Panfleto promovendo a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil, na véspera das eleições de 2018

'Simplesmente não pode haver nenhuma ruptura com China', diz analista sobre novo governo

© AP Photo / Eraldo Peres
Análise
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Ekaterina Nenakhova
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O pleito brasileiro de ontem, o mais polarizado de sempre, mostrou que a virada de Haddad sobre Bolsonaro não aconteceu. O antipetismo acabou arruinando as chances do esquerdista para ganhar, porém, não foi o único fator decisivo.

A recusa do capitão de tomar parte dos debates, especialmente na reta final da campanha, foi uma "tática escolhida deliberadamente", opinou à Sputnik Brasil o cientista político especializado em assuntos latino-americanos da Universidade Estatal de São Petersburgo, Viktor Jeifets.

"Do ponto de vista do eleitorado, uma pessoa [que escolhe tal tática] pode até parecer melhor [que o adversário]. Ele não tem que rechaçar ataques, ele pode falar tudo que lhe apetece, suas palavras são menos postas em causa, pelo menos por aqueles que querem confiar", explicou o entrevistado.

Omissões da esquerda

Quanto à derrota do petista, analisa Jeifets, esta acabou sendo influenciada por muitos fatores: evidentemente, pelo rechaço público do PT, oxigenado pelo candidato do PSL, bem como a demora na nomeação de Haddad devido a contínuas tentativas do partido para levar aos boletins eleitorais o nome de Lula.

"O Partido dos Trabalhadores procrastinou até o fim, esperando que pudesse apresentar Lula como candidato, mas afinal das contas nem lhe deixou tempo [a Haddad] para mostrar que não é um fantoche, que pode ser um candidato independente. Sublinho, em minha opinião, ele não é fantoche, mas aos olhos de uma parte significativa da sociedade brasileira ele ainda não conseguiu de fato se manifestar", argumentou o interlocutor da Sputnik.

Na opinião dele, um dos erros crassos da campanha de Haddad foram, inclusive, as visitas regulares e públicas à cadeia para se consultar com Lula que, por um lado, contribuíram para a consolidação do eleitorado petista em torno do candidato, mas por outro o impediram de buscar os votos do centro.

Candidatos à Presidência do Brasil: Jair Bolsonaro (esq.) e Fernando Haddad (dir.)
© REUTERS / Adriano Machado/Rodolfo Buhrer
"Ele se moveu para o centro entre os dois turnos, por exemplo, em vez de casacos vermelhos passou a vestir os com cores da bandeira nacional, […] mas não foi o suficiente. Ele não logrou achar o entendimento com uma parte do centro, ou centro-direita", observou, assinalando o caso "marcante" do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que primeiro falou sobre "porta" que o separava de um diálogo com o petista, enquanto depois a considerou como "enferrujada".

"Assim, Cardoso nunca chegou a apelar ao voto em Haddad, embora lhe pedissem para fazê-lo, mas ele tomou uma postura neutra. Não acho que se ele tivesse apelado a todos para votarem isso teria garantido uma vitória a Haddad, mas a diferença poderia ter sido um pouco menor", avaliou.

Outro grande erro do candidato do PT, segundo Jeifets, foi afirmar na segunda fase da campanha que nunca nomearia um banqueiro para o posto de ministro da Fazenda, alfinetando seu rival e o conselheiro econômico dele, Paulo Guedes.

"Ele não precisava empurrar ninguém. Mas ele empurrou de si mesmo uma parte da elite financeira, que preferiu ao menos não o apoiar, talvez não fazer uma aposta direta em Bolsonaro, mas não o apoiar [Haddad]. Acho que Haddad estava procurando por sua estratégia, mas a achou apenas entre os dois turnos, quando já era tarde demais", considerou.

No que se trata da falta de apoio por parte de Ciro, que saiu terceiro colocado no 1º turno com quase 13% dos votos, Jeifets sugeriu que o político talvez já estivesse pensando na próxima corrida e não tivesse vontade de se aliar à força política em decomposição, o PT.

"Acho que ele já estava refletindo sobre as próximas eleições, entendia que a campanha de Haddad quase não tinha chances para ganhar, e decidiu não comprometer sua futura carreira política", expôs.

Orientações externas do presidente eleito

Durante a campanha saturada do Bolsonaro, Pequim foi um dos alvos de ataques e muita crítica. O ex-capitão inclusive afirmou que a China não estaria comprando produtos brasileiros, mas sim "o próprio Brasil". Entretanto, acredita o cientista político, há muito poucas probabilidades de as relações bilaterais entre os dois gigantes serem rompidas.

"Simplesmente não pode haver nenhuma ruptura com a China, hoje em dia é o maior parceiro comercial brasileiro. Ninguém rompe relações de um dia para outro com o principal parceiro comercial, arriscando arruinar sua economia. Se Bolsonaro o fizer, a crise econômica apenas se agudizará e seu governo não enfrentará nada de bom", clarificou o entrevistado.

Ao mesmo tempo, o especialista não descartou uma revisão ou o rompimento de alguns acordos bilaterais com a China, mas não uma ruptura colossal, como aconteceu no caso da Argentina e das promessas parecidas de Mauricio Macri em 2015.

Assim, as promessas arrojadas do político do PSL evidentemente ainda serão suavizadas, da mesma forma como sucedeu à sua intenção de "tirar o Brasil da ONU", que hoje em dia só se limita aos planos de abandonar o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

"Ele também prometia sair do Acordo de Paris sobre o clima, mas já não o planeja, pois percebeu que isso afetaria muito a economia brasileira, particularmente as exportações do agronegócio", assinalou.

No que se refere ao bloco BRICS, algo que foi promovido ativamente pelo governo de esquerda como elemento de uma nova ordem mundial mais justa, Jeifets destacou a completa ausência de menções a essa organização no programa e discurso do presidente eleito.

"Eu nem tenho certeza que ele tenha uma estratégia quanto aos BRICS. Mas algo de que ele certamente não vai querer tomar parte são as atividades politizadas do BRICS […] Caso os BRICS tragam ao Brasil uma oportunidade de se envolver em projetos de infraestruturas que ofereçam vantagens à economia brasileira, Bolsonaro ficará interessado nisso também", acredita.

Aliás, o cientista político fez questão de relembrar que o bloco "não nasceu na época da esquerda" e provavelmente sobreviverá o governo de direita.

Ao falar da outra expectativa repercutida, isto é, da aproximação com os EUA, Jeifets observou que a cooperação entre os dois líderes pode resultar de fato em uma batalha entre "dois falcões", cada um dos quais persegue os interesses do seu país.

"Bolsonaro não é um candidato pró-americano, ele apoia as políticas de Trump porque na visão dele Trump visa reforçar a soberania estadunidense, e ele quer o mesmo reforço de soberania para o Brasil", ponderou. "Tarde ou cedo, eles não podem deixar de se confrontar em algumas questões simplesmente porque ambos são populistas de visões consideravelmente meio nacionalistas."

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Tags:
política externa, PSL, PT, BRICS, ONU, Paulo Guedes, Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Fernando Henrique Cardoso, Lula, China, EUA, Brasil
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