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    Com a pandemia do novo coronavírus, os países emergentes estão vendo crescer a fuga de capitais em meio a uma crise econômica. A Sputnik Brasil ouviu o economista Mauro Rochlin, da FGV, que acredita que essa é uma crise sem paralelos.

    Cerca de US$ 59 bilhões foram retirados dos países emergentes entre fevereiro e março deste ano, segundo estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Apenas no Brasil, o montante chega a US$ 7 bilhões, e a ONU acredita que o país será um dos mais afetados pela crise econômica mundial impulsionada pela pandemia.

    Mauro Rochlin, economista e professor dos cursos de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, explica que essa fuga de capitais já vem de antes da pandemia.

    "Essa fuga de capitais que a gente observa, de saída, de capitais que saem dos países emergentes em direção aos países desenvolvidos, ela na verdade não acontece desde agora", explica o economista em entrevista à Sputnik Brasil.

    Rochlin aponta também que a saída do capital estrangeiro foi de dezenas de bilhões de dólares da bolsa de valores brasileira já em 2019. Segundo dados do Banco Central obtidos pelo site Poder 360, o montante ao longo do ano passado foi de US$ 62,24 bilhões em toda a economia brasileira.

    "Eu diria que esse movimento poderia ser chamado de aversão ao risco. Os investidores internacionais entendem que o Brasil desde o ano passado passou a representar um país onde o risco se acentua, risco por conta de incertezas políticas que o próprio governo gera, incertezas relativas ao comércio internacional, e agora muito mais incertezas relativas ao quadro global", afirma.

    Alta do dólar e aumento dos preços

    A alta do dólar no Brasil, que nesta terça-feira (31) fechou o dia valendo R$ 5,19, é um efeito dessa fuga de capitais, segundo o professor da FGV.

    "Na medida em que estrangeiros que têm presença no mercado estrangeiro brasileiro resolvem repatriar capitais para países ricos, essa repatriação se faz através de venda de ativos denominados em reais como, por exemplo, ações na bolsa de São Paulo, títulos públicos do Brasil denominados em reais", explica o professor.
    O ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes (à esquerda) e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (à direita), usam máscaras cirúrgicas durante coletiva de imprensa do governo sobre as medidas para combater a crise causada pelo novo coronavírus no país.
    © REUTERS / Adriano Machado
    O ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes (à esquerda) e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (à direita), usam máscaras cirúrgicas durante coletiva de imprensa do governo sobre as medidas para combater a crise causada pelo novo coronavírus no país.

    Rochlin acrescenta que é na fase seguinte desse processo que se observa a alta do dólar.

    "Então quando estrangeiros, que são proprietários desses ativos resolvem retornar para seus países, eles vendem esses papéis, eles vendem esses ativos, e de posse dos reais adquirem dólar e uma vez tendo esses dólares no bolso remetem para suas contas de origem no exterior. Isso obviamente faz com que aumente a procura por dólares e a consequência é o aumento do preço da moeda", acrescenta.

    Com isso, produtos importados ou de referência internacional estão ficando mais caros dentro do Brasil.

    "Produtos como trigo, produtos como bens industriais que são usados na cadeia produtiva brasileira, petróleo, que é um produto que tem referência internacional, esses produtos tendem a ter aumento de preços", afirma.

    Crise imprevisível e sem paralelos

    Essa situação e o impacto econômico da pandemia do novo coronavírus nas economias de países emergentes como o Brasil tem uma duração imprevisível, segundo Rochlin.

    "Quanto ao tempo de duração da crise é absolutamente impossível fazer qualquer tipo de previsão, uma vez que não há definição quanto à retomada da atividade econômica. Para que a gente possa fazer previsões de uma maneira mais consistente a gente tem que ter algum horizonte de definição quanto à retomada", aponta.

    Para o economista, essa é uma situação inédita na história recente.

    "Não encontro paralelo na história recente de uma crise dessa envergadura", conclui.
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    novo coronavírus, COVID-19, FGV, Brasil
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