18:43 25 Junho 2019
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    Um detento acena com uma faca caseira durante rebelião em Alcaçuz

    Especialista: Transferir líderes do PCC para presídios federais é estratégia insustentável

    © AP Photo / Felipe Dana
    Brasil
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    Terminou nessa quarta, o período estabelecido por decreto presidencial para que militares cuidassem da segurança no entorno de presídios para onde foram transferidos os chefes do PCC – Primeiro Comando da Capital. Especialista em segurança ouvido pela Sputnik diz que ações do tipo são ineficientes e contribuem para reestruturação do crime no país.

    A transferência dos presos para instalações de segurança máxima administradas pelo governo federal foi autorizada pela justiça após a descoberta de um engendrado plano para resgatar o líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Além dele, outros 22 presos ligados à cúpula do PCC foram transferidos em uma operação que envolveu policiais militares, federais e as forças armadas, configurando a mais abrangente ação contra a facção já promovida por Brasília para tentar minar o poder dos criminosos.

    Os líderes do PCC, até então encarcerados na Penitenciária 2 (P2) de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, foram levados para Mossoró, no Rio Grande do Norte, Brasília, no Distrito Federal e Porto Velho, em Roraima. Na opinião do ex-comandante da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e pesquisador de segurança pública da UERJ, Robson Rodrigues, a estratégia deve se mostrar falha na tentativa de desestruturar o PCC e servirá para "acirrar os ânimos desse barril de pólvora chamado sistema prisional brasileiro".

    Na opinião do especialista, policiais federais e militares não estão acostumados com a segurança de presídios porque a tarefa não faz parte do escopo de atuação destes profissionais. Para Rodrigues, além de "inviável, a estratégia do governo é insustentável no longo prazo". "[Medidas assim] reforça aos segmentos criminosos a presunção de que em algum essas tropas vão retornar [para suas atividades normais]. Muitas vezes, os presos aguardam isso acontecer para reorganizar [a estrutura do crime]", avalia.

    O ex-comandante da PM diz ainda que a ineficiência da justiça penal, somada às parcas condições de segurança nos presídios acaba facilitando a vida do crime organizado.

    "Temos uma situação muito ruim e degradante para os presos, mesmo para aqueles que poderiam ser socializados mais rapidamente se houvesse um cumprimento fiel das leis de execução penal. [O Estado] acaba oferecendo de bandeja esses presos para que sejam cooptados por organizações criminosas (…), dentro de um sistema que os deixa muito vulneráveis a um crime e em meio a disputas de domínio que o Estado já perdeu", afirma.

    Robson acredita que, quando o governo brasileiro não apresenta eficiência "nem na execução da justiça, nem no sistema policial e quiçá dos presídios", acaba facilitando a organização da criminalidade, já que, na visão do especialista, células criminosas do PCC age por princípios e possui regras definidas de atuação. Para o especialista, a melhoria da situação passa por uma reformulação completa da forma como o Brasil lida com condenados.

    "É preciso reformular os presídios, uma reforma da justiça criminal que acaba focando em crimes de menor potencial violento. Precisamos também aprimorar o sistema policial por meio de uma polícia efetiva, preventiva, que use mais a inteligência e menos a força. Do contrário, teremos muito mais ações reativas que soluções de médio e longo prazo", conclui.

    Tags:
    crime organizado, UERJ, Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Primeiro Comando da Capital (PCC), Robson Rodrigues, Marcola, Marcos Willians Herbas Camacho, São Paulo, Porto Velho, Brasília, Mossoró, Presidente Venceslau
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