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    Esta terça-feira, 28 de janeiro, é o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo no Brasil. Entre 1995 e 2019, fiscais do trabalho encontraram 54.491 pessoas em situação de trabalho escravo no país, segundo dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Governo Federal (SIT).

    A história de Marinaldo Soares Santos, 48 anos, é apenas uma entre os mais de 50 mil resgates de trabalhadores em condições análogas à escravidão já realizados no Brasil. 

    Nascido na cidade de Monção, interior do Maranhão, localizada a 240 quilômetros da capital São Luís, Marinaldo Soares Santos já foi resgatado três vezes por estar trabalhando em condições desumanas.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Marinaldo conta que na primeira vez decidiu aceitar a proposta de trabalhar em uma fazenda em outra cidade do estado para "tentar uma melhora de vida".

    Marinaldo Soares Santos durante o VI Encontro de trabalhadores(as) resgatados(as) do trabalho escravo, em Pindaré-Mirim (MA).
    © Foto / Programa Escravo, nem pensar!/Repórter Brasil
    Marinaldo Soares Santos durante o VI Encontro de trabalhadores(as) resgatados(as) do trabalho escravo, em Pindaré-Mirim (MA).

    Prometeram a ele salário e alimentação, mas depois de dois meses de trabalho, contou que não tinha recebido o pagamento.

    "A gente queria vir embora e ele não liberou a gente. Ele só liberaria se a gente voltasse a pé e pedindo carona", explicou.

    Após conseguir negociar o retorno para casa, Marinaldo foi atrás do pagamento, que continuou não vindo, foi aí que recebeu ameaça de morte do seu patrão.

    "Ele chegou dizendo que se a gente o denunciasse, não sairíamos de dentro da fazenda com vida. O pessoal ficou intimidado", relembra.

    Após as ameaças, Marinaldo Soares conseguiu se reunir com outros trabalhadores e em grupo conseguiram fazer a denúncia para serem resgatados.

    A segunda ocasião em que Marinaldo Soares foi resgatado também foi em uma fazenda. Dessa vez, além de não receber, os trabalhadores ainda precisavam comprar parte do alimento e ferramentas de trabalho.

    "Nesse tempo a carne aqui na nossa cidade estava em torno de 8 reais e lá uma carne velha, salgada, maltratada era 13 reais. A gente tinha que pagar arroz, farinha, e as ferramentas de trabalho. Tínhamos que dormir em uma casa velha abandonada, cheia de morcego. A água que a gente bebia era tipo uma água de esgoto e a gente não tinha como sair de lá", comentou.

    O resgate só veio quando um dos trabalhadores adoeceu e o patrão permitiu que ele fosse até a cidade procurar ajuda. Lá, ele conseguiu fazer a denúncia e permitiu que os outros fossem resgatados.

    "Foi muito triste lá, foi muita ameaça, muito medo, passamos noites sem dormir. Quando chovia a gente ficava a noite todinha em pé, esperando passar a chuva, porque tinha goteira demais no nosso barraco", lembrou.

    A terceira vez, Marinaldo contou que "por sorte" durou pouco, mas por mais que não tenha durado meses como nas outras, os trabalhadores eram obrigados a dormir junto com com os porcos da fazenda.

    "Esse patrão tinha muitos porcos e os porcos tinham que dormir dentro do barraco. Se o peão soltasse os porcos, ele ficava bravo. A gente se zangou e fizemos um grupo todinho pedindo o pagamento para sair fora e aí ele disse que não ia pagar ninguém", comentou.

    De trabalhador resgatado a vencedor do Prêmio Nacional de Direitos Humanos

    Atualmente Marinaldo Soares Santos é uma liderança comunitária e atua na prevenção ao aliciamento de trabalhadores junto ao Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos (CDVDH) Carmen Bascarán, ONG de Açailândia (MA).

    Para ele, atuar no auxílio a outros trabalhadores é algo que lhe dá orgulho.

    "Nós começamos a alertar os amigos para não cair nas propagandas enganosas que os interesseiros faziam para a gente, hoje nós formamos esse grupo de trabalhadores e com isso nós estamos tentando combater o trabalho escravo", contou.

    Em 2016, Marinaldo recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, do Governo Federal, na categoria "Combate e Erradicação do Trabalho Escravo".

    "Para mim foi uma mistura de alegria e tristeza por saber que no nosso Brasil ainda existe trabalho escravo, mas eu ter recebido aquele prêmio foi por uma luta que eu fiz, lutando com coragem e dignidade pelos nossos valores. Então foi uma coisa muito gratificante", disse.

    Só no ano passado, 1.054 trabalhadores foram encontrados em situação de trabalho escravo no Brasil, segundo o SIT.

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    Tags:
    Maranhão, Campanha de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo, trabalho escravo, Brasil
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