07:41 23 Setembro 2018
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    Uma mulher vestindo niqab em Casablanca, Marrocos (foto de arquivo)

    Menos ódio, mais paz: '11 de Setembro marcou o início da estigmatização dos muçulmanos'

    © Sputnik / Natalia Seliverstova
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    Há 17 anos, a destruição das Torres Gêmeas em Nova York (EUA) mudou a vida de todos os muçulmanos do mundo, que passaram a ser estigmatizados como terroristas. Contra o preconceito e a desinformação, uma importante iniciativa dá mais um passo no Brasil em nome da paz nesta terça-feira.

    A partir das 17h no Rio de Janeiro, o projeto Words Heal The World promove o evento Diálogos pela Paz, reunindo representantes do islamismo, do judaísmo e de religiões afro-brasileiras, três das quais são os maiores alvos de informações falsas e discursos de ódio.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, a jornalista Beatriz Buarque – fundadora do projeto – destacou que a organização tem os jovens como principais atores e alvos no combate às fake news que agravam o ciclo do ódio religioso. Para ela, o extremismo só pode ser vencido com a desconstrução de inverdades a disseminação de mensagens de paz.

    "Hoje grupos neonazistas divulgam mensagens negando o Holocausto e isso circula livremente, sem falar nas mensagens do jihadismo, do [Daesh], da Al-Qaeda [organizações terroristas proibidas na Rússia e em vários países], essas coisas. Só quebramos esse ciclo [de ódio] se mostrarmos que são mensagens mentirosas, e disseminarmos discursos de paz. Se não falarmos, a gente é conivente […]. Já passou da hora", afirmou.

    Na sede da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o debate receberá o vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), Ali Hussein El Zoghbi, o co-fundador da Frente Inter-religiosa Don Evaristo Arns, Sérgio Storch, que falará sobre o judaísmo, e o publicitário e designer, estudioso de religiões afro-brasileiras Fábio Seabra.

    À Sputnik Brasil, El Zoghbi elogiou a iniciativa do projeto para debater o que ele chamou de "falta de responsabilidade" no uso de termos ligados ao islã, incluindo um dos termos atribuídos ao Daesh pela mídia, algo que contribui para a estigmatização e preconceito contra a comunidade islâmica.

    "Acho que um dos eixos que temos de trabalhar é o de levar conhecimento a respeito de diversos temas, algo que afugenta preconceitos e qualquer tipo de visão que leve à violência ou à agressão física e verbal em uma sociedade tão polarizada que vivemos hoje", pontuou a liderança muçulmana.

    Questionada sobre o evento no Rio ter sido marcado justamente em um 11 de setembro, Beatriz Buarque revelou que tratou-se de uma coincidência, mas que acabou sendo bastante simbólica, já que o atentado ocorrido em 2001 nos EUA marcou o início da chamada "Guerra ao Terror", algo que marcou profundamente a comunidade muçulmana mundial.

    "Foi quando começou o problema, o preconceito aumentou muito, vieram a Al-Qaeda, o [Daesh], e começaram a se multiplicar movimentos neonazistas. O próprio discurso jihadista alimenta a extrema direita, que se apropria disso. É um ciclo que só vem crescendo desde o 11 de Setembro, então acabou sendo relevante cair nesta data", comentou.

    O vice-presidente da Fambras também destacou que iniciativas como a do projeto Words Heal The World são fundamentais para uma comunidade que, se antes era composta de muçulmanos que vinham do Líbano e da Síria no século passado, agora cresce em todas as classes sociais no Brasil. Ele relembrou que até mesmo o símbolo máximo do cristianismo, o papa Francisco, já definiu o islamismo como "a religião de paz".

    "[A violência] não é só uma questão do islã. Vivemos em um Estado laico de direito e a percepção que tenho é de que cada vez mais a liberdade religiosa fica bastante restrita às minorias religiosas […]. Encontros como esse permitem reafirmar a quinta essência da compaixão, da misericórdia, procurando reduzir o atrito de ordem ideológica", acrescentou.

    O evento é aberto ao público, mas quem não puder comparecer poderá acompanhar os debates pela internet na página do Words Heal The World.

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    Tags:
    candomblé, intolerância religiosa, judaísmo, 11 de setembro, islamofobia, judeus, muçulmanos, islã, religião, crimes de ódio, islamismo, Diálogos pela Paz, Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), Words Heal The World, UFRJ, Fábio Seabra, Sérgio Storch, Ali Hussein El Zoghbi, Beatriz Buarque, Brasil
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