16:00 21 Fevereiro 2018
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    Família Schurmann

    Família Schurmann: uma odisséia de dois anos de amor ao mar e ao planeta

    Luciano Candisani/Divulgação Família Schurmann
    Brasil
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    Uma viagem que durou 812 dias terminou no sábado no porto de Itajaí (SC), com o retorno do veleiro Kat, que trazia a Família Schurmann em mais uma aventura pelo mundo. A jornada que começou em 21 de setembro de 2014 deixou os tripulantes acompanhando por satélite a eleição presidencial, o impeachment e a Olimpíada.

    Foram mais de 30 mil milhas náuticas (50 mil quilômetros), quatro oceanos e 50 lugares pelo mundo, como Antártica e China, que não tinham sido visitadas até hoje pela família nesses 30 anos de navegação pelo planeta. Na chegada, 2 mil pessoas esperavam a tripulação, que trouxe a bandeira da Chapecoense hasteada na proa do barco, em homenagem à delegação vitimada na queda do avião na Colômbia, às vésperas da disputa da Taça Libertadores da América. 

    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o comandante Vilfredo Schurmann conta os momentos mais emocionantes dessa jornada, sustos e emoções e adianta que a permanência em terra não será longa. Em 2018, o veleiro Kat leva a família de volta ao mar para um ambicioso projeto de sustentabilidade.

    Tripulação comemora a chegada em Xangai
    Família Schurmann / Divulgação
    Tripulação comemora a chegada em Xangai

    "Estamos muito felizes em voltar a Itajaí, a nossa pátria. Outros países também têm momentos difíceis, nós também, mas isso é como a tempestade: como ela vem, ela passa. Tivemos lugares belíssimos, por onde nunca passamos, como a Antártica, a China, onde fomos o primeiro veleiro brasileiro a entrar em Xangai, o maior porto do mundo", diz. 

    Schurmann lembra que um dos momentos de maior susto aconteceu na Polinésia Francesa, no atol de corais de Amanú, onde só há uma entrada. A tripulação estava esperando o momento propício da maré para ingressar no atol, quando se formou uma correnteza violenta que permitia uma passagem de apenas 50 metros. A decisão tinha que ser imediata, porque começaram a se formar grandes redemoinhos e o barco ia para um lado e para o outro. Quando perceberam que não dava mais para voltar, acionaram os dois motores Volvo Penta de 150 HP cada e conseguiram entrar a toda velocidade.

    Outro momento de grande dificuldade foi a passagem pelo Cabo Horn, no extremo sul da América, quando estavam retornando da Antártida, onde chegaram em março e muitas estações científicas já tinham fechado. A baixa pressão provocou ventos de 110 km/h e ondas de seis, sete metros. Duas cobriram completamente o barco. O Cabo Horn tem mais de 1.200 embarcações afundadas.

    Outra momento tenso aconteceu na Ilha de Reunião, no Oceano Índico. Lá existe a chamada Corrente das Agulhas, com velocidade de 5 nós, um verdadeiro rio no mar. Ela vai de norte para sul e quando há uma frente fria forte, de sul para norte. As ondas chegam a 20 metros de altura, mas felizmente nenhum atingiu o Kat. Enfrentando ventos de 55 nós e ondas de cinco, seis metros de altura, o barco subia e depois caía em um vácuo com grande estrondo.

     "O momento de maior emoção foi na Polinésia Francesa, na Ilha de Moréia, onde queríamos filmar as baleias. Fomos com um biólogo marinho. Lá é muito controlado, você não pode mergulhar com cilindro, só com snorkel. Aí veio um filhote de baleia. Foi uma emoção tão grande. Ela ficou a três, quatro metros me olhando e eu olhando para o filhote. Era mamífero olhando para mamífero, e a mãe baleia tambem ficava olhando. Jamais vou esquecer, em 32 anos de mar, esse momento tão intenso."

    Schurmann diz que o maior desafio no mar, além da natureza, é o relacionamento em pequeno espaço. Nessa viagem eram quatro da família mais os tripulantes. 

    "Você ficar 25 dias no mar num espaço pequeno tem que ter jogo de cintura, muita psicologia. Tem os turnos de quatro em quatro horas. O grande problema é quando sai, porque estão acostumados em terra. Nesses primeiros dois dias até se adaptar, a disciplina é muito importante."

    Recife, Oceano Pacífico.
    © Sputnik/ Roman Denisov

    Um dos motivos de orgulho dos Schurmann em todos esses anos de aventuras marítimas foi nunca terem perdido nenhum tripulante. Para isso, o cuidado com segurança é fundamental e contínuo. Há uma linha de vida em torno do barco, cinto de segurança, jaqueta com luz, cada tripulante não desgruda de um localizador que permite o resgate em caso de queda no mar. Em algumas regiões o socorro tem que ser imediato, como na Antártica, onde a pessoa no mar pode morrer em poucos minutos de hipotermia. Reposição de peças é outro item importante, assim como o treinamento dos tripulantes.

    Vilfredo e Heloísa Schurmann na Antártida
    Família Schurmann / Divulgação
    Vilfredo e Heloísa Schurmann na Antártida

    Em 2018, a Família Schurmann volta ao mar em um projeto já bem avançado na área de inovação e sustentabilidade.

    "O mar está sentindo muito. Sentimos muita poluição de plástico. Tem estatística que em 2050 vai ter mais plástico no mar do que peixe em termos de tonelada. Vimos muito microplástico, as partículas que saem do plástico e ficam no oceano, e os peixes estão comendo e nós comendo esse microplástico. O oceano é que dá o oxigênio para o mundo. Estamos fazendo um projeto que as pessoas possam acompanhar online conosco, de trazer especialistas para fazer uma conferência no lugar onde estamos."

    Tags:
    oceanos, pesquisa científica, expedição, sustentabilidade, meio ambiente, poluição, Vilfredo Schurmann, Mundo, Brasil
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