além da questão cibernética [...]", comentou.

    Raphael Guerra ressaltou a importância do grande avanço da inteligência artificial nas últimas duas décadas, revolucionando a indústria por meio da automação industrial.

    Inteligência artificial (imagem ilustrativa)
    © Foto / Pixabay / geralt
    Inteligência artificial (imagem ilustrativa)

    "Na minha visão, o futuro da robótica é automatizar as tarefas do nosso cotidiano. Haverá uma interação cada vez maior entre humanos e robôs no dia a dia, e o carro autônomo já é um ótimo exemplo atual desta nova realidade", afirmou Guerra.

    Avanços tecnológicos

    Falando sobre os avanços tecnológicos, o professor Oswaldo B. Loureda indicou que hoje são várias as tecnologias-chave que têm sido base para o avanço que temos visto na robótica.

    "Umas delas é a criação de processadores cada vez mais avançados, permitindo cálculos e tomadas de decisão on-line. Temos visto também uma melhoria bastante considerável de software, que tem permitido processamentos mais rápidos, e podemos elencar também, além destes pontos, um hardware mais acessível, coisa que 30, 40 anos atrás não conseguíamos conceber, e hoje conseguimos hardwares extremamente acessíveis, conseguindo desenvolver sistemas bastantes complexos", ressaltou.

    De acordo com o professor Guerra, os dispositivos computacionais estão ficando cada vez menores e com uma capacidade de processamento maior que um computador de mesa do início da década de 90.

    "Esta miniaturização é importante para que a robótica esteja presente em atividades do nosso cotidiano", afirmou.

    Guerra também cita que os grandes avanços da inteligência artificial, vistos nas últimas décadas, estão presentes, por exemplo, na visão computacional dos robôs.

    Spot, um robô com movimentos parecidos aos de um animal, passa por um cachorro na Praça de Catedral em Erforte, Alemanha, 20 de abril de 2021
    © AP Photo / Michael Reichel
    Spot, um robô com movimentos parecidos aos de um animal, passa por um cachorro na Praça de Catedral em Erforte, Alemanha, 20 de abril de 2021

    "É desta forma que os carros autônomos reconhecem pedestres, obstáculos, sinalizações de trânsito, etc.", explica.

    Outro ponto ressaltado por ele foi o avanço em telecomunicações, fazendo com que os dispositivos computacionais estejam sempre conectados e transferindo uma grande quantidade de dados, com a internet 5G sendo o próximo grande passo na evolução desta tecnologia.

    Além disso, Guerra citou o aumento da capacidade de processamento e armazenamento de dados, "uma área de pesquisa denominada Computação de Alto Desempenho", onde a nuvem computacional é um bom exemplo deste avanço tecnológico.

    Enxame de drones

    Com relação ao enxame de drones, o dr. Oswaldo B. Loureda cita que a ideia está associada essencialmente à operação conjunta de vários dispositivos.

    "Este termo, inclusive, está sendo muito aplicado na área de drones para situações de ataque. Ao invés de investir em um drone de dezenas de milhões de dólares, às vezes é mais interessante investir em drone que custa alguns milhares de dólares e lançar 50, 100, 200 drones [...]", explicou.

    Drone (imagem referencial)
    © Foto / Pixabay / Hans
    Drone (imagem referencial)

    Loureda também observou que podemos aplicar esta tecnologia para outras situações como, por exemplo, na indústria de construção civil para levantar uma estrutura com vários drones trabalhando de forma colaborativa.

    "Certamente, nós vamos ver isso em um futuro próximo, no horizonte de 5 ou 10 anos nós devemos ver muitas aplicações na indústria de construção civil, na área bélica, que inclusive já temos visto", afirmou Loureda.

    Na opinião de Raphael Guerra, a inteligência de exame é uma forma de inteligência artificial inspirada no comportamento coletivo de animais sociais como, por exemplo, as formigas, que formam rotas perfeitas entre suas colônias.

    "O melhor exemplo prático que tenho desta tecnologia é o Waze, um popular aplicativo móvel de navegação no trânsito. A partir dos dados enviados em tempo real pelos seus usuários, o Waze estima as condições do trânsito e calcula as melhores rotas para os usuários chegarem aos seus destinos [...]", comentou.

    Desafios da robótica

    Com relação aos desafios, Raphael destaca que uma grande preocupação é a segurança cibernética.

    "É uma preocupação real e não muito distante da realidade. Tomemos como exemplo o recente ataque cibernético ao maior oleoduto dos EUA, paralisando o fluxo de combustível", indicou.

    Contudo, também pode haver problemas relacionados às legislações e regulamentos que permitam um exame de drones montando uma estrutura, o que hoje não é permitido, lembrou o professor Oswaldo B. Loureda.

    Loureda também citou o desafio relacionado ao consumo de energia, já que há uma série de sistemas e robôs que possuem uma alta demanda energética, o que limita estes sistemas.

    Também há problemas na parte da computação, da extração do calor dos microchips, dos microprocessadores, sendo isso uma grande limitação aos equipamentos.

    Robôs treináveis até 2030

    Um estudo da consultoria The Boston Consulting Group indica que os robôs poderão se tornar treináveis até 2030.

    "Acho que isso vai depender muito do agente regulatório, dos investimentos, das empresas que estão investindo nestes setores [...]", explicou Loureda.

    Loureda também recordou que existem sistemas com redes neurais, que executam tarefas após receberem treinamentos para isso, e que o importante para definir o termo "treinável" é compreender o nível de automação que estes sistemas terão.

    Raphael Guerra também recordou que há muitas técnicas de inteligência artificial atuais que requerem dados para treinamento.

    "Cada inteligência artificial tem uma finalidade específica, como dirigir, reconhecer voz, etc. Não acredito que em um futuro próximo teremos uma única inteligência artificial capaz de aprender qualquer coisa arbitrária", afirmou Guerra.

    Atualmente os robôs são classificados por área de aplicação como robôs industriais, robôs domésticos, robôs espaciais e diversos outros.

    Robô de fabricação alemã Telemax, no estande da Condor, responsável sua pela comercializão no Brasil. Especializado na desativação de bombas, esse robozinho já foi adquirido pelo Exército Brasileiro
    © Sputnik / Renan Lúcio
    Robô de fabricação alemã Telemax, no estande da Condor, responsável sua pela comercializão no Brasil. Especializado na desativação de bombas, esse robozinho já foi adquirido pelo Exército Brasileiro

    De acordo com Loureda, é possível identificar uma série de tendências para o futuro ligadas à questão da computação quântica, à visão computacional e ao aprendizado de máquinas.

    Certamente, veremos o avanço de sistemas robóticos associados à vida humana, como próteses ligadas à locomoção do sistema motor.

    Sucesso econômico das empresas que adotam automação

    Ao ser questionado sobre o sucesso econômico das empresas estar diretamente relacionado a sua capacidade de adotar a robótica, Raphael Guerra diz que a automação proveniente do uso da robótica torna a organização mais eficiente, reduzindo custos e aumentando a produção.

    "Empresas que não aderirem a esta automação perderão competitividade e irão à falência", enfatizou.

    No ponto de vista de Oswaldo B. Loureda, as indústrias não serão totalmente dependentes da robótica em um futuro próximo e apenas alguns setores manterão o foco na automação, como a indústria espacial, por exemplo, que é extremamente dependente da robótica.

    O professor Oswaldo B. Loureda destacou que, provavelmente, os países que já possuírem alguma base tecnológica, como a Suíça, França, Alemanha, EUA, Canadá, Japão, China, Rússia, Austrália e Cingapura, poderão se destacar na automação, contudo, há muitos países que não possuem equipamento modernos em suas fábricas.

    Consequências da automação

    Quanto aos riscos da automação com relação a mão de obra humana, o professor Raphael Guerra afirmou que os empregos que exigem pouca qualificação ou são essencialmente manuais serão reduzidos ou extintos.

    Contudo, ele ressalta que diversos outros empregos ligados diretamente à computação e engenharias serão gerados também.

    Robô coleta, com um chumaço de algodão, material para fazer análise de COVID-19 em um hospital egípcio
    © AFP 2021 / Khaled Desouki
    Robô coleta, com um chumaço de algodão, material para fazer análise de COVID-19 em um hospital egípcio

    O professor ressalta que o ensino básico deverá ser atualizado, e os países de primeiro mundo já iniciaram este processo, já que suprir a nova demanda de mão de obra vai requerer maior qualificação na área tecnológica.

    Além disso, Guerra alerta que, com o avanço tecnológico, as gerações mais antigas que perderem seus empregos serão as mais vulneráveis no cenário, e que projetos sociais de apoio financeiro, psicológico e profissional para este grupo serão essenciais.

    Carros autônomos substituirão os tradicionais?

    Para Raphael Guerra, a substituição dos veículos habituais pelos autônomos está a algumas décadas de ocorrer.

    "A tecnologia ainda deve ser aperfeiçoada e barateada para que todas as classes sociais tenham condições de adquiri-la", ressaltou.

    O professor Oswaldo B. Loureda também concordou com a possibilidade de os veículos autônomos dominarem o mercado automobilístico no futuro.

    "Vai ser uma tendência, sem dúvida, porque a direção, a condução de veículos automotores, particulares, ela é monótona, então é o tipo de tarefa perfeita para ser otimizada. A automação ocorre principalmente nas tarefas que são repetitivas ou monótonas", afirmou Loureda.

    O professor também observou que a condução tem uma série de riscos, provocados por outros motoristas, pedestres, animais ou qualquer outro fator, e estes fatores seriam consideravelmente reduzidos com os veículos autônomos.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    robô, robôs militares, robô de combate, robôs policiais, tecnologia, tecnologias, robótica
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