14:14 17 Abril 2021
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    O Observatório da Restauração e do Reflorestamento é uma ferramenta inédita que permitirá acompanhar o cumprimento de metas estabelecidas em acordos internacionais, disse o biólogo à Sputnik Brasil.

    Lançado nesta terça-feira (9), a plataforma é uma iniciativa da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que reúne diversas organizações, como WRI Brasil, Imazon, Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e TNC. 

    O Brasil já possui sistemas de monitoramento e alertas de desmatamento e incêndios bastante modernos e evoluídos, mas faltava um projeto que reunisse dados sobre a recuperação da cobertura florestal, explica o biólogo Marcelo Matsumoto, especialista em geoprocessamento do WRI Brasil. 

    "Os membros que participam da coalizão trouxeram essa pergunta para a gente: 'E aí, quanto a gente tem de restauração no país?'. A ideia de organizar esse conjunto de dados que compõem hoje o Observatório é saber quanto que existe de restauração. E a gente viu que realmente existe", disse o pesquisador.  

    Distante da meta

    A ferramenta ajudará, por exemplo, no acompanhamento do cumprimento de metas surgidas a partir de acordos internacionais do clima, como o Acordo de Paris, a Declaração de Nova York, a Iniciativa 20 x 20 e o Desafio de Bonn. Atingir os objetivos traçados pode inclusive ajudar o Brasil a abrir mercados no exterior e firmar pactos comerciais.

    A plataforma indica que o Brasil ainda está longe de cumprir suas metas. Pelo Acordo de Paris, o país precisa recuperar 12 milhões de hectares até 2030. No entanto, até o momento, do total prometido, só foram entregues 79,13 mil, pouco mais de 0,55%. 

    O aspecto positivo é que os números da plataforma ainda estão subestimados, afirma Matsumoto. Ele explica que a ferramenta funciona como uma espécie de compilação de dados fornecidos por entidades parceiras e terceiros. Conforme o tempo for passando, a tendência é de que mais informação seja reunida pela ferramenta. 

    "A ideia é continuar a trazer mais dados e, com isso, quantificar as áreas com valores mais próximos à realidade", disse o biólogo. 

    Visibilidade a projetos de restauração

    Além disso, Matsumoto afirma que a plataforma aumentará a confiabilidade e transparência sobre os dados relativos à restauração, e dará mais visibilidade a projetos e iniciativas de recuperação florestal, que também podem ser realizadas por produtores rurais. 

    "Tem diversos projetos acontecendo, só que não estava organizado em uma estrutura nacional. Iniciativas regionais já existiam várias, como o Pacto da Restauração da Mata Atlântica, mas a plataforma traz dados do país inteiro. Tem várias áreas interessantes em que dá para perceber que está acontecendo a restauração, que não se trata apenas de regeneração natural da vegetação, mas também estratégias que permitem o uso econômico, como os sistemas agroflorestais [no qual espécies ecologicamente importantes se combinam com culturas viáveis economicamente]", disse o biólogo. 

    Queimada na Amazônia perto da BR-163 no Pará
    © AP Photo / Leo Correa
    Brasil já conta com sistemas de monitoramento de queimadas e desmatamento, como, por exemplo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que vêm registrando recordes de perda de vegetação. Mas ainda não havia uma plataforma nacional com informações sobre restauração e reflorestamento

    Maior parte na Mata Atlântica

    Para os governos, o mapa pode ajudar na formulação de políticas públicas, por exemplo na identificação de áreas de restauração em bacias hidrográficas importantes para o abastecimento de água de cidades.

    A plataforma já mapeou 79,13 mil hectares em áreas de restauração ativa em projetos com finalidade ecológica, que utilizam espécies nativas e favorecem a biodiversidade - categoria que conta para as metas estabelecidas em acordos como o de Paris, por exemplo. 

    "Hoje a gente percebe que a maior parte das áreas restauradas se encontram na Mata Atlântica, na região Sudeste. Porque os projetos desse tipo se iniciaram nesse bioma e os registros das informações são mais antigos e robustos", afirmou o especialista. 

    Em relação à Amazônia também tem muita informação disponível, mas os dados ainda precisam ser estruturados para entrar no sistema. Dos 79,13 mil hectares restaurados, 61,69 mil estão na Mata Atlântica; 4.247,93 no Cerrado; 695,12 na Amazônia; 114,01 na Caatinga; 11,33 no Pampa; e não há identificação de recuperação no Pantanal.

    Regeneração natural

    Também foram identificados 10,99 milhões de hectares que se regeneraram naturalmente ou com pequenas intervenções humanas para acelerar o processo. Geralmente são terras abandonadas após o desmatamento. 

    "A regeneração natural não pode ser considerada em sua totalidade da área para as metas porque essas áreas não estão protegidas, não temos certeza da permanência nesse estado. Temos que ter um olhar crítico nelas e qualificar para podermos contabilizar futuramente", afirmou o especialista da WRI Brasil. 

    Por mim, a ferramenta mapeou 9,35 milhões de hectares de reflorestamento quase que totalmente com monoculturas exóticas - com espécies que não são nativas do Brasil, como eucalipto - e que se destinam à indústria de papel e celulose.

    "Na questão da restauração, não é possível trabalhar em um viés simplesmente conservacionista, de proteção da biodiversidade e dos recursos hídricos. Os proprietários de terra também vivem de uma determinada área. O importante é conciliar a aptidão econômica daquela área, a exploração de alguns produtos, com a restauração. As pessoas têm que entender que a floresta em pé tem muito mais valor do que derrubada", disse Marcelo Matsumoto. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    WRI, Brasil, governos, meio ambiente, Mata Atlântica, Amazônia, reflorestamento, desmatamento
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