07:19 21 Novembro 2019
Ouvir Rádio
    Uma senhora idosa durante ritual religioso de matriz africana.

    Intolerância religiosa na política encoraja cidadão ao ódio, diz líder religioso

    © Roger Cipó.
    Brasil
    URL curta
    Por
    8196
    Nos siga no

    A Organização das Nações Unidas ratificou neste ano o dia 22 de agosto como o Dia Internacional de Homenagem às Vítimas de Intolerância Religiosa. A Sputnik Brasil ouviu uma liderança religiosa brasileira para entender por que a intolerância segue avançando no país, e como isso se relaciona com a política e o tráfico de drogas.

    A medida da ONU veio através de um documento na Assembleia Geral e é co-patrocionada por Polônia, Brasil, Canadá, Egito, Iraque, Jordânia, Nigéria, Paquistão e Estados Unidos.

    No Brasil, as principais vítimas de intolerância religiosa são os cultos de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, alvos de ataques de fanáticos e também de traficantes - o que tem crescido.

    Para analisar a questão, a Sputnik Brasil conversou com o professor doutor babalaô Ivanir dos Santos,  interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da ONU. O babalaô foi homenageado em julho em Washington por com Prêmio Internacional de Liberdade Religiosa, recebido das mãos do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo.

    Ivanir aponta que o Brasil assinou a recomendação preocupado com os povos cristãos no mundo, e diz que acha estranho que não haja menção às religiões de matriz africana no documento pelo país.

    "As religiões de matriz africana [...] não são perseguidas só de hoje. Elas foram perseguidas na Colônia e no Império pela igreja católica, que era o Estado. Depois na República elas são perseguidas pelo próprio Estado republicano", diz o professor e babalaô em entrevista à Sputnik Brasil.

    O racismo da época, ratificado pela ciência, serviu como justificativa para a escravidão e, apesar de ser desmentido no século XX, cristalizou-se no imaginário popular.

    O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, posa para uma foto ao lado do babalaô Ivanir dos Santos durante a cerimônia do Prêmio Internacional de Liberdade Religiosa, em Washington, 17 de julho de 2019.
    O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, posa para uma foto ao lado do babalaô Ivanir dos Santos durante a cerimônia do Prêmio Internacional de Liberdade Religiosa, em Washington, 17 de julho de 2019.

    "Acabou virando uma atitude social em que você tem uma perseguição, uma discriminação na escola escola, na rua pelo desconhecido, na relação de vizinhança, na relação familiar e na relação de trabalho", aponta.

    Essa atitude ressurgiu de forma mais violenta recentemente pela mão de grupos armados em favelas.

    "E agora, no setor mais extremado, a invasão e queima de casas, feita por um setor novo, que é o de traficantes evangelizados, que acabam perseguindo nas comunidades, queimando objetos, queimando casas e impedindo de fazer a liturgia", diz o babalaô.

    O Bonde de Jesus

    Recentemente correu o noticiário nacional a prisão de um grupo de 8 traficantes possivelmente liderados por um pastor evangélico no Rio de Janeiro. O chamado "Bonde de Jesus" realizava ataques a terreiros de umbanda e candomblé, como divulgou o UOL. Ivanir recorda que esse tipo de crime é antigo na região.

    "Esse fenômeno começa no anos 1990. Nos anos 1990 você tinha um traficante no Morro do Urubu, ali na abolição, que começou a expulsar os religiosos naquela região", diz o babalaô, que tem também lembra de outro caso na região de Acari, também no Rio de Janeiro.

    Ivanir também recorda que nos anos 2000 esse mesmo fenômeno chega a diversas regiões do Rio de Janeiro, como na Ilha do Governador, Lins de Vasconcelos e Cidade Alta, se expandindo para a Baixada Fluminense, Zona Oeste, Niterói, São Gonçalo, Campos e região dos lagos.

    "Então você percebe que é uma coisa mais orquestrada. Eles têm tido uma atitude que é, desde ir armado na casa de culto e proibir que não toque mais até a ação extremada que é obrigar o sacerdote a quebrar o seu sagrado", explica.

    Para conter esse fenômeno, desde 2008, existe a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, da qual Ivanir faz parte. O grupo reúne religiosos de diversas vertentes e realiza, entre outras ações, denúncias, seminários e capacitação para conscientizar religiosos sobre seus direitos e como reivindicá-los em caso de agressões e ameaças. O grupo também publicou o "Guia de Luta contra a Intolerância Religiosa e o Racismo".

    "Pressionar as autoridades para elas tomarem a atitude delas e ao mesmo tempo trabalhar com a opinião pública. E se articulando com lideranças evangélicas sérias, que têm colocado que essa não é atitude correta dos setores evangélicos", aponta, acrescentando ainda que esse é um papel que deve ser exercido pelas autoridades.

    Intolerância como pauta política

    Ivanir dos Santos também alerta para o crescimento dentro da política de uma pauta religiosa, o que hoje é comum em todas as esferas políticas brasileiras.

    "Usando a história do medo, do ódio e de uma agenda moral, eles construíram uma pauta conservadora, de ódio e racista, e que tem aumentado seu eleitorado, coesionando seu campo religioso em um eleitorado e aumentando a sua força nas bancadas evangélicas", explica.

    O babalaô recorda que há um grande grupo de políticos nos municípios e estados usando do mesmo discurso. Além disso, há também o mesmo teor no Judiciário e no Executivo, segundo ele. Ivanir acredita que esse crescimento nas instituições encoraja o preconceito religioso entre os populares.

    "Obviamente, se você cresce dentro das instituições, você acaba encorajando o que está fora, o popular, de que ele ter tomado uma atitude de ódio, uma atitude racista, é uma atitude correta", alerta.

    Ivanir, que é articulado com diversos líderes religiosos de outras religiões, defende a liberdade de religiosa para todos.

    "Eu não sou contrário que esses grupos cresçam na sociedade do ponto de vista das suas lógicas, sob o jogo democrático. O que não se pode é querer transformar um Estado que é laico em um Estado religioso", conclui.

    Marcha pela Liberdade Religiosa

    Organizada desde 2008, a 12ª Caminhada Nacional pela Defesa da Liberdade Religiosa será realizada no posto 6 de Copacabana, no Rio de Janeiro.

    A caminhada, organizada Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, reúne, além de religiões de matriz africana, também muçulmanos, judeus, anglicanos, budistas, hare-krishna e inclusive ateus.

    São esperadas pessoas de todo o Brasil, além de outros países.

    "Na verdade é um agenda que não é religiosa, é uma agenda civil em defesa da democracia e do Estado laico", conta Ivanir.

    A edição de 2019 acontece no dia 15 setembro a partir das 11 horas da manhã.

    Mais:

    Abolição não caiu do céu: historiadora propõe olhar renovado sobre o 13 de maio
    O sagrado 'sub judice': religiões de matriz africana estão na mira da Justiça
    Ialorixá conta como intolerância religiosa anda junto com o racismo no Brasil
    Casos de intolerância religiosa no RJ aumentam 60% no primeiro semestre
    Tags:
    ONU, ONU, Mike Pompeo, Rio de Janeiro
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik
    • Comentar