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    Brasil lidando com COVID-19 no início de junho de 2021 (42)
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    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, considerou uma ótima notícia o fato de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter aprovado o uso emergencial da CoronaVac. A vacina é alvo de contenda política entre Jair Bolsonaro e João Doria.

    No entanto, Pontes preferiu tomar partido da ciência e da saúde. Ao ser informado sobre a notícia pelo correspondente da Sputnik Brasil em Portugal, em entrevista a caminho de Lisboa, o ministro reagiu de forma espontânea e celebrou o reconhecimento pela OMS.

    "Ah, é? Isso é ótimo! É uma ótima notícia, porque era preocupante realmente não ter uma vacina [aprovada], pois grande parte dos brasileiros está sendo imunizada pela CoronaVac. Caso exista algum tipo de cartão de vacinação internacional, você precisa ter reconhecimento. É excelente e importante isso", elogiou.

    Como a Sputnik Brasil já havia informado, a aprovação da OMS abre as portas para a União Europeia aceitar a vacina em seu Certificado Digital COVID-19, que deve entrar em vigor a partir de julho. O documento permitirá a circulação, nos países do bloco, de turistas que comprovem a vacinação completa, imunização por recuperação da doença ou apresentem um teste RT-PCR negativo. 

    Na segunda parte desta entrevista exclusiva com Pontes (leia aqui a primeira parte), o ministro fala do desenvolvimento da Versamune e de três outras vacinas financiadas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Também relembra o episódio em que Doria atropelou o governo federal ao anunciar a ButanVac horas antes da Versamune.

    "Também não importa. É mais uma vacina licenciada, assim como essa do RNA que estamos fazendo com participação internacional. O importante é ter mais vacinas. Do meu ponto de vista, não tem competição nenhuma. Tem cooperação", diz.

    'Pode ser que me candidate a senador ou deputado', afirma ministro

    Se, por um lado, aparece como um defensor das vacinas, por outro, relativiza comportamentos negacionistas do presidente Jair Bolsonaro e se nega a comentar a insistência do governo federal em protocolos, sem comprovação científica, como a cloroquina e o tratamento precoce. "Não sou médico", repete.

    Mas é um homem da ciência, insiste o correspondente da Sputnik. Astronauta e militar da reserva que virou político, Pontes não descarta concorrer a algum cargo eletivo nas eleições de 2022. No entanto, afirma que primeiro precisa do aval do chefe. Quando questionado se poderia trocar o PSL pelo Patriota caso Bolsonaro vá para o partido, não fecha portas.

    O engenheiro de formação também é político e escorregadio ao não comentar a atuação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga a exportação ilegal de madeira. "Cada um faz a sua parte", tergiversa. 

    Pontes só não modera a língua ao falar do seu (ex-)amigo Ricardo Galvão, que foi exonerado do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe) após Bolsonaro criticar a divulgação de dados sobre o desmatamento. "Ele fez uma burrada de querer brigar com o presidente na imprensa e passou por cima de mim. Eu sou o ministro", afirma.

    Em missão oficial em Portugal, Pontes participou da inauguração do EllaLink, cabo submarino de fibra ótica que vai ligar Fortaleza à cidade lusitana de Sagres, aprimorando a conexão entre a América Latina e a Europa. Na cerimônia, discursou ao lado do primeiro-ministro português, António Costa, e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. 

    Marcos Pontes conversa com António Costa, primeiro-ministro de Portugal
    © Foto / Divulgação/Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações
    Marcos Pontes conversa com António Costa, primeiro-ministro de Portugal

    Questionado pela Sputnik sobre a divergência de valores nos investimentos divulgados pelo MCTI, de € 8,9 milhões (R$ 54,8 milhões) e pela própria EllaLink, que diz que a Rede Nacional de Pesquisa (RNP) aportou € 7,5 milhões (R$ 46,2) pela Rede CLARA, Pontes não soube explicar as diferenças de valores de € 1,4 milhão (R$ 8,6 milhões). Até o fechamento desta reportagem, o MCTI também não se manifestou a respeito.

    A seguir, leia a segunda parte da entrevista:

    Sputnik: Para além das cifras investidas, qual é a participação prática e efetiva do MCTI no projeto EllaLink?

    Marcos Pontes: No Brasil, nossa parte tem ligação com a RNP, uma organização social ligada ao ministério com essa finalidade de conectar universidades, centros de pesquisas. Por isso, o ministério continua a apoiar. Os recursos vieram direto do ministério por causa disso. Uma conexão rápida e direta com a Europa, e de último tipo, como é o caso agora, vai facilitar bastante a troca de informações científicas. A gente vê agora no COVID-19 a necessidade do trabalho conjunto com outros países. Isso vale para as áreas de saúde, de astronomia e de mudanças climáticas. Temos trabalhado no ministério com o Inpe com a criação do BIG (Base Integrada Georreferenciada). Os dados dos seis biomas do Brasil, tudo isso colocado dentro de um big data lá do INPE. Com o supercomputador do Inpe e uma rede de supercomputadores do Brasil, conectada pela RNP, vamos conseguir fazer modelamento e simulação de mudanças climáticas. Não sou dessa área, mas acho que se você pode fazer algo para conhecer, analisar e reduzir a emissão de carbono, por exemplo, é muito útil. Por isso, quero ver se pego a parceria com outros países do continente, e [se] conectar isso com os supercomputadores na Europa, com um cabo como esse, tendo sistema semelhantes na Europa e em outros continentes, vamos conseguir fazer uma rede internacional para tratamento científico para mudanças climáticas.

    S: Mas a política ambiental não tem ido na contramão disso, sobretudo com o aumento das queimadas e o desmatamento, que influenciam na emissão de carbono e nas mudanças climáticas?

    MP: Esse é um exemplo de uma política positiva do Brasil contra isso aí, que é feita pelo MCTI. Eu não cuido da parte do meio ambiente, isso fica fora do nosso escopo. Mas temos todo um desenvolvimento que vale a pena os outros países conhecerem, tanto em desenvolvimento sustentável na Amazônia, quanto em projetos como esse do INPE sobre mudanças climáticas, nós que fazemos a parte de monitoramento de queimadas. Aumentamos agora um satélite, o Amazônia 1, que é nacional. Temos a constelação Catarina, com 13 nanossatélites a serem lançados. Além disso, temos o programa Salas, com 50 laboratórios remotos na Amazônia, para coleta e estudo de biodiversidade, que vai atrapalhar o desmatamento. Vamos ter dezenas de cientistas no meio da Amazônia, o que vai atrapalhar os desmatadores. Temos uma série de projetos lá dentro de desenvolvimento sustentável, como redes de açaí, tambaqui, pirarucu. Fazemos a nossa parte. Está bem alinhado no sentido de ajudar o país numa política positiva de redução do desmatamento. 

    S: Mas há um diálogo com o ministro Ricardo Salles sobre isso? Porque me parece que o senhor está mostrando um outro cenário que é completamente diverso do Ministério do Meio Ambiente. 

    MP: A gente trabalha em conjunto, cada um faz a sua parte. Ele também, logicamente utilizando dados do Inpe para fazer os estudos de como e onde combater o desmatamento. Não sei detalhes disso, de como é feito pelo MMA e pelo Ibama. 

    S: O ex-diretor do Inpe saiu de uma forma não muito agradável...

    MP: O [Ricardo] Galvão é amigo meu. Ele fez uma burrada de querer brigar com o presidente na imprensa e passou por cima de mim. Eu sou o ministro. Primeiro, tinha que ter falado comigo. Então, perdi a confiança. Essa coisa faz parte. O Inpe está muito bem. Vamos ver se conseguimos melhorar o orçamento. O Clezio [Marcos de Nardin] que está lá é um cara excelente.

    S: Mas o senhor mantém a amizade com o Galvão?

    MP: É amigo meu de muito tempo, mas faz tempo que não falo com ele, é normal.

    S: No seu discurso em Sines, o senhor disse que só através da ciência temos a chance de vencer. O Brasil está pagando o preço da derrota para a COVID-19 por não ter escutado a ciência?

    MP: O presidente é o presidente do país... O MCTI tem a obrigação, e estamos fazendo isso de uma forma bastante intensa no desenvolvimento de remédio e vacinas para o país. Nessa área de ciência, o país tem tido resultados muito bons. Agora, tem um remédio específico para a COVID-19, de cientistas brasileiros, que vai entrar em teste clínico; quatro vacinas para entrar em teste clínico com tecnologia nacional. Desenvolvemos reagentes no Brasil para testes moleculares, ventiladores com tecnologia completamente nacional. Na área de tecnologia, temos feito toda a nossa parte. É claro que o ministério tem o escopo da tecnologia. Mas está indo bem. 

    Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, durante inauguração do EllaLink, em Portugal
    © Foto / Divulgação/Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações
    Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, durante inauguração do EllaLink, em Portugal

    S: Sobre a vacina Versamune, em que pé está? Há um prazo para o fim dos testes das fases 1 e 2?

    MP: Essa é uma das quatro. Ela está aguardando a autorização da Anvisa para começar os testes clínicos com pacientes.

    S: Mas há um prazo? O HCor anunciou o pré-cadastro de voluntários...

    MP: Depende. A gente não pode nem deve interferir no trabalho da Anvisa. Mas, assim que liberarem, a gente começa os testes. Já consegui os recursos, que era a parte mais complexa disso, e acho que está tudo pronto para quando a Anvisa liberar.

    S: A CEO da Farmacore disse que a Versamune estará disponível para a população em dezembro. O senhor não acha muito curto esse prazo?

    MP: Não, porque a procura de voluntários foi muito maior do que o número necessário para as fases 1 e 2. Estimávamos em três meses, mas aparentemente vai demorar menos tempo que isso, o que é importante. Entrando na fase 3, que é a área de eficiência da vacina, podemos fazer uma abertura dos resultados a partir dos testes, observar para ver como está. Se estiver tudo bem, pode ser que no fim do ano já comecemos a utilizar em forma emergencial a Versamune. É uma tecnologia bacana, de segunda geração.

    S: Por falar em forma emergencial, a OMS aprovou a CoronaVac para uso emergencial...

    MP: Ah, é? Isso é ótimo. É uma ótima notícia, porque era preocupante realmente não ter uma vacina [reconhecida], pois grande parte dos brasileiros está sendo imunizada pela CoronaVac. Caso exista algum tipo de cartão de vacinação internacional, você precisa ter reconhecimento.

    S: É um bom primeiro passo?

    MP: É excelente! Importante isso. Aliás, uma coisa que pedi é que no desenvolvimento das vacinas nacionais, não sei qual é o processo burocrático, mas para já ir certificando as vacinas internacionalmente. Seria importante nascerem já com o carimbo.

    S: As outras vacinas nacionais em desenvolvimento estão um passo atrás da Versamune?

    MP: Mais ou menos. Vejo isso como uma corrida de cavalos: eles vêm correndo juntos, mas, de repente, um acelera um pouco mais. Ciência é isso. Aparentemente, agora, a Versamune está mais adiantada. Tem uma outra de RNA, que não é completamente nacional, tem uma participação americana. Mas também está bem adiantada. Tem a da UFMG, que estou apostando que vai acelerar rápido também. Aquela de São Paulo, do Incor, talvez demore um pouquinho mais. Tem as outras chegando que a gente nem sabe. Investimos em 15. Pode ser que uma dessas esteja acelerando e terminando os testes.

    S: Em abril, o presidente Bolsonaro vetou R$ 200 milhões que seriam investidos no desenvolvimento do imunizante. O senhor não aconselha cientificamente o presidente sobre a importância das vacinas?

    MP: Ele sabe. Mas no setor público existe uma burocracia muito grande. Assim como no caso do FNCDT [Fundo Nacional de Ciência e Desenvolvimento Tecnológico], lá atrás, o presidente me ligou e disse que ia sancionar sem nenhum veto no começo do dia. Mais para o fim do dia, por causa de questões legais, mais técnicas e econômicas, acaba aparecendo um veto ou outro. Ele fica extremamente chateado com essa situação. Mas não posso ir contra a parte legal. Depois, ele ajudou a correr atrás, junto com o Paulo Guedes, desses R$ 415 milhões que vão cumprir a função agora. O presidente ajudou a empurrar bastante isso. 

    S: Mas, para além dos entraves burocráticos, o que o presidente transmite ao público, seja pela imprensa ou pelas redes sociais, é um descaso sobre a questão da vacina. Há inúmeras manifestações públicas dele nesse sentido. O senhor conversa com ele sobre isso?

    MP: Não sou médico. Sou engenheiro. Costumo não me meter muito onde não sei. Tem o Ministério da Saúde para tratar desses assuntos mais especificamente. Sempre fico no meu nível. Não cabe a mim julgar ou falar qualquer coisa em relação ao presidente.

    S: Mas o MCTI cuida das vacinas brasileiras...

    MP: Ele apoia 100% as vacinas brasileiras. Ele tem me ajudado bastante a empurrar essa parte da vacina nacional.

    S: Por que o MCTI só anunciou a Versamune horas após o governador Doria ter anunciado a ButanVac?

    MP: Na verdade, não sei por que o Doria anunciou a ButanVac naquele momento. Eu ia fazer o anúncio natural da Versamune, assim como vinha fazendo desde o início do programa. Eles [a Versamune] tinham entrado na Anvisa no dia anterior. Era natural eu falar que tinha entrado na Anvisa. Era o que ia fazer já. De repente, vi na TV o anúncio do Doria e achei estranho. Achei que ele estava anunciando a própria Versamune. Era outra vacina. Não sei se eles viram na Anvisa a Versamune e acharam que deviam anunciar por causa disso. Também não importa. De qualquer forma, é mais uma vacina licenciada, assim como essa do RNA que estamos fazendo com participação internacional. O importante é ter mais vacinas. Do meu ponto de vista, não tem competição nenhuma. Tem cooperação. 

    O governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB), anuncia o desenvolvimento pelo Instituto Butantan da vacina contra a COVID-19 batizada de ButanVac.
    © Foto / Divulgação/Governo de São Paulo
    O governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB), anuncia o desenvolvimento pelo Instituto Butantan da vacina contra a COVID-19 batizada de ButanVac.

    S: Por mais que não seja médico, o senhor é um homem da ciência. O que acha dessa insistência do governo federal em protocolos como a cloroquina e o tratamento precoce, que não tinham comprovação científica?

    MP: Zero a comentar. De novo, não sou médico. Isso é com o Ministério da Saúde.

    S: O senhor já foi vacinado?

    MP: Ainda não chegou na minha idade. Lá em Brasília, ainda está acima de 60. Eu tenho 58.

    S: Está ansioso? 

    MP: Já tive COVID-19, mas é sempre importante divulgar isso: mesmo as pessoas que já tiveram precisam continuar a ter cuidado, porque 70% de todo sequenciamento genético, em busca de mutações, é feito pelo MCTI. Essas mutações, uma pessoa que já teve, pode ser reinfectada. Da mesma forma, temos que acompanhar se as mutações não tiram as vacinas do envelope de eficiência. Por enquanto, ainda está ok. Essa é outra razão, que tenho batido na tecla, da importância de ter uma vacina nacional. Vacina tem três fases: desenvolvimento da tecnologia, produção do insumo farmacêutico e envasamento. A vacina com tecnologia nacional é a melhor, porque você consegue produzir, modificar com a licença do Brasil, adequar rapidamente às mutações. Também tem o fato de produzir o insumo farmacêutico em empresa privada no Brasil: além de ter a soberania em fazer as modificações necessárias, você consegue emitir a nota fiscal no Brasil, produzir empregos. Isso vai valer não apenas para a COVID-19, mas para outras pandemias e doenças como dengue, zika e chikungunya. 

    S: O senhor, que é astronauta e viu que a Terra é redonda, o que acha dos movimentos negacionistas, antivacinas e terraplanistas?

    MP: Eu vejo essas coisas e dou risada porque essa ideia de terraplanista é tão antiga... Tem outras teorias, como o pessoal que não acredita que o homem foi à Lua, que acha que a Terra é oca, que a Lua é uma espaçonave. Tem de tudo. Falo: gente, pega o livro e vai estudar.

    S: Mas depende de com quem estudar, porque se for estudar com o Olavo de Carvalho...

    MP: Aí é outra coisa, um problema dele lá... [risos]

    S: O senhor pretende se candidatar a algum cargo nas próximas eleições?

    MP: Não fecho a porta. Pode ser que me candidate, não sei a quê. Pode ser a senador ou deputado. Ainda preciso conversar com o presidente e algumas pessoas para ver a ideia como um todo e o que pode ser feito. Ainda não conversei com o PSL.

    S: Considera a possibilidade de ir para o Patriota se Bolsonaro se filiar a esse partido?

    MP: Primeiro, vou conversar com o presidente. Estou tão focado no negócio da pandemia, que não parei para pensar nessa parte.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil lidando com COVID-19 no início de junho de 2021 (42)

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    COVID-19, vacina, Jair Bolsonaro, Marcos Pontes, Brasil, Portugal
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