05:51 18 Outubro 2021
Ouvir Rádio
    Brasil
    URL curta
    Por
    0 71
    Nos siga no

    Pela primeira vez na história do Campeonato Brasileiro, dois técnicos portugueses vão se enfrentar neste domingo (8). De um lado, Abel Ferreira, que estreia na competição pelo Palmeiras. Do outro, Ricardo Sá Pinto, à frente do Vasco, que concedeu entrevista exclusiva à Sputnik Brasil.

    Sá Pinto mudou-se para o Rio de Janeiro há menos de um mês, mas já se sente em casa. Mesmo num dia conturbado para o Vasco da Gama, que teve suas confusas eleições presidenciais suspensas na noite deste sábado após decisão judicial, o técnico falou à Sputnik com serenidade, otimismo e confiança de que vai afastar o clube da zona de rebaixamento no Brasileirão, em que ocupa a 16ª posição, e avançar na Copa Sul-Americana, na qual classificou a equipe para as oitavas de final.

    Enquanto brigas, tiros e desligamento de energia em São Januário manchavam mais uma eleição no Vasco, Sá Pinto adotava a política da boa vizinhança ao conceder a entrevista ao correspondente da Sputnik em Lisboa. "Eu já sabia desde que cheguei das dificuldades que existiam e ainda existem, no nível financeiro e de estabilidade com as eleições. Temos que saber viver com isso. A equipe, eu e todos os colaboradores que trabalham conosco estamos unidos e convictos de fazer uma excelente época [temporada]", contou Sá Pinto pelo telefone.

    Fazendo jus ao hino do Vasco quando canta que "no futebol és um traço de união Brasil-Portugal", o treinador falou das relações entre os dois países, dos amigos e ídolos brasileiros e lusitanos. Entre seus conterrâneos, destaque para Abel Ferreira, com quem jogou e trabalhou no Sporting.  "O Abel é um amigo, acima de tudo, e só vai ser um rival durante 90 minutos", disse Sá Pinto à Sputnik Brasil. Confira a entrevista na íntegra a seguir:

    Sputnik: Quase um mês depois de chegar ao Rio, como está sua adaptação? Quais as principais semelhanças que vê com Portugal?

    Sá Pinto: A adaptação está muito boa. As semelhanças são muitas: em termos de clima, praticamente igual nesta altura; em termos de espírito, as pessoas, enfim, a alegria e tudo, sinto-me em casa como se estivesse em Portugal. Das pessoas da parte do clube também, a adaptação é boa, são pessoas dedicadas e disponíveis. As condições de trabalho são boas, e a alimentação também. Estou a gostar muito. 

    Por falar em comida, do que já sente saudades daqui de Portugal? Do bacalhau a todas as modas, do polvo à lagareiro, da francesinha, dos excelentes vinhos portugueses ou nada de gastronomia?

    Sá Pinto: Felizmente, aqui no Rio, há bons restaurantes portugueses, já fui a alguns em que comi um bacalhau muito bom. No restaurante do clube, comi um arroz de polvo que também estava muito bom. Aqui, também há muita comida portuguesa. Portanto, da comida ainda não sinto saudades. Mas também gosto muito da gastronomia brasileira. 

    Os brasileiros estão invadindo Portugal nos últimos anos. Conheceste muitos  aqui em Portugal? Como era e como é tua relação com eles agora? 

    Sá Pinto: Felizmente, fiz alguns bons amigos brasileiros no futebol. Recentemente, falei com o Anderson Polga, com o Andrei Cruz, com o Marco Aurélio, com o Jardel, pessoas que jogaram comigo. Tenho um grande carinho por eles e vamos mantendo a nossa amizade, a conversa e o contato. Continuamos com uma excelente relação. Portanto, nada mudou. Continuou tudo igual. Eu, aliás, sou uma pessoa que não muda mediante contextos. Sou sempre e serei sempre assim.

    Jorge Jesus elevou o Flamengo a uma patamar internacional, que tornou o time mais querido em Portugal. Como resgatar as origens lusitanas do Vasco e fazê-lo grande cá novamente, a valer o último verso do hino "No futebol és o traço de união Brasil-Portugal"? A Copa Sul-Americana é um bom caminho para isso?

    Sá Pinto: Nesta altura, sabemos que está a ser um início muito positivo, apesar de termos necessidades na tabela classificatória no Brasileirão. Mas começamos relativamente bem, estamos muito confiantes em relação ao futuro. Na Sul-Americana, passamos por um adversário de grande valor [Caracas], que ficou à frente do [Independiente de] Medellín e que só não passou à outra fase da Libertadores por uma questão de um gol: ou eram eles ou o Libertad. Portanto, era uma equipe de grande valor, e nós passamos [às oitavas]. 

    Quais são os principais obstáculos para que sua trajetória seja vitoriosa no Vasco?

    Sá Pinto: A grande contrariedade que estou a sentir é jogar de três em três dias. Realmente, isso é muito violento, temos um plantel de gente muito jovem, que ainda não tem hábitos nem maturidade para jogar de três em três dias. Nesta altura, para mim, esse é o grande handicap [desvantagem] para a equipe atingir um bom nível. O pouco tempo de treino que tenho também não ajuda em nada. Só com o treino e a repetição é que os jogadores percebem, cada vez e melhor, a ideia que eu quero para o jogo, quer em termos ofensivos ou defensivos do Vasco. Portanto, temos que lutar contra essas coisas também, mas os objetivos são feitos para mim jogo a jogo. Nesta altura, temos necessidades de pontos, e o meu primeiro objetivo é sempre ganhar o próximo jogo. Depois, à medida que formos, se Deus quiser, melhorando na tabela, vamos criando outros objetivos se assim pudermos.

    O técnico português Ricardo Sá Pinto à beira do gramado
    © Foto / Rafael Ribeiro / Vasco da Gama
    O técnico português Ricardo Sá Pinto à beira do gramado

    Como você é muito auto-exigente, vê a idolatria e o sucesso de Jorge Jesus no Flamengo como um incentivo ou um desafio para superar os obstáculos no Vasco, que hoje briga contra o rebaixamento, numa situação totalmente diferente?

    Sá Pinto: Sabemos que o Brasileirão é um campeonato muito competitivo. Jorge Jesus fez um excelente trabalho no Flamengo, mas tinha outros objetivos diferentes dos nossos. Tinha um plantel com quase dois jogadores por posição de qualidade, o que lhe permitiu estar em muitas competições e ter o êxito que teve, quer no Brasileirão, quer na Libertadores. Fez um trabalho notável, que foi importante para o futuro de todos os treinadores portugueses e ajudou a abrir portas para todos nós portugueses treinadores. Claro que os nossos objetivos são diferentes, e é nossa realidade. Temos que saber conviver com ela, e eu já  sabia desde que cheguei das dificuldades que existiam e ainda existem, não só desse nível, mas também no nível financeiro e de estabilidade com as eleições. Temos que saber viver com isso. A equipe, eu e todos os colaboradores que trabalham conosco estamos unidos e convictos de fazer uma excelente época [temporada].

    O que o futebol brasileiro pode aprender de diferente com os técnicos portugueses?

    Sá Pinto: Os portugueses podem aprender muitas coisas com os brasileiros, e vice-versa. É uma permuta constante. Aprendo muitas coisas com os portugueses, e outros treinadores portugueses provavelmente aprendem também comigo. A partilha é das melhores coisas que existe entre treinadores. Temos metodologias diferentes, ideias diferentes, mas todos nos complementamos. Há treinadores que são mais fortes na comunicação, outros nas estratégias, na organização, na metodologia de treino. Todos podemos aprender uns com os outros e melhorarmos para que possamos melhorar nossas equipes e os jogadores. Um dos meus objetivos como treinador é deixar um marco, sentir que ajudei os jogadores individualmente, mas também que ajudei os clubes a conquistar algo positivo.

    Qual o teu maior ídolo no futebol brasileiro? 

    Sá Pinto: Logicamente, Romário sempre foi o jogador que mais admirei. Entre muitos outros que joguei contra, também gostava muito do Rivaldo, do Djalminha, o próprio Ronaldo Fenômeno, o Ronaldinho... Joguei contra grandes jogadores, de muita qualidade, tive esse privilégio. Existem tantos, tantos e tantos, mas dessa geração, o mais próximo é o Romário. Sempre admirei jogadores como o Zico, que foi uma grande referência, e o próprio Pelé, que não vi jogar, mas vi imagens de vídeo de jogos antigos. Via-se a qualidade dele e de outros grandes jogadores. Falava-se muito também do Garrincha, que era um driblador, e também vi algumas imagens dele. Foram as maiores referências dos últimos tempos, apesar de no Brasil haver muito outros bons jogadores. Não me lembro de todos, disse alguns, mas provavelmente faltam mais.

    Sá Pinto contempla a estátua de Romário, seu maior ídolo brasileiro
    © Foto / Rafael Ribeiro / Vasco da Gama
    Sá Pinto contempla a estátua de Romário, seu maior ídolo brasileiro

    O seu adversário deste domingo tem no comando um velho conhecido seu. Como é hoje sua relação com Abel Ferreira? Com que frequência conversam? Verdade que você deu um empurrãozinho para o Palmeiras contratá-lo?

    Sá Pinto: O Abel é um amigo, acima de tudo, e só vai ser um rival durante 90 minutos. Somos amigos há muitos anos, jogamos juntos e trabalhamos juntos enquanto treinadores. Portanto, quero sempre o melhor para ele, mantemos o contato, não digo diariamente, mas com muita frequência.

    Apesar de serem clubes que têm torcidas coirmãs, Vasco e Palmeiras vivem momentos completamente distintos. Acredita que o fator São Januário pode ajudar a superar o adversário mesmo sem a torcida nas arquibancadas?

    Sá Pinto: Acho que hoje em dia, o fator casa não conta como antigamente. Sinceramente, nem cá nem lá, no meu ponto de vista. Só se houver grandes diferenças em relação à qualidade ou às dimensões do relvado [gramado]. De resto, não me parece que haja grandes diferenças hoje em dia. 

    Está ansioso para ver os torcedores de volta às arquibancadas?

    Sá Pinto: Claro que estou! O futebol sem público não é futebol. O público realmente ajuda muito a equipe a galvanizar-se e a motivar-se para ganhar dos adversários.  

    Sá Pinto comanda o Vasco em jogo pelo Campeonato Brasileiro
    © Foto / Rafael Ribeiro / Vasco da Gama
    Sá Pinto comanda o Vasco em jogo pelo Campeonato Brasileiro

    Mais:

    Queiroz assistiu jogos de futebol do filho com ajuda de deputado federal do PSL, diz jornal
    Polêmica: jogos de futebol podem ser retomados no Brasil em meio à pandemia de COVID-19
    Baratas invadem campo de futebol durante jogo no México (VÍDEOS)
    Tags:
    Brasil, futebol, futebol masculino, Jogo de futebol, Portugal, Vasco, técnicos
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar