22:34 23 Setembro 2017
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    Frei ativista: 'Democracia no Brasil vai depender da quebra dos latifúndios'

    Marcello Casal/Agência Brasil
    Brasil
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    Na véspera do início do processo final de impeachment da presidente Dilma Rousseff, nesta quarta-feira, 24, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra realizou, no Mato Grosso do Sul, o Ato Nacional em Defesa da Democracia e da Reforma Agrária, recebendo entre outras lideranças a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

    A manifestação ocorreu no assentamento de Itamarati, o maior da América Latina, criado em 2003 com a desapropriação de uma das maiores fazendas brasileiras e onde hoje estão assentados pouco mais de 17 mil trabalhadores rurais. O complexo, formado por três grandes assentamentos, fica próximo à cidade de Ponta Porã, a 324 quilômetros da capital Campo Grande. Lá o ex-presidente Lula se reuniu com lideranças de trabalhadores, indígenas e comunidades e falou da importância em manter a resistência ao governo do presidente interino Michel Temer e de oposição às reformas em andamento que vão retirar direitos assegurados aos trabalhadores nos últimos anos, quer na esfera trabalhista, quer na previdenciária.

    Para os militantes do MST, a importância do Itamarati vai além da extensão territorial, na medida em que mostra o desenvolvimento trazido com a reforma agrária popular e ganho na qualidade de vida dos moradores. O assentamento, com 57 mil hectares, abriga cinco escolas públicas que atendem a mais de 3.100 estudantes e é responsável pela produção de alimentos comercializados localmente ou através de iniciativas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE). 

    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o franciscano frei Sérgio Guergen é um dos ativistas que há anos vem defendendo as causas do trabalhador no campo, tendo atuado no MST e atualmente integrando os trabalhos do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) em todo o Brasil. Para ele, nada poderia ser mais simbólico do que a visita de Lula ao Itamarati nesta quarta-feira.

    "A fazenda Itamarati era do ricaço Olacyr de Moraes, que era tido como o rei da soja no Brasil, e nessa enorme fazenda foram instaladas milhares de famílias. Hoje produz muito mais do que antes, mas produz alimentos, feijão, mandioca, carne, frango, não só soja, mas principalmente produz muito emprego e muita vida digna. Isso é uma demonstração de como a reforma agrária gera melhor qualidade de vida, mais disponibilidade de alimentos de qualidade na mesa do povo e também mais democracia."

    Na avaliação do frei franciscano, o poder da terra no Brasil sempre foi sinônimo de poder político que tem raízes históricas no país.

    "Hoje quem está capitaneando esse golpe de estado midiático e parlamentar que está sendo dado no Brasil é justamente a bancada ruralista, o setor dos grandes latifundiários. Nunca vamos ter uma democracia plena no Brasil sem que se quebre primeiro o espinhaço do latifúndio, que tem sido a espinha dorsal do poder mais retrógrado que temos no país, e onde muitas vezes está as bases do fascismo e da forma ditatorial do poder. A reforma agrária é o principal antídoto disso."

    Apesar do apoio às causas do campo e à solidariedade à presidente Dilma, desde o início da articulação do processo de impeachment, frei Luis admite que a presidenta não foi devidamente firme e decidida no apoio aos camponeses, achando que o agronegócio resolveria boa parte dos problemas do Brasil. Segundo ele, era preciso ter uma aliança muito mais forte e profunda com esses trabalhadores. Ele diz esperar também que em um eventual retorno da presidenta afastada ela solidifique uma aliança muito mais profunda com os movimentos camponeses brasileiros. 

    "Todas as vezes em que se deu golpe no Brasil as primeiras vítimas foram sempre os camponeses. Isso foi em 1891, com a proclamação da República Velha (com o massacre de Canudos); em 1964, quando houve a implantação da ditadura militar, as primeiras vítimas foram as ligas camponesas, com muita gente presa, assassinada; e agora o que se está vislumbrando, primeiro é o gesto de desprezo com o fechamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário; depois a segunda ameaça é sobre a aposentadoria rural, instrumento de distribuição de renda e que é autofinanciada através dos impostos e das contribuições da seguridade social; e em terceiro lugar estamos vendo nos assentamentos uma ameaça a mais da metade das famílias assentadas com seus lotes em discussão."

    Frei Sérgio diz ainda que começam a surgir ameaças e perseguições que vão demonstrando uma "clara opção do governo golpista". Na sua avaliação, caso o governo interino prossiga, legitimado pelo impeachment de Dilma, as principais vítimas de novo serão os camponeses. Ele, porém, promete resistência dos movimentos sociais.

    "Vamos enfrentar e resistir porque somos invencíveis e indestrutíveis. Outras vítimas estão sendo os indígenas e os quilombolas com a destruição do arcabouço legal que se conseguiu nos últimos anos. A Justiça está do lado de quem sofre e produz alimentos."

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    Tags:
    campo, latifúndio, direito, programa de reformas, agricultura, resistência, sem-teto, justiça, Congresso, MST, Michel Temer, Lula, Mato Grosso do Sul, Brasil
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