Jair Bolsonaro, deputado federal do Brasil e candidato às eleições presidenciais

O que se pode esperar de Jair Bolsonaro, candidato polêmico à presidência do Brasil?

© REUTERS / Adriano Machado
Análise
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O conservador Jair Bolsonaro, que se destacou nos últimos meses por suas declarações a favor dos torturadores da última ditadura militar do Brasil e insultos à população da origem africana, oficializou a sua candidatura para as presidenciais em outubro de 2018. A Sputnik faz uma análise dessa figura polêmica.

Em 22 de julho, o deputado anunciou ser candidato do Partido Social Liberal (PSL) ao Palácio do Planalto com um discurso que incluiu promessas controversas como a inclusão de militares no gabinete, políticas de mão dura para lutar contra o crime e a retirada do gigante sul-americano do Acordo de Paris.

Segundo o analista internacional Andrés del Río, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a irrupção de uma personagem como Bolsonaro — superado só pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), cuja elegibilidade não está garantida devido à condenação judicial que pesa sobre ele, "coloca a candidatura de outras figuras em uma situação particular".

Para o especialista, a ascensão do político do PSL se insere em um movimento presente em todo o mundo. Del Río considerou que "tal como aconteceu com [Donald] Trump nos EUA, Bolsonaro atraiu muitas pessoas que sentiam que alguém supostamente de fora do sistema e que fosse mais duro poderia acabar com a corrupção e a política tradicional", segundo disse na entrevista à Sputnik Mundo.

Esta ideia de "tornar o sistema político em algo apolítico" é para o professor "um perigo". No entanto, no contexto brasileiro de uma profunda crise econômica de mais de dois anos, de aumento do desemprego e da insegurança, as palavras radicais de Bolsonaro conseguem atrair pessoas.

"Perante a necessidade e urgência da fome e medo que dominam o cenário brasileiro, Jair Bolsonaro aparece — como lhe disse — com a missão de recuperar o moral. Na realidade, essa pessoa é muito conflituosa, com casos de corrupção, com toda a família trabalhando no Estado. Além disso, geralmente está no extremo de qualquer posição política", opina o analista.

Quanto às promessas de mão dura para combater a insegurança, os fatos recentes no país demonstram que "uma intervenção militar somente multiplica as mortes". Além disso, o cientista político citou casos como o do México na Guerra contra as Drogas, um conflito que provocou centenas de milhares de mortos em pouco mais de dez anos.

Por outra parte, explica, amplos setores dos empresários e o sistema financeiro "creem que Bolsonaro pode disciplinar muito mais a sociedade que um candidato mais democrático" no momento de "aprofundar" as reformas impopulares de ajuste econômico. A este apoio se deve somar o do eleitor que encontra um discurso simples com que se identifica.

"Bolsonaro fala de uma forma muito empática e para muita gente, o que é muito bom para um político", assinalou.

Mas não tem todo o vento a seu favor. Uma boa parte dos grupos mediáticos — principalmente o conglomerado Globo — são mais propensos a apoiar a candidatura da coalizão do centro encabeçada pelo ex-governador do estado próspero de São Paulo, Geraldo Alckmin, presidente do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), atual aliado do governo de Michel Temer.

"Por um lado, há uma parte do mundo empresarial e financeiro que quer apoiar Bolsonaro. Por outra parte, há quem olhe para ele como uma pessoa que não sabe para onde vai disparar, nem como se pode controlar", avaliou Del Río.

Para sua desvantagem, o candidato conservador pertence a um partido muito pequeno, com uma representação parlamentar reduzida. Isso se manifesta em menos tempo de publicidade eleitoral e menos visibilidade, além da maior necessidade de forjar coalizões. Basta pensar que Dilma Rousseff, presidenta eleita popularmente em 2014 e destituída na sequência do polêmico processo político em 2016, tinha 11 partidos na sua coalizão de governo.

No seu discurso de domingo (22), o candidato tentou se mostrar mais moderado em relação aos direitos das mulheres e crianças, uma pequena mudança em relação a outros discursos em que, por exemplo, provocou uma sua colega deputada: "Jamais iria estuprar você, porque você não merece."

Às expressões "contra as mulheres" e de caráter "homofóbico" se juntam as declarações ofensivas para com os afro-brasileiros, que apesar de constituírem mais de metade dos cerca de 207 milhões habitantes do país, se encontram afastados para segundo plano nas esferas do poder, Justiça e universidades.

Segundo Del Río, para analisar estas declarações de Bolsonaro, que disse que os negros "não servem nem para procriar", é necessário ter em conta "a variável da escravidão" na história do país, o último do hemisfério ocidental a aboli-la em 1888, e o país que comprou e vendeu mais escravos.

"O Brasil é um país extremamente racista. Às vezes as pessoas confundem a alegria brasileira com as questões raciais […] A questão racial não está resolvida hoje em dia, está pouco pacificada e ainda, apesar das políticas inclusivas e afirmativas nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), falta muito para fazer", disse o analista.

Com a chegada ao poder de Michel Temer em 2016, depois do processo de Dilma, além do "processo de radicalização de toda a região e de boa parte do Ocidente", a viabilidade das políticas destinadas para as mulheres, a população afro e as minorias em desvantagem estão em risco, para o especialista, uma situação que se pode agravar com a possível chegada de Bolsonaro à presidência no Brasil.

Bolsonaro, de religião evangélica e identificado com as correntes mais conservadoras deste movimento confessional, manifesta-se pouco tolerante em relação a "qualquer religião que não seja da mesma linha". Em um mosaico cultural com diversidade confessional e uma forte matriz religiosa africana, esta postura pouco conciliadora poderia provocar problemas.

Excetuando Lula, nas pesquisas Bolsonaro ocupa o primeiro lugar, com uma percentagem de cerca de 20%, seguido pelo esquerdista Ciro Gomes e pela moderada Marina Silva, que lutam pelo segundo lugar.

No entanto, a sombra de Lula está latente, em meio às polêmicas de se poderá ou não se apresentar às eleições e, neste segundo caso, se pode ser desclassificado.

"Lula tem um carisma e uma presença enorme. Mesmo na prisão, sua popularidade cresce a cada dia. Existem dois cenários de eleições: com ele ou sem ele. E mesmo sem ele, a ausência de Lula é uma presença constante e esses votos podem ser canalizados para um candidato do PT, ou de uma coligação, e eleja alguém em particular", concluiu Del Río.

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eleições presidenciais, negros, mulheres, Acordo de Paris, Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Brasil
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