10:09 17 Dezembro 2017
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    Mercado de carnes na Bielorrússia

    Exportadores: '55% do mercado importador da carne brasileira estão fechados'

    AP Photo/Sergei Grits
    Brasil
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    A batalha da 'carne fraca' (31)
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    Em entrevista exclusiva para a Sputnik Brasil, o empresário Antônio Jorge Camardelli, presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) revela que "55% do mercado mundial importador da carne produzida pelo Brasil estão fechados para o país".

    A revelação de Camardelli surge poucos dias depois que a Polícia Federal detalhou os procedimentos da Operação Carne Fraca, na sexta-feira, 17, conduzida pelo Delegado Maurício Moscardi. Segundo o policial, essa foi a maior operação realizada na história da Polícia Federal, envolvendo mais de 1.100 agentes, que foram para as ruas cumprir 309 mandados em Brasília e em 6 Estados da Federação. Foram 27 mandados de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão.

    O esquema, investigado pela Polícia Federal há pelo menos 2 anos, concluiu que carne com data de validade vencida recebia etiquetas com datas revalidadas e que substâncias cancerígenas eram adicionadas a alguns produtos para alegadamente ampliar sua conservação.

    Ainda segundo a Polícia Federal, 30 empresas estão envolvidas no escândalo, que envolvia suborno e corrupção de fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os policiais destacaram ainda que parte da propina era entregue a partidos políticos como PMDB e PP.

    No final de semana, o Presidente Michel Temer e o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, adotaram providências como começar a esclarecer a questão, informar que apenas alguns frigoríficos estão sendo investigados e que estas práticas, a princípio envolvendo toda a indústria de carne bovina, suína e de aves, dizia respeito a um pequeno número de frigoríficos e de fiscais do Ministério da Agricultura. Além disso, o presidente se reuniu com embaixadores de vários países, levou-os a uma churrascaria e procurou convencê-los de que os episódios ocorridos foram pontuais, atingindo apenas um pequeno elo da cadeia produtiva e da fiscalização.

    Mas, para o presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), Antônio Jorge Camardelli, o estrago está feito, "o prejuízo é intangível" e não pode ser mensurado:

    "Não dá para mensurar o prejuízo. Hoje, já temos fechados 55% do mercado mundial. Por isso, eu digo que o prejuízo é intangível".

    Para Camardelli, as questões vão muito além das perdas financeiras:

    "Seja no aspecto de imagem, seja no aspecto de prejuízo financeiro, a palavra correta é intangível. Não tem como mensurar um estrago tão grande, tão imediato, em cima de uma conquista de vários e vários anos de trabalho conjunto com o MAPA [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], melhoramento de rebanho de produtor, qualificação de produtor, adequação da indústria, inserção no mercado internacional. Tudo isso, conceitos adquiridos ao longo do tempo, tudo isso, repito, foi por água abaixo. Só nos resta agora ver se a gente enxerga uma harmonia ímpar em relação ao Governo."

    O presidente da ABIEC também menciona o encontro que os empresários do setor de carnes – produtores e exportadores – tiveram com autoridades do Governo e com representantes do Corpo Diplomático acreditado em Brasília:

    "No domingo, nós tivemos uma reunião com o presidente da República, com 46 embaixadores, com o ministro da Agricultura, com representantes do Ministério das Relações Exteriores, em todo esse aspecto, enfim, a gente tem uma integração muito boa com o Governo, numa condição até excepcional. Mas recompor um trabalho, depois que um país efetiva o fechamento de um mercado, é difícil. Politicamente, sabe-se que, mesmo com convencimento, num espaço pequeno de tempo, ninguém de sã consciência fecha e abre mercado, com exceção de poucos países cuja avaliação rápida tem consequência direta com o processo de abastecimento."

    Antônio Jorge Camardelli especifica o que os empresários pediram ao Governo:

    "Nossa primeira solicitação foi de uma palavra de confiança e de reforço às indústrias que têm todo um patrimônio, empregam mais de 4 milhões de pessoas em empregos diretos. Para se ter uma ideia, só na indústria de carne bovina a cadeia de valor produtivo é de R$ 480 bilhões, quase meio trilhão de reais. É exatamente este o aspecto que a gente colocou para o presidente da República, sendo depois colocado que vai ser uma tarefa difícil mas que nós precisamos tratar isso com urgência."

    Por fim, Camardelli cita os países que até esta terça-feira, 21, haviam formalizado a suspensão da importação da carne bovina brasileira:

    "Hong Kong, Egito, China, Chile, Argélia, Jamaica, Trinidad e Tobago para produtos industrializados. Estes são os comunicados que a gente tem. Estas são informações oficiais via Governo que nós temos. Mas, obviamente, temos informações também que seguem a dinâmica comercial."

    O jornalista e médico veterinário Luiz Octavio Pires Leal, membro da Academia Brasileira de Medicina Veterinária, concorda com os argumentos de Antônio Jorge Camardelli. Ele diz que os prejuízos financeiros, que ainda não podem ser exatamente mensurados, são da ordem de "bilhões de dólares", e frisa que a recuperação destas perdas demandará tempo e mais investimentos.

    Para Pires Leal, todas as pessoas que deram causa a estes fatos, seja pela prática de atos de corrupção como de uma divulgação açodada, cometeram atos de lesa-pátria:

    "Esta é uma grande oportunidade para o Ministério da Agricultura se reestruturar e reformular, corrigindo erros que tantos prejuízos estão causando ao Brasil."

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    A batalha da 'carne fraca' (31)

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    Tags:
    frigoríficos, carne podre, operação carne fraca, suborno, corrupção, exportação, Polícia Federal - PF, Abiec, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Blairo Maggi, Luiz Octávio Pires Leal, Michel Temer, Hong Kong, Chile, Argélia, Egito, China, Brasil
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