07:58 22 Julho 2018
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    Desmatamento voltou a crescer na Amazônia nos dois últimos anos

    ‘Custa muito mais barato deixar a floresta viva do que derrubá-la’

    Wilson dias/Agência Brasil/Fotos Públicas
    Brasil
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    "É muito mais barato, economicamente, manter uma floresta de pé do que derrubá-la ou queimá-la." A afirmação é do biólogo Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a propósito das celebrações do Dia Internacional das Florestas nesta quarta-feira (21).

    Paulo Moutinho, que possui doutorado em ecologia, é hoje pesquisador sênior do Ipam, órgão do qual participou da fundação e atuou, por duas vezes, como diretor-executivo. Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista disse que o Brasil está na contraditória posição de quem pode e, ao mesmo tempo, não pode comemorar o Dia Internacional das Florestas:

    "O Brasil tem e não tem motivos para comemorar o Dia Internacional das Florestas. Tem motivos porque ainda existem na Amazônia e em alguns outros biomas uma boa parte coberta por florestas nativas. Isso traz para o Brasil uma oportunidade para o país desenvolver esse ativo florestal que tem grande importância. Principalmente, se nós pensarmos, detidamente, nesta crise climática pela qual o mundo está passando e tende a se agravar em alguns anos. E, simultaneamente, o Brasil não tem motivos para comemorar esta data porque nós ainda não estamos cuidando adequadamente deste bem público que são as florestas brasileiras, preservando-as para as próximas gerações, e mantendo o serviço ambiental que estas florestas prestam não só ao Brasil como a todo planeta."

    Ele critica com veemência os danos causados às florestas brasileiras pelos danos causados por queimadas e derrubadas, em nome de um alegado crescimento econômico:

    "A opção que o Brasil fez em grande parte do seu território é que a floresta precisa dar lugar a outros usos da terra sejam eles pastagens, agricultura, mineração e assim por diante para que o país possa se desenvolver. Me parece que há ainda uma tendência de os governantes acharem que desenvolvimento é sinônimo de crescimento econômico quando, na verdade, não o é. Se nós não entendermos que florestas são bens públicos, que prestam um serviço importante ao país, e que pode ser um ativo para geração de prosperidade econômica, será muito difícil nós mantermos grandes extensões florestais como ainda temos no Brasil."

    O especialista aponta a solução para que o quadro de destruição de florestas seja revertido:

    "Hoje, encara-se a floresta como algo que precisa ir ao chão para gerar prosperidade econômica e crescimento, e isso tem de ser feito de uma forma muito rápida, nem sempre legal. O que podemos fazer para mudar esse processo? É trazer à luz um debate, com o apoio da ciência, o fato de que neste mundo em aquecimento e em mudança de clima, o ativo florestal precisa ser mantido em pé, conservando regimes locais e regionais de ciclos de chuvas, principalmente, para que se possa inclusive manter a produtividade no campo, produtividade esta de tanto o governo quanto o setor agropecuário se gabam."

    Na opinião de Paulo Moutinho, a perda de florestas está diretamente ligada ao aquecimento global:

    "Alguns estudos nossos mostram que, sem florestas, há uma redução drástica do fenômeno da evapotranspiração, que é o lançamento de vapor d´água na atmosfera, formando as nuvens. Esta redução da evapotranspiração acaba aumentando a temperatura de uma maneira muito perigosa. Algumas regiões da Amazônia já sofrem com isso devido ao desmatamento. Portanto, floresta tem de ser vista no Brasil como ativo econômico tanto para a área agrícola como para a industrial, e isto está intimamente ligado ao futuro climático do país. Em suma: o tema da preservação da floresta tem de fazer parte do debate econômico."

    É exatamente sob o ponto de vista econômico que Paulo Moutinho chama a atenção para a necessidade da preservação das florestas:

    "Manter uma floresta nativa de pé é muito importante tanto do ponto de vista ecológico quanto do ponto de vista econômico. Uma floresta nativa de pé, especialmente em regiões como a da Amazônia, representa um grande fenômeno de irrigação natural. Plantar ou replantar árvores não significa que esteja se recompondo uma floresta ou um sistema florestal. E, do ponto de vista econômico, custa muito mais caro recompor uma floresta, um bioma natural, do que simplesmente manter este ecossistema de pé. É muito caro recuperar florestas. Alguns dados nossos mostram que isso varia entre 10 mil e 25 mil reais por hectare o custo de se recuperar uma floresta."

    O biólogo também apontou onde ocorrem os registros mais graves de desmatamento no Brasil:

    "Ainda temos muitos problemas na Mata Atlântica, há muito desmatamento no Cerrado, inclusive registrando taxa maior de perda do que a própria Amazônia, e, evidentemente, a própria Amazônia. Do meu ponto de vista, são imorais as perdas de vegetação nativa no Cerrado e na Amazônia."

    A política também tem sua parcela de responsabilidade na forma como a preservação ambiental no Brasil é tratada, segundo Paulo Moutinho. Para o biólogo e ecologista, existe uma inegável influência da bancada ruralista sobre o governo para as suas ações ambientais:

    "A bancada ruralista influi muito mal sobre o governo. Se forem aprovadas todas as discussões e proposições que estão sendo debatidas no Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados, nós teremos retrocessos astronômicos na questão ambiental. Há debates e proposições que implicam em perda de direitos indígenas, em perda de unidades de conservação como as grandes florestas, em afrouxamento de regras para concessões de licenças ambientais, etc. Resumindo: a bancada ruralista atual representa um grande risco para o futuro do bem-estar ambiental brasileiro." 

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