08:08 22 Setembro 2018
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    Umbandistas da Fraternidade Espiritualista Luz de Oxalá em Ribeirão das Neves, Minas Gerais.

    Por que aumentam os casos de intolerância religiosa no Brasil?

    © Sputnik / Kivia Kruczynski
    Brasil
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    Igor Patrick
    20121

    Era terça-feira, dia 24 de outubro, quando o policial reformado e pastor da Igreja Universal, João Camargo, e outros quatro homens apareceram na Casa Espírita Império dos Orixás de Nossa Senhora da Conceição e São Jorge Guerreiro. Armado, o bando ameaçou a mãe de santo Waleska Pereira e disse que ali construiriam uma igreja para Deus.

    O caso, registrado em São Joaquim de Bicas, interior de Minas, choca pela crueldade e a aparente impunidade dos agressores. À época grávida de sete meses, Waleska se viu sob a mira de uma arma, enquanto o grupo destruía imagens sagradas. Acionada, a polícia pouco fez: pediu que a mulher fosse até um hospital para realização de exames, momento em que João aproveitou para, sob os olhos de policiais, continuar destruindo altares. A intimidação permaneceu por quase uma semana com a destruição de ervas utilizadas para banhos sagrados, fiação elétrica e esgoto.

    "Eu achei que fosse perder o bebê. Quebraram meu celular, eu estava muito nervosa e desde então vivo com medo", contou Waleska à Sputnik Brasil.

    Imagens de santos ficaram completamente destruídas em São Joaquim de Bicas.
    © Foto : Divulgação/Cenarab
    Imagens de santos ficaram completamente destruídas em São Joaquim de Bicas.

    A violência enfrentada pela mãe de santo, porém, não representa um ponto fora da curva. Dados compilados pela Secretaria Especial de Direitos Humanos em janeiro confirmam: foram 697 ocorrências por intolerância religiosa entre 2011 e 2015, a maioria contra religiões de matriz africana. Só no Rio de Janeiro, a Secretaria de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI) estima que até outubro deste ano, foram 41 casos no estado.

    A ineficiência do Poder Público para coibir atos violentos do tipo dará início a uma denúncia contra o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, mas cabe o questionamento: por que a intolerância contra candomblecistas e umbandistas está cada vez mais presente no país?

    Ausência do Estado e preconceito

    Coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), a mãe de santo Makota Gonçalves foi quem levou o caso de Waleska às autoridades. Acostumada a lidar com episódios semelhantes todos os dias, ela teoriza que a frequência do que chama de "racismo religioso" está diretamente ligado à ausência do Estado brasileiro.

    "As pessoas não escondem mais a cara para dizer que nos odeiam. Somos signatários dos maiores tratados de direitos [humanos] e temos uma legislação extremamente avançada, mas ela não é cumprida. O Estado não se faz presente no acolhimento destas denúncias e muito menos através de medidas para coibir essa prática", avalia Makota.

    A coordenadora avalia que a "conjuntura de desesperança" presente no Brasil servem como combustível para casos de intolerância. Ela ainda critica a pouca eficiência das autoridades da Justiça e do Ministério Público. Desde setembro de 2015, frequentadores de um terreiro de candomblé na cidade de Santa Luzia lutam pelo direito de utilizar atabaques nos ritos religiosos. Em um Termo de Ajustamento de Conduta imposto pelo promotor Marcos Paulo Souza Miranda, foram estabelecidas uma série de restrições à prática do candomblé.

    "O Judiciário brasileiro é completamente comprometido com essas formas conservadoras que ferem o princípio da liberdade […]. O promotor impôs forma e método para se rezar dentro de um terreiro de candomblé. Só se pode rezar no dia e horário determinado por ele, nós utilizamos três atabaques [instrumento de percussão semelhante a um tambor] e agora só podemos usar um. E quando se vai falar com o promotor, ele diz 'eu não vejo isso como ameaça à religião do outro'", denuncia a ativista.

    Procurado, Marcos Paulo se recusou a dar entrevista. A assessoria de imprensa do Ministério Público do Estado de Minas Gerais enviou nota técnica em que justifica a decisão do promotor em acordos pela lei de pertubação do silêncio, já que a medida foi tomada após a reclamação de vizinhos.

    Associação entre evangélicos e grupos criminosos

    Em maio, a candomblecista I. chegava ao terreiro que frequenta em uma comunidade da Tijuca, na zona Norte do Rio, quando foi impedida no meio do caminho por uma mãe de santo. Exasperada, a senhora informou que criminosos tinham ameaçado "abrir na bala a cabeça de quem resolvesse voltar ali para adorar o demônio". Indignada, I. ainda tentou argumentar, mas chegou à conclusão de que se insistisse, perderia a vida.

    "Disseram que ele [o traficante] se converteu e que o pastor sentia a presença do demônio por lá", ela conta.

    A casa ainda funciona, mas sob pressão e medo constantes. Makota avalia que a presença de grupos evangélicos mais radiciais em presídios criou uma associação com o crime organizado.

    "Acredito que o crescimento das igrejas neopentecostais e a presença deles nas penitenciárias podem vir a fortalecer essa relação. A própria Igreja Católica, a Pastoral Carcerária pede essa presença constantes nos presídios, os evangélicos têm acesso liberado da visita religiosa. Visita que não é permitida aos terreiros na mesma proporção. Sem contar que nas comunidades, os pastores desse segmento também têm grande penetração".

    © Sputnik . Igor Patrick e Kivia Kruczynski
    Umbanda mostra igualdade e amor

    Os bons exemplos

    Em tempos de intolerância e violência, outros grupos evangélicos mostram que a convivência é possível. É o exemplo dado pela Igreja Cristã de Ipanema (ICI), que em outubro desse ano doou R$11 mil para a reconstrução do terreiro do barracão Kwe Cejá Gbé de Nação Djeje Mahin, em Duque Caxias. Foram dois anos de campanha junto com o Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro (CONIC-Rio) sob o lema "o terreiro que for destruído em nome de Jesus também será reconstruído em nome de Jesus".

    Coordenada pelo pastor Edson Fernando de Almeida, que há 25 prega semanalmente no local, a ICI tenta promover o encontro ecumênico e o diálogo entre as religiões. Frequentemente são realizados encontros em que líderes do candomblé, umbanda, islamismo, judaísmo e espiritismo para explicar sobre suas raízes. "Há tradições afro muito bonitas que precisam ser respeitadas, o diálogo é difícil, mas é riquíssimo", argumenta o pastor.

    Para Edson, a violência e o preconceito promovidos por grupos extremistas evangélicos são um reflexo de uma "interpretação equivocada" da Bíblia.

    "Se você pegar o sermão da montanha, ele diz que bem-aventurados são os misericordiosos e pacificadores. Tradições religiosas que deveriam ser propagadoras dessa missão de Cristo se tornam beligerantes e destruidoras. É transformar a Bíblia em um livro de julgamento, é eleger o Mal para se dizer defensor do Bem", diz.

    O pastor conta que, ao ver um altar africano destruído, se sente "escandalizado, como se fosse com a gente" e que, embora a Igreja não esperasse que a doação aos candomblecistas chamasse tanta atenção, fica feliz que a atitude tomada pela ICI "incentive grupos evangélicos que não se sentem representados por esse extremismo a se indignarem e protegerem o outro".

    Tags:
    candomblé, umbanda, intolerância religiosa, Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), Barracão Kwe Cejá Gbé de Nação Djeje Mahin, Pastoral Carcerária, Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), Casa Espírita Império dos Orixás de Nossa Senhora da Conceição e São Jorge Guerreiro, Polícia Militar de Minas Gerais, Secretaria de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos do Rio, Ministério Público do Estado de Minas Gerais, Secretaria Especial de Direitos Humanos, Corte Interamericana de Direitos Humanos, Igreja Católica, Edson Fernando de Almeida, Makota Gonçalves, Waleska Pereira, São Joaquim de Bicas, Duque de Caxias, Tijuca, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Brasil
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