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    COVID-19 no Brasil no início de abril de 2020 (99)
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    O governo brasileiro começou a distribuir o 1º lote de testes rápidos da COVID-19. A Sputnik Brasil ouviu o renomado médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-diretor da Anvisa, que acredita que além de testes e equipamentos, Brasil precisa de um líder responsável.

    Na segunda-feira (30), chegaram ao Brasil 500 mil unidades do teste rápido fabricado na China, usado para detectar o novo coronavírus. Os testes são uma doação da mineradora Vale. Outras 4,5 milhões de unidades já foram encomendadas da mesma empresa, a Wondfo. O teste da empresa chinesa tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e consegue detectar o novo coronavírus (SARS-CoV-2) em 15 minutos.

    Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), explica por que a chegada do 1º lote de testes é importante.

    "É muito importante que tenha chegado esse grande número de testes, vão chegar 5 milhões de testes, mas nós vamos ter que ter muito mais desses testes. Seguramente nós vamos ter que fazer grandes enquetes, grandes surveys, para identificar quando que nós teremos uma grande parte da população brasileira que já teve a doença. E vamos identificar isso através do teste rápido. É uma boa notícia, mas ainda é uma notícia parcial", afirma o médico em entrevista à Sputnik Brasil.

    Os tipos de testes para o novo coronavírus

    Vecina, que também foi secretário municipal de Saúde de São Paulo entre 2003 e 2004 explica que há dois tipos de testes para identificar o novo coronavírus (SARS-CoV-2).

    O primeiro teste, conhecido como PCR, é fabricado no Brasil e tem um resultado que fica pronto em algumas horas, explica o médico. Porém, não é possível fabricá-lo na velocidade necessária.

    "Ele [o teste PCR] é importante principalmente do ponto de vista de controlar a epidemia. Porque se o paciente tem o PCR positivo nós iremos isolá-lo para que ele não transmita para outras pessoas", acrescentando que o teste consegue identificar a presença do vírus a partir de cinco dias após o paciente ser infectado.

    Vecina, fundador e primeiro diretor da ANVISA - entre 1999 a 2003 - aponta ainda que o teste rápido usa um método diferente, que altera a forma como o vírus é detectado.

    O sanitarista Gonzalo Vecina Neto em entrevista ao Ministério da Saúde sobre a 1ª Conferência Nacional de Vigilância em Saúde, em 2017.
    O sanitarista Gonzalo Vecina Neto em entrevista ao Ministério da Saúde sobre a 1ª Conferência Nacional de Vigilância em Saúde, em 2017.
    "O teste rápido identifica a reação do corpo à presença do vírus. Esse teste começa a ser positivo a partir do sétimo ou oitavo dia, que é quando aparece uma proteína no nosso corpo chamada IVG", explica.

    A proteína IVG fica presente no corpo até o 21º dia da doença, aponta Vecina. Ainda segundo ele, é por volta do 14º dia que surge uma segunda proteína, a IGM, ligada à produção do anticorpo que combate o vírus.

    "Ela [IGM] sobe e continua alta não sabemos até quando. É ela que é responsável por dar uma imunidade ao microorganismo, que a gente espera que seja um imunidade semelhante à que nós temos com as gripes, essa imunidade é uma imunidade que normalmente dura até um ano", aponta.

    O médico ressalta, porém, que a imunidade pode durar muito mais, como no caso da imunidade ao sarampo, que dura a vida toda.

    Segundo a mais recente atualização do Ministério da Saúde, o Brasil soma 6.836 casos da doença e 241 mortes.

    O que o Brasil precisa além dos testes

    Gonzalo Vecina Neto recorda que para além dos testes há mais materiais importantes para o combate à pandemia no Brasil. Segundo ele, já estão em falta equipamentos de proteção individual fundamentais para o trabalho de profissionais de saúde. É o caso da máscara N95.

    "No mundo inteiro há um tipo de máscara, que é a máscara que filtra o vírus. É uma máscara que nós chamamos de N95. Ela é composta de duas partes de tecido não tecido e no meio tem um filtro especial que filtra o vírus, [ela é a máscara] que os profissionais de saúde devem utilizar em ambientes em que temos aerossóis, emissão de partículas que ficam suspensas no ar", explica.

    A máscara, porém, não está em falta somente no Brasil e há países, como no caso da Alemanha, que estão recomendando a reutilização do equipamento, pois a indústria mundial não tem dado conta da demanda, explica o sanitarista.

    Trabalhadores do cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, usam roupas de proteção em 1º de abril de 2020. Após a pandemia da COVID-19, o maior cemitério da América Latina teve aumento de 30% no número de enterros.
    © AP Photo / André Penner
    Trabalhadores do cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, usam roupas de proteção em 1º de abril de 2020. Após a pandemia da COVID-19, o maior cemitério da América Latina teve aumento de 30% no número de enterros.
    "Essa é uma recomendação que nós vamos até passar a discutir a partir de agora, que todo mundo use máscara. Vai para a rua? Põe máscara. Se tiver com alguma virose a chance de passar essa virose para alguém, usando máscara, diminui muito", diz.

    Para além de materiais de proteção individual, o médico também cita a questão dos respiradores, que já estão em falta e serão necessários para o tratamento de pessoas em estado grave da doença.

    "Temos falta ainda de respiradores. Algumas dessas importações vindas da China significam trazer respiradores porque nós precisamos trazer respiradores porque nós estamos com falta de respiradores para equipar as nossas Unidades de Tratamento Intensivo [UTIs]. E agora nós vamos começar a subir o uso de leitos de UTI e espero que a gente consiga dar vazão para o número de pacientes", aponta, lembrando que a alta demanda por leitos de UTI gerou caos em países como a Espanha e a Itália.

    Bolsonaro, a pandemia e um conselho para Mandetta

    Para o ex-diretor da ANVISA o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem realizado um bom trabalho, porém, a relação com o presidente Jair Bolsonaro tem sido uma ameaça.

    "[Mandetta] está com um cargo espinhoso, porque o chefe dele não acredita nele. Você trabalhar com uma pessoa que não acredita em você não é fácil. Eu já tive essa oportunidade na vida, é dificílimo. O cara [Bolsonaro] não acredita na ciência. Se ele não acredita na ciência ele acredita em feitiçaria. Aí não tem jeito", aponta Vecina.
    Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em conferência junto com seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, passa álcool-gel na mão e usa máscara
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em conferência junto com seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, passa álcool-gel na mão e usa máscara

    Diante dessa avaliação, o médico sanitarista aconselha Mandetta a não desistir do trabalho que vem desempenhando no combate à pandemia no Brasil.

    "Não desista e proteja o povo brasileiro. Ajude a levar recursos para os estados e para os municípios [...] porque esses recursos são necessários. Nós precisamos de dinheiro para conseguir comprar material de proteção para os nossos trabalhadores da Saúde, para comprar mais testes, para comprar aparelho de respiração artificial, para contratar leitos de UTI. E precisamos que uma autoridade com a cabeça no lugar proponha que as pessoas têm que ficar em casa durante esse período. Não deveremos demorar muito mais tempo aqui mas nós temos que continuar com a quarentena", aconselha o ex-secretário de Saúde de São Paulo.
    Tema:
    COVID-19 no Brasil no início de abril de 2020 (99)

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    Tags:
    China, Jair Bolsonaro, COVID-19
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