15:35 21 Abril 2019
Ouvir Rádio
    Veterinário Jefferson Leite com corujinhas-do-mato resgatadas em Mogi das Cruzes

    Dr. Dolittle brasileiro luta por animais silvestres em São Paulo

    Arquivo Pessoal / Facebook
    Brasil
    URL curta
    530

    Preocupado com o aumento de animais silvestres em risco e que necessitam de cuidados na cidade de Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, o médico veterinário Jefferson Leite chama atenção para a necessidade da instalação de um Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), na região.

    Só de Junho de 2015 a outubro deste ano, o veterinário resgatou e tratou voluntariamente de 79 animais em situação de risco na cidade.

    Com muita dedicação e boa vontade, o médico tem muito do Dr Dolittle personagem da comédia norte-americana, que se consagrou no cinema pelo ator Eddie Murphy, ao mostrar um veterinário que era capaz de entender e falar a linguagem de diversos animais.

    Jefferson Leite alerta que o crescimento do setor imobiliário e desmatamento na região, tem trazido como consequências um surgimento cada vez maior de animais silvestres próximos da população, como em rodovias, árvores e até dentro das casas, colocando em risco a segurança e a preservação dessas espécies.

    Dr Jefferson com uma coruja resgatada
    Arquivo Pessoal / Facebook Jefferson Leite
    Dr Jefferson com uma coruja resgatada

    Em entrevista exclusiva para a Sputnik, o médico que faz parte do Núcleo de Prevenção e Controle de Arboviroses na Prefeitura de Mogi, além de ser clínico particular, contou que sua luta na proteção aos animais silvestres teve início após concluir sua formação em 1994, quando autoridades locais já deixavam sob seus cuidados animais feridos encontrados pela cidade. "Comecei quando me formei em 1994, atendendo animais silvestres que eram trazidos pelos Corpo de Bombeiros, Polícia Ambiental, que muitas vezes não tinham local adequado para levar o animal para ser tratado. E eu fui me especializando na área de animais silvestres, trabalhando com essas espécies que chegavam a cada momento."

    Como não há um Centro de Triagem de Animais Silvestres na cidade, o veterinário acaba sendo responsável não só pelos primeiros socorros, inclusive arcando com os custos também do tratamento, mas também muitas vezes é o responsável ainda por recolocar o animal silvestre de volta ao seu habitat natural.

    "Esse número de animais que chegam até a clínica vem através da população de um modo geral e damos os primeiros socorros, uma vez que não temos um Centro aqui no município que possa receber esses animais. Nós fazemos o primeiro atendimento e depois encaminhamos para um Centro de Triagem, de reabilitação de animais silvestres na capital paulista, ou se for um caso simples que o animal tenha uma lesão pequena que possa ser solto em poucos dias, nós fazemos a soltura, mas a grande maioria nós arcamos encaminhando para um Centro maior de reabilitação, porque necessitam de cuidados mais especializados."

    Jefferson explica a necessidade de se ter cuidados especiais para tratar do animal silvestre, pois é muito mais complexo do que os animais domésticos. "É complexo e perigoso. Os animais silvestres diferente dos animais domésticos eles precisam de toda uma orientação no manejo para cada espécie, e sofrem muito com estresse, podem transmitir doenças para os seres humanos. No manuseio desses animais é muito importante o conhecimento do que está se fazendo para que não haja riscos nem para o animal e nem para o ser humano, por isso que nós acabamos dando esse tratamento imediato para que ele possa depois ser encaminhado ao local mais adequado."

    Trazida pelos bombeiros, a Seriema ( Cariama cristata), entrou em uma residência e foi recolhida e tratada pelo veterinário.
    Arquivo Pessoal / Facebook Jefferson Leite
    Trazida pelos bombeiros, a Seriema ( Cariama cristata), entrou em uma residência e foi recolhida e tratada pelo veterinário.

    Segundo o veterinário, se não souber tratá-los ou até mesmo devolvê-los à natureza, os bichos podem não sobreviver e até mesmo causar um desequilíbrio na fauna local. "Não é simplesmente soltar um animal, existem situações diversas que precisam ser observadas para se fazer essa soltura. Normalmente, solturas são feitas depois de muito estudo de vários outros profissionais, principalmente na área da biologia. É preciso um estudo do local onde vai ser solto, para poder fazer uma soltura adequada e que esse animal tenha chances de se manter na natureza. A simples soltura de um animal aleatoriamente vai ser com certeza prejudicial a ele e pode ser prejudicial a outros animais."

    O médico tratou do esquilo ou caxinguelê ( Guerlinguetus ingrami), resgatado com fratura na perna  até ser transferido para CETAS de SP
    Arquivo Pessoal / Facebook Jefferson Leite
    O médico tratou do esquilo ou caxinguelê ( Guerlinguetus ingrami), resgatado com fratura na perna até ser transferido para CETAS de SP

    O médico destaca que ter um Centro de Triagem de Animais Silvestres na cidade agilizaria o atendimento do animal resgatado e desafogaria os centros de atendimento localizados em Jundiaí e São Paulo. Por conta da distância entre a cidade e as unidades em outras regiões, muitos animais acabam não sobrevivendo, como foi o caso em junho deste ano, referente a um veado-catingueiro, que foi resgatado em Mogi com graves ferimentos após ser atacado por cães em um sítio.

    "O CETAS é um Centro de Triagem que vai receber esses animais não só da população, mas de diversos órgãos que mexem com a fauna silvestre e nós conseguimos atender com maior rapidez e mais eficiência e com suporte adequado. Isso aumenta as chances desse animal conseguir ser devolvido a natureza. Nós temos mais tempo e um lugar adequado para mantê-los até uma destinação final caso não seja possível não seja possível a soltura."

    O veado-catingueiro atacado por cães, no bairro do Cocuera, mesmo com todo o tratamento dispensado, não suportou as graves lesões que sofreu.
    Arquivo Pessoal / Facebook Jefferson Leite
    O veado-catingueiro atacado por cães, no bairro do Cocuera, mesmo com todo o tratamento dispensado, não suportou as graves lesões que sofreu.
     

    Os principais pacientes do Dr. Dolittle brasileiro são as aves,  mas a lista de animais resgatados, acolhidos e atendidos pelo médico veterinário é vasta que vai de uma ave Seriema, que entrou em uma casa  e teve pequenas escoriações, até espécies mais raras como o resgate a dois gatos-do-mato-pequeno (Leopardus gatullus) e um gato mourisco do mato, ameaçado de extinção, além de onças.

    Animais resgatados e tratamentos por Jefferson Leite nos últimos 12 meses, que mostram segundo o médico, a variedade de espécies em Mogi, o que justifica um CETAS.
    Arquivo Pessoal/Facebook
    Animais resgatados e tratamentos por Jefferson Leite nos últimos 12 meses, que mostram segundo o médico, a variedade de espécies em Mogi, o que justifica um CETAS.

    De acordo com o veterinário, a implantação do CETAS não precisa, necessariamente, ser feita pelo Poder Público. Jefferson Leite explica que é possível a criação dos centros através de parcerias com a iniciativa privada, como forma de compensações ambientais.

    Outra luta do médico veterinário é pela preservação das áreas ambientais da região diante da desenfreada expansão imobiliária, o que vem causando muita preocupação quanto a sobrevivência dos animais silvestres. "É uma cidade que vive entre duas serras Itapeti e do Mar, e a maior parte do município são áreas de preservação ambiental. Nós temos aqui, por exemplo, na nossa região a ave bicudinho-do-brejo-paulista, que é único nessa região  e está criticamente ameaçada de extinção. Ela foi descoberta em 2005 e já está criticamente ameaçada de extinção. É importante o crescimento, mas evitando esse conflito com a fauna silvestre."

    Tags:
    silvestres, veterinário, luta, animais, Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), Prefeitura de Mogi das Cruzes, Zoomédica Assistência Médica Veterinária, Jefferson Leite, Mogi das Cruzes, São Paulo, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik
    • Comentar