00:36 04 Agosto 2021
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    Defendida por empresários e criticada por trabalhadores, a reforma da Previdência está conseguindo um fato inédito na história do Brasil: alguns pontos, como a isenção de diversas categorias e o tempo de contribuição, desagradam a ambas as partes.

    Crítico feroz das mudanças, Paulo Caires, presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM), entidade ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT), diz que um dos principais argumentos para a mudança, o déficit crescente frente ao aumento da expectativa de vida do brasileiro é uma falácia.

    "Já está mais do que provado por várias teses que o déficit não existe. O que existe é uma arrecadação bilionária de quase R$ 456 bilhões. Essa é uma tese furada que eles (governo) já perceberam que não cola. Se você quer discutir para valer que dê sequência ao que está sendo discutido hoje no Congresso, que é a CPI da Previdência. Ela ficou 35 anos arrecadando sem que ninguém recebesse a Previdência. O que ocorre é que você desvia dinheiro da Previdência, ou seja, é desvio do objetivo do dinheiro", dispara Caires.

    O dirigente sindical também discorda da tese de que o tempo de contribuição tem que aumentar uma vez que a expectativa de vida do brasileiro também cresceu nos últimos anos.

    "Você fala isso, mas vai ficar muito tempo fora do emprego, pelo menos no setor privado. O cara vai acabar se aposentado com 72 anos. Eu tenho que pensar no Brasil e não na média. Se você for olhar os dados do IBGE em Alagoas, a expectativa de vida lá é 62,5 anos, ou seja, ninguém se aposentaria", critica.

    Outro ponto que o presidente da CMN considera absurdo é querer igualar o tempo de aposentadoria de homens e mulheres, uma vez que, com a participação crescente feminina na força de trabalho do Brasil nos últimos anos, elas ainda são obrigadas a prestar uma jornada dupla, cuidando da casa e dos filhos após o trabalho, já que nem sempre o homem divide essas tarefas com a mulher. Quanto à questão da exclusão de mais e mais categorias da proposta defendida pelo governo, Caires diz que isso demonstra que não há déficit no sistema.

    "Quem eles estão beneficiando é quem mais recebe e mais tira da Previdência sem contar as dívidas bilionárias de várias empresas", finaliza o sindicalista, que acredita que a reforma vai ser barrada pelas manifestações populares e por greves gerais, como a já marcada para o próximo dia 30. "Na última, no dia 28 de maio, 44 milhões de pessoas pararam no país."

    Embora defendendo a necessidade da reforma e reconhecendo a gravidade do déficit, entidades empresariais também fazem algumas críticas em relação à reforma. O presidente do Clube dos Diretores Lojistas (CDL) e do Sindicato dos Lojistas do Rio de Janeiro (Sindilojas), Aldo Gonçalves, é uma das vozes que acredita na gravidade do déficit, a ponto de exigir que o governo coloque dinheiro para assegurar a manutenção das aposentadorias e pensões, que correm o risco de não poderem ser mais honradas daqui a alguns anos.

    Para Gonçalves, a necessidade de aumento no tempo de contribuição veio corrigir algumas "anomalias" que existem devido às chamadas aposentadorias precoces, permitindo a saída do mercado de trabalho a partir dos 50 anos de idade, o que impossibilita o Brasil se igualar aos regimes previdenciários de países desenvolvidos. 

    Um dos pontos questionados pelo dirigente diz respeito ao aumento do tempo de contribuição baseado, segundo o governo, pela maior expectativa de vida do brasileiro, hoje de 74,4 anos segundo o IBGE. Segundo Gonçalves, é preciso haver uma certa diferenciação por região, onde no Nordeste, por exemplo, essa expectativa é menor em relação à média nacional. Por isso, o dirigente defende a implantação de uma política pública que aumente a qualidade de vida em algumas regiões, como no Nordeste.

    Embora classificando como benéfica para o comércio a reforma da Previdência, o dirigente do CDL e do Sindilojas admite que causa preocupação a exclusão crescente de categorias nas regras da nova Previdência, resultado da pressão de lobbies desses setores e também da estratégia do governo em fazer concessões para assegurar o número de votos suficientes para aprovação da reforma no Congresso.

    "Realmente, a reforma tinha que ser para todos. A questão de algumas categorias, pela força que têm junto ao governo, é ruim em termos de democracia. Infelizmente isso é consequência do nosso sistema político em que certos grupos sociais têm maior poder de pressão do que outros, o que fere a igualdade de direitos. Não concordamos. Achamos que a reforma tinha que ser igualitária para todos, não ter privilégio para categoria nenhuma a não ser para casos especiais, que são raríssimos, mas não para militares, políticos, judiciário, que já têm acesso a diversos privilégios", conclui o dirigente.

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    Brasil, Aldo Gonçalves, Paulo Caires, IBGE, CUT, Congresso, Clube dos Diretores Lojistas do Rio (CDL), Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM), Sindilojas, déficit, reformas, sociedade, aposentadoria, contribuição, direitos
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