06:06 23 Setembro 2019
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    BC registra lucro

    Economista adverte: Novo aumento da taxa de juros vai obrigar redução de gastos

    Marcos Santos/USP Imagens
    Brasil
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    Pela sexta vez este ano, o Copom – Comitê de Política Monetária do Banco Central aumentou a taxa de juros vigente no Brasil. O novo índice, anunciado após a reunião do órgão em 3 de junho, é de 13,75%. O economista Roberto Fendt, em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, comenta as causas e consequências desse aumento.

    Para o economista Roberto Fendt, diretor-executivo do Cebri – Centro Brasileiro de Relações Internacionais, uma taxa de juros desta proporção obriga, inevitavelmente, a uma reavaliação do uso do dinheiro, o que implica diretamente na queda do consumo das famílias.

    Roberto Fendt sustenta que, além de reduzir o volume das compras parceladas, a sociedade irá reavaliar a sua prioridade de gastos, uma vez que a tendência da Taxa Selic é de progressão ainda maior dos juros. 

    Na opinião do economista, as atenções devem se voltar agora para a próxima reunião do Copom, no mês de julho. Fendt diz que não se surpreenderá se a Taxa Selic seguinte chegar aos 14%. E daí para mais, no decorrer dos meses subsequentes.

    Presidente Dilma, Brasil
    © AFP 2019 / EVARISTO SA / AFP
    “Acho que tanto você, eu e a população em geral estamos nos perguntando por que houve mais este aumento e, pior ainda, como este aumento correspondeu à expectativa do mercado, revelado pela pesquisa Focus do Banco Central”, diz Roberto Fendt. “Tudo indica que o ajuste da taxa de juros ainda não acabou, já que o mercado agora está estimando que a taxa vá pular para 14%. A primeira coisa que precisa ser esclarecida é que esta taxa é a que o Banco Central utiliza para nortear o regime de metas de inflação. Busca-se atingir a meta de inflação aumentando a taxa básica de juros, e esse aumento tem consequências com relação a isso. Em abril de 2003, essa mesma Taxa Selic, em lugar de estar em 13,75% como agora, estava em 7,25%, e ela foi subindo e chegou até 11% em abril do ano passado, e aí ficou estacionada até as eleições. Passada a eleição, ela voltou a subir de novo, e a cada mês e meio ela vem subindo até chegar a 13,75%, podendo chegar a 14%, eventualmente, ao longo da próxima reunião.”

    Sobre a tomada de decisão do Copom, o economista Roberto Fendt comenta: “Como a decisão foi tomada por unanimidade, coloca-se uma nova pergunta: por que os membros do Comitê de Política Monetária unanimemente acharam importante aumentar a Taxa Selic? Obviamente, a conclusão a que se chega é que todos eles, em conjunto, acreditam que a inflação não vai ceder, exceto com doses maiores e mais maciças de taxas de juros. Lembro que o aumento dessa taxa baliza todas as demais taxas de juros da economia. Então, a taxa do depósito à vista, quando a pessoa entrar no crédito especial, vai aumentar, o cartão de crédito provavelmente vai aumentar também, o financiamento para bens duráveis e outros produtos que são vendidos financiados a essa taxa vai aumentar, e com isso a prestação. Enfim, toda essa cadeia de eventos vai acontecer, e em decorrência o consumo das famílias provavelmente se reduzirá. Essa é a lógica que norteia a fixação da Taxa Selic.”

    À pergunta de por que os membros do Banco Central acreditam que a inflação não vai ceder, se, afinal, há um programa de ajuste em curso, o diretor-executivo do Cebri responde: “Seria de se imaginar que, com o desaquecimento da economia, as pessoas se tornassem mais cautelosas em suas decisões de compra, e comprariam menos. Em decorrência disso, de as pessoas provavelmente comprarem menos, os preços começariam a ceder e não aumentariam tanto quanto estariam aumentando em outras circunstâncias. Mas, aparentemente, o Banco Central não acredita nisso. O BC acredita que não, que ele tem que tomar medidas para continuar elevando a taxa de juros, porque, no fundo, ele não acredita no sucesso, pelo menos em curto prazo, do programa de ajustamento.”

    “É uma situação muito curiosa”, destaca Roberto Fendt, “porque, num certo sentido, eles talvez tenham certa razão, porque essa crescente autonomia, eu diria quase que total independência do Congresso Nacional em relação ao Executivo vem fazendo com que diversas medidas de aumento de gastos – não de redução, mas de aumento de gastos – estão aí na programação para ocorrer, e o Banco Central, que é responsável por trazer a inflação de volta para a meta, deve estar se sentindo sozinho nesse esforço, quando seria natural que a responsabilidade por trazer a inflação de volta fosse compartilhada entre o Tesouro Nacional e o BC. Como não é assim, o BC vai aumentando a taxa de juros.”

    “Nós continuamos assistindo a um momento muito grande da expansão do crédito”, relata Roberto Fendt. “Esse é outro aspecto que se pretende conter através do aumento da taxa de juros. A questão toda é que nos bancos privados o crescimento do crédito já vem bem abaixo da inflação dos últimos doze meses. O crédito está crescendo um pouquinho acima de 6%, e a inflação dos últimos 12 meses foi superior a 8%. Então, à primeira vista, não haveria muito que conter, porque, na verdade, descontada a inflação, o crédito está crescendo abaixo dela. O que continua crescendo é a inflação dos bancos oficiais. Esses bancos oficiais pertencem ao Governo Federal. Então, como tal, seria possível ao Governo controlar a expansão do crédito nos bancos públicos. Acredito que o fará, mas até o presente momento ainda não estão com uma taxa de crescimento similar à dos bancos privados. Tudo isso vem num certo sentido atrasando um pouco o plano de ajustes, jogando nas costas do BC a responsabilidade integral por conter a inflação. Todas essas medidas são muito ruins no sentido da expectativa dos agentes econômicos, porque a impressão que fica é que de fato nem o próprio Governo acredita no sucesso do plano de ajuste pelas medidas que estão sendo tomadas pelo BC. Recorde-se que nem o partido da presidente vem acreditando no ajuste fiscal, ou faz ouvido mouco, finge que não viu, finge que não sabe ou é literalmente contra. Tudo isso cria um ambiente em que fica muito difícil o BC afrouxar a taxa de juros. Eu não tenho nenhuma expectativa de que isso vá acontecer em curto prazo.”

    O economista Roberto Fendt explica se o aumento da taxa de juros é uma política eficaz para conter a inflação:

    BC eleva juros
    Marcos Santos/USP Imagens
    “A premissa é a seguinte: o aumento da taxa de juros afeta tanto a atividade econômica porque de uma forma ou de outra ela afeta ou o investimento físico ou a provisão de capital de giro pelo sistema bancário às empresas. Então, ele tem um efeito negativo sobre a atividade econômica e sobre o PIB. Por outro lado, o aumento da taxa de juros afeta o lado da demanda: os consumidores que vão comprar bens duráveis que são financiados. e agora a prestação vai ficar mais cara. E, à medida que a taxa vai subindo, vão aumentando as prestações. Qualquer novo empréstimo será contraído a uma taxa mais alta. Então a hipótese que está por trás dessa política de meta de inflação é que o efeito sobre a produção é menor do que o efeito sobre a demanda, ou seja, a atividade econômica cai menos do que cai a procura por bens e serviços. Se isso é verdadeiro, a elevação das taxas de juros é eficaz. O que não foi eficaz foi esse novo modelo econômico introduzido no final do segundo governo do Presidente Lula e que vigorou durante todo o primeiro governo da Presidenta Dilma. Este sistema nos trouxe, em última instância, a situação que nós estamos atravessando agora: um enorme déficit nas contas públicas, o risco de perdermos o grau de investimento, o que provocaria uma contração muito grande no acesso do país a recursos externos. Enfim, tudo que está acontecendo agora não é um ato da natureza, não resultou de alguma vontade divina que decidiu, por motivos que só essa divindade sabe, punir o país. Não é bem assim. Esses problemas foram todos gerados aqui mesmo. E foram gerados por uma política econômica totalmente equivocada. Eu acho que deve ser louvável que mesmo a presidente que conviveu com essa política decidiu abandoná-la e revertê-la. Agora é difícil. Não vai ser fácil reverter. Porque se criaram muitas expectativas de que se poderia fazer todas aquelas bondades sem ônus algum, e agora chegou a conta. Na hora em que chega a conta, há uma grita.”

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    Tags:
    Selic, taxa básica de juros, juros, Banco Central do Brasil, Copom, Dilma Rousseff, Roberto Fendt, Brasil
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