03:49 19 Junho 2018
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    Mulher grávida (imagem referencial)

    20 mil crianças brasileiras morrerão em decorrência de ajuste fiscal até 2030

    © Foto: Pixabay/Free-Photos
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    20 mil crianças brasileiras morrerão até 2030. O número impressiona, mas é precisamente esta a conclusão de um estudo comandado pela Fundação Oswaldo Cruz sobre os efeitos do arrocho fiscal na vida de dezenas de milhares de pequenos brasileiros. Em entrevista à Sputnik, o líder da pesquisa, Davide Rasella comenta os efeitos da contenção de gastos.

    Publicado na revista PLO Medicine, o estudo "Morbimortalidade infantil associada a políticas alternativas de resposta à crise econômica no Brasil: um estudo de microssimulação em âmbito nacional" utilizou modelos matemáticos e estatísticos para medir os impacto do corte de verbas na saúde infantil em todos os municípios brasileiros no período de 2017 a 2030.

    Davide Rassella conta que há dois anos já mensurava o impacto da crise, não apenas no que tange ao PIB nacional, mas sobretudo no relativo ao aumento da pobreza extrema e da desigualdade medido pelo coeficiente de Gini (no qual o Brasil pontua 0,5684 e é considerado o 10º país mais desigual do mundo). "A partir dessas informações, já tínhamos parâmetros e conhecimento sobre programas de impacto na redução da pobreza o suficientes para poder fazer projeções mais confiáveis e robustas", explica o pesquisador.

    O levantamento leva em consideração especialmente o impacto dos cortes promovidos pelo Governo Federal a programas como o Bolsa Família, que hoje beneficia 21% da população brasileira e a Estratégia de Saúde da Família, que atende 65% da população. Para o professor, arrochos que prejudiquem a continuidade dos dois programas são mais pesados no Brasil do que seriam, por exemplo, na crise econômica grega devido ao grau de desigualdade no país.

    "Se você pegar a taxa de mortalidade infantil deles, verá que é quatro, cinco vezes menor que a brasileira. A taxa aqui é maior até mesmo que em países da América do Sul com perfis econômicos similares devido a desigualdade, temos uma parte da população muito mais vulnerável socioeconomicamente. O Bolsa Família age nisso, reduzindo a pobreza, melhorando a alimentação e o acesso ao sistema de saúde", diz Rasella.

    A pesquisa mostra que, mantidos os níveis atuais destes programas, seria possível reduzir a mortalidade infantil em 8,6% (próximo de 20 mil crianças além de evitar 124 mil hospitalizações decorrentes de doenças preveníveis, como diarreia e desnutrição. A metodologia levou em consideração duas notas técnicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e e uma do Banco Mundial mostrando a correlação entre medidas de arrocho fiscal e o impacto na saúde da população.

    "O grande problema [da PEC 55] é a duração, tanto que ela foi chamada no Washington Post de "a mãe de todas as medidas de autoridade" porque não é uma medida que se limita ao período da crise econômica, mas sim que se estende por 20 anos", avalia o pesquisador, notando que quando a pobreza aumenta, as pioras nos indicadores sociais são imediatas. 

    Embora a projeção analise a faixa de tempo até 2030, os efeitos já estão sendo sentidos. Segundo o Ministério da Saúde, o número de mortes de crianças entre 1 mês de vida e 4 anos de idade aumentou 11%, depois de 13 anos de queda.
    Tags:
    arrocho fiscal, mortalidade infantil, Estratégia de Saúde da Família, coeficiente de Gini, Morbimortalidade infantil associada a políticas alternativas de resposta à crise econômica no Brasil: um estudo de microssimulação em âmbito nacional, PEC 55, Bolsa Família, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), PLO Medicine, Fundação Oswaldo Cruz, Governo Federal, Washington Post, Ministério da Saúde, Banco Mundial, David Rasella, América do Sul, Grécia, Brasil
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