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    Sociólogo e economista ouvidos pela Sputnik Brasil dizem que é preciso rever decisões econômicas e de ensino para que classes menos favorecidas avancem.

    A desigualdade brasileira, a nona pior do mundo, não vai melhorar. A opinião é compartilhada por um sociólogo e um economista ouvidos pela Sputnik Brasil. E a solução também é igual para eles: ela passa, entre outros caminhos, pela sala de aula.

    Para Fabio Gomes, sociólogo e diretor da Consultoria Bateiah Estratégias e Reputação, não há sinais de mudança na nossa estrutura social e no quadro econômico que permitam antever uma melhora num ranking que deixa o Brasil atrás até de Botsuana, país africano que tem um Produto Interno Bruto (PIB) 103 vezes menor do que o brasileiro.

    Os dados divulgados na quinta-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir de relatório do Banco Mundial mostram que a classificação do Brasil em 2019 teve uma queda em relação a 2018. O Índice de Gini, que mede a desigualdade social, indicou recuo para 0,543 em 2019 ante 0,545 em 2018 no Brasil. Para efeito de comparação, em 2012 o número era de 0,540.

    "Fica claro para mim que, pelos dados do IBGE, a tendência é ruim e esse é um alerta para nós e para nossas lideranças", disse Gomes à Sputnik Brasil. "E há várias explicações para isso. Nossa estrutura econômica tem forte apelo para a indústria da produção de commodities, cada vez mais automatizadas, e isso não vai gerar tantos empregos como necessitamos. Temos também um custo enorme de aposentadorias e pensões e esse custo dificulta investimento em oportunidades de emprego. Há uma enorme fragilidade no campo da subsistência", explicou.

    O pessimismo de Gomes é acompanhado por João Victor Issler, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Ph.D. em Economia pela Universidade da Califórnia. 

    "Melhorar a desigualdade na nossa sociedade se consegue melhorando nosso capital humano, ou seja, melhorando nosso quadro de desigualdade educacional. Mas não vejo isso acontecendo. Não vejo o governo priorizando investimento em ensinos fundamental e médio, e sim no terciário, ou seja, no ensino superior. Mesmo que estivesse fazendo, ainda assim levaria tempo. Mas o problema é que não faz", disse ele para a Sputnik Brasil.

    Para o economista, há evidentemente uma má distribuição de recursos para financiar a educação e isso cristaliza a desigualdade dela e que mais tarde vai virar desigualdade de trabalho. É fundamental melhorar qualidade do ensino público.

    "Os resultados do Enem mostram isso. De um lado, no geral vemos boas performances em escolas privadas. E, do outro lado, maus resultados em escolas públicas", continuou Issler.

    Também a longo prazo, um caminho para melhorar este quadro social e econômico seria a redução da pobreza, uma "prima-irmã" da desigualdade, como classificou Issler. E isso acontece via crescimento econômico

    "China e Índia são exemplos porque geraram crescimento em altas taxas e, com elas, a redução da pobreza. Mas, para isso, volta-se à questão da falta de capital humano, ou seja, de se investir em educação na base", disse.

    Issler sugere também que o governo poderia dar isenções de pagamento de imposto de renda e financiar mais bolsas de estudos para facilitar o acesso aos mais desfavorecidos. E, numa visão mais ampla, fazer reformas estruturais e gastar menos.

    Para pensar no futuro, é fundamental olhar para trás. Segundo Gomes, o problema é grave, entre outras razões, por ser muito antigo.

    "As explicações são históricas. A nossa construção social foi desigual. São muitos os indícios de barreiras de oportunidades para a ascensão social das classes mais pobres. O Brasil não alimentou sua estrutura social para fazer nossa gente avançar. E vemos isso até se compararmos com alguns países latino-americanos. Falhamos ao promover o bem-estar, a renda, os valores de sobrevivências e também uma estrutura educacional que vislumbrasse prosperidade", disse o sociólogo.

    Essa estrutura social "muito devedora", como caracterizou Gomes, se vê em números gritantes. 

    "Os 10% mais pobres contribuem com 0,8% da riqueza nacional. E os 10% mais ricos, com 42,9%. Esta faixa de mais pobres gera R$ 2,3 bilhões, enquanto a faixa mais rica produz R$ 107 bilhões. Fica complicado viver na pobreza extrema com R$ 178,00 por dia", explicou.

    Tanto para o sociólogo, como para o economista, o be-a-bá da recuperação tem endereço certo: a escola.

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    Tags:
    Banco Mundial, IBGE, Botsuana, PIB, FGV
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