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    A balança comercial brasileira fechou 2016 com um superávit de US$ 47,7 bilhões, o maior desde 1989. O desempenho, contudo, se deveu não só às exportações de US$ 185,2 bilhões, mas as importações de US$ 137,5 bilhões, que recuaram fortemente pressionadas pela crise econômica e à menor demanda por produtos e serviços do exterior.

    O saldo do ano passado foi o maior desde 2006. Mesmo assim, apesar da excelência dos números, os embarques brasileiros diminuíram 3,18% na comparação com 2015, enquanto as importações baixaram 19,78%, resultado de uma cotação elevada do dólar em relação ao real durante o primeiro semestre, o que encareceu o preço dos produtos importados.

    O forte recuo nas compras do exterior preocupa alguns especialistas, como José Meireles, consultor da Associação Brasileira de Consultores de Comércio Exterior (Abracomex). Segundo ele, saldo positivo é sempre algo para se festejar, mas é preciso examinar com mais detalhes a razão deste desempenho.

    "Esse resultado foi em grande parte em consequência de uma diminuição forte e brusca nas importações. Qual o problema que isso pode ter para o desenvolvimento sustentável e o crescimento do Brasil? Quando não se importa, e sobretudo máquinas e equipamentos, como foi o caso, para agregarmos às nossas indústrias e depois podermos exportar, isso tem um grave risco, que é o abrandamento da parte industrial. No futuro, isso vai se complicar e implicar em se perder mercados."

    Meireles diz que o mundo está crescendo, ainda que pouco, e o Brasil está regredindo em relação a essa corrente de comércio. Isso, na visão do consultor, é ruim por vários motivos, um deles é a elevada ociosidade da indústria motivada pelo desemprego. Para retomar mercados, se nesse lapso de tempo não foram importados equipamentos, a indústria passa a ficar antiquada e a competitividade no mercado exterior vai ficar cada vez mais complicada.

    Nem mesmo entre os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), houve avanço, apesar do superávit recorde. De janeiro a setembro, a corrente de comércio o Brasil com esses parceiros somou US$ 53,8 bilhões, resultado de exportações de US$ 33,2 bilhões e importações de R$ 20,6 bilhões, com um superávit de US$ 12,5 bilhões para o Brasil. O problema é que a pauta de exportações brasileira é composta por 76,7% de produtos básicos, 14,9% de semimanufaturados e apenas 8,3% de manufaturados com maior valor agregado.

    Embora de 2006 a 2015 as transações entre os BRICS tenham crescido 163%, passando de US$ 14 bilhões para US$ 43 bilhões, a corrente de comércio do Brasil com Índia está estagnada em cerca de US$ 8 bilhões por ano, enquanto com a Rússia não sai da casa dos US$ 7 bilhões.

    Para o consultor da Abracomex, os BRICS não são propriamente um bloco econômico, é sim um conjunto de países com características muito diferenciadas, mas que não têm regras que propriamente permitam incrementar o comércio. 

    "O grande problema que o Brasil enfrenta é outro. É um país muito rico, talvez um dos mais ricos do mundo, tem matérias primas diversificadas, mas não controla minimamente seus produtos. O Brasil está à mercê das grandes empresas multinacionais que controlam a compra e venda de produtos no exterior. Nessas condições é muito difícil que se progrida no comércio internacional, que depende não só da riqueza de um país, mas da mentalidade, da cultura do empresário e das empresas que fazem mover essa riqueza."

    Meireles afirma que nunca foram implementadas verdadeiras políticas de desenvolvimento comercial no país.

    "Nos últimos 18 anos, o Brasil não tem novos acordos comerciais, o número de empresas que participam desse cenário é ínfimo, dentro de um universo de mais de 6 milhões de empresas legalmente constituídas."

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    Tags:
    indústria, competitividade, BRICS, superávit, balança comercial, comércio exterior, BRICS, Abracomex, José Meireles, Brasil
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