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    COVID-19 no final de março de 2021 no Brasil (116)
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    Nesta terça-feira (23), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nomeou como ministro da Saúde o médico Marcelo Queiroga, uma semana após o anúncio. Sobre as consequências da mudança, a Sputnik Brasil falou com a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, professora da UFSCar.

    Sem cerimônia oficial, Bolsonaro assinou nesta terça-feira (23) o termo de posse do médico cardiologista Marcelo Queiroga como ministro da Saúde, substituindo o general da ativa Eduardo Pazuello no cargo. O anúncio da mudança ocorreu uma semana atrás, na segunda-feira (15), após idas e vindas sobre o nome do novo ministro.

    Desde então, Pazuello e Queiroga têm aparecido juntos como os chefes da Saúde participando dessa forma de eventos oficiais. A demora na posse de Queiroga teria relação com pendências jurídicas, mas também com a tentativa de Bolsonaro garantir a Pazuello um cargo de relevância no governo para proteger e prestigiar o agora ex-ministro da Saúde.

    Realidade se impõe e Bolsonaro tenta salvar popularidade

    O imbróglio na mudança de comando do Ministério da Saúde acontece em meio ao pior momento da pandemia da COVID-19 no Brasil. Com quase 300 mil mortos e o sistema hospitalar colapsado, o país teve, apenas nesta terça-feira (23), 3.351 óbitos pelo novo coronavírus.

    Para entender os desdobramentos políticos da conturbada mudança no Ministério da Saúde, a Sputnik Brasil ouviu Maria do Socorro Sousa Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Para a cientista política, a confusão na mudança do comando da Saúde é mais um sinal da "incapacidade" do governo federal de lidar com as atuais crises do país. Para Sousa Braga, essa incapacidade já estava demonstrada na postura negacionista e anti-ciência do governo Bolsonaro, além da aposta errada de que a pandemia não teria efeitos graves.

    "Eles [os líderes do governo] começaram toda sua participação e envolvimento para tentar resolver essa questão de uma forma a esperar que fosse algo muito menor, e não foi. A gente está vendo aí essa subida imensa de mortes por dia e estamos chegando a algo realmente bastante assustador, e agora assim eles terão que tomar medidas contrárias àquelas estratégias que eles estavam adotando desde o início", afirma a professora em entrevista à Sputnik Brasil.

    A cientista política acredita que a mudança na Saúde foi fruto de pressão do chamado Centrão, a direita fisiológica que reúne diversos partidos políticos no Congresso Nacional. Apesar disso, Sousa Braga ressalta que a pressão popular também exerceu um papel na mudança, que cresce conforme a crise sanitária se aprofunda.

    "Isso tudo também influencia. Quanto maior o número de mortes, quanto maior a dificuldade dos estados darem conta, com os serviços que eles têm hoje, da população afetada pela doença, mais o governo vai flexibilizar e vai adotar medidas para mostrar que sim, que agora está atuando, que está fazendo o máximo possível de ajuda. Então, a saída do Pazuello vem também nesse sentido", aponta a professora.

    Em meio à mudança na Saúde circulou a possibilidade de criação de um novo ministério para ser comandado por Pazeuello, o que lhe daria direito ao foro privilegiado. O general está sob investigação por suposta negligência na gestão da pandemia. Apesar disso, a criação de uma nova pasta não foi adiante e, conforme publicou o jornal O Estado de São Paulo, Pazuello deve ser indicado para a chefia do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI).

    O então ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro, em 16 de dezembro de 2020, em Brasília
    © AP Photo / AP / Eraldo Peres
    O então ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro, em 16 de dezembro de 2020, em Brasília

    Para a cientista política, a tentativa de proteger Pazuello também afetará negativamente a visão da população sobre o presidente e o governo, com exceção do grupo que ela classifica como "fanáticos", que apoiam Bolsonaro em todas as situações.

    "Essa ideia, de proteger o Pazuello e mantê-lo no Planalto, claro que afeta a situação política do governo. A leitura que a população vai fazer é que, de fato, ele só está agindo para justamente tentar ludibriar, enganar a população de que está fazendo alguma coisa", afirma.

    Impeachment está distante e forças políticas querem ver Bolsonaro 'sangrar'

    Há algumas semanas, Bolsonaro tem demonstrado publicamente um giro em seu discurso, expresso no apoio explícito à vacinação em massa, no uso de máscaras em público e na mudança no Ministério da Saúde. Apesar disso, o presidente manteve algumas práticas, como a defesa de medicamentos sem comprovação científica para o tratamento da COVID-19.

    Para a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, a postura é uma adaptação do presidente de olho na reeleição, mas Bolsonaro continua o mesmo.

    "O 'novo Bolsonaro' é uma nova conduta. O Bolsonaro é o mesmo. O que a gente está vendo é que diante da situação calamitosa que o Brasil está chegando, com a sua popularidade caindo, ou seja, vai afetar bastante o seu desempenho ano que vem, em 2022. Então, ele tem que mudar sua postura", afirma.
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, coloca máscara durante cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília, 22 de março de 2021
    © REUTERS / Ueslei Marcelino
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, coloca máscara durante cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília, 22 de março de 2021

    Ainda segundo a cientista política, mesmo com a queda na popularidade de Bolsonaro e a explosão do número de casos e mortes na pandemia, o impeachment do presidente segue uma possibilidade distante.

    "Eu não acredito em impeachment nesse país mais, pelo menos para esse governo. Até porque não acredito que tenha alguma força que queira assumir esse governo hoje. Na minha avaliação as forças políticas no Brasil preferem ver o governo sangrar até o fim, chegar muito mal avaliado lá na frente, para justamente uma outra força assumir no lugar dele. Fazer impeachment agora não me parece ser do interesse de nenhum desses grandes partidos ou grupo político que diz querer que o presidente saia do governo", avalia.

    Crise pode tirar Bolsonaro do 2º turno de 2022

    Para a cientista política, os partidos de esquerda até gostariam de ver um impeachment de Bolsonaro, mas não têm base no Congresso Nacional para garantir a governabilidade necessária em um país com uma crise "econômica, política, sanitária e moral". Nesse contexto, a professora acredita que Bolsonaro pode, inclusive, ficar de fora do segundo turno das eleições presidenciais de 2022.

    "É um contexto bastante, digamos assim, instável para qualquer força assumir. Então, me parece que a tendência vai ser a gente aguentar ainda o nosso governante até o ano que vem. E, aí sim, durante o processo eleitoral, ele perder, ele for minguando, perdendo condições. Ele não tem condição de se manter como força, digamos assim, para chegar no segundo turno", opina a professora.
    Marcelo Queiroga, o novo ministro da Saúde de Jair Bolsonaro, em Brasília, no dia 16 de março de 2021.
    © Folhapress / Agif
    Marcelo Queiroga, o novo ministro da Saúde de Jair Bolsonaro

    A cientista política ressalta, no entanto, que o jogo eleitoral segue em aberto e que melhoras na economia poderiam reverter a situação em "um ano de travessia".

    "Se vier a melhorar a situação, ele pode se tornar, ele pode voltar a ser realmente uma força importante para 2022. Então, ainda são cenários, a gente tem que esperar um pouco esse ano", alerta, lembrando que a ideia de impeachment está posta para o governo desde o início, mas nunca foi adiante.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Brasil, COVID-19, Jair Bolsonaro
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