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    U.S. President Donald Trump shakes hands with Russia's President Vladimir Putin during their bilateral meeting at the G20 summit in Hamburg, Germany July 7, 2017

    Trump queria ser o 'melhor amigo' de Putin. Por que não deu certo?

    © REUTERS / Carlos Barria
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    Não foram poucos os analistas internacionais que, confirmada a vitória do republicano Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em novembro de 2016, não tardaram em afirmar: as relações entre os EUA e a Rússia irão renascer.

    Mas isso não aconteceu. Pior: atingiram a maior crise desde o fim da Guerra Fria. A pergunta natural é tentar entender o que deu errado, uma vez que o potencial – e a troca de elogios entre Trump e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, eram conhecidos.

    “Acho que eu teria um relacionamento muito, muito bom com Putin”, afirmou Trump em setembro de 2016. “E acho que eu teria um relacionamento muito, muito bom com a Rússia”.

    Boa parte dos problemas pode ser explicada pelas expectativas criadas dos dois lados do mundo. Em Washington, Trump viu seu desejo de ser “o melhor amigo” de Putin ser desfeito pelo Congresso, que impôs as mais duras sanções já implementadas contra os russos.

    Já o Kremlin teria a perspectiva de que o republicano poderia ser aquele presidente que iria aceitar a anexação da Crimeia, demonstrar apoio ao presidente sírio Bashar Assad, ou dar mais liberdade a Moscou no cenário internacional em troca de apoio contra o terrorismo.

    Essas são algumas conclusões expostas em um longo artigo publicado neste mês pela revista norte-americana Newsweek. Para a publicação, o erro de cálculo passa, inevitavelmente, pela suposta interferência russa na própria vitória eleitoral de Trump. Tal situação deflagrou um quadro interno que nem mesmo alguém como Trump conseguiu conter.

    As eleições

    Mas o cenário era promissor – pelo menos para o Kremlin – antes das eleições. Além de sempre elogiar Putin por “estar reconstruindo a Rússia”, Trump parecia ser a figura antiestablishment que poderia fazer renascer as relações entre os dois países.

    “Em 2013, quando Trump levou o concurso Miss Universo para Moscou, ele se perguntou em um tweet se Putin ‘se tornaria meu novo melhor amigo’ (Trump também afirmou falsamente que ele havia encontrado Putin durante sua visita). E em dezembro de 2015, na MSNBC, Trump defendeu o líder russo contra as alegações de que ele havia ordenado o assassinato de jornalistas, afirmando que ‘nosso país também faz muita matança’”, diz o artigo.

    Do outro lado, Putin sempre adotou uma postura mais cautelosa a respeito de Trump, definindo-o, em dezembro de 2015, como alguém de “personalidade brilhante”, no que o magnata norte-americano transformou na seguinte frase:

    “Ele disse, ‘Donald Trump é um gênio e ele será o líder do partido e ele vai ser o líder do mundo ou algo assim’”, comentou o agora presidente dos EUA, em uma clara manipulação do teor do que o presidente russo havia dito. Ao ser eleito, Trump deu a entender que buscaria uma nova era nas relações com o Kremlin.

    Era o que se esperava também em Moscou.

    “Chegou o momento de uma nova era nas relações russo-americanas. Haverá respeito mútuo… Duas grandes potências nucleares se encontrarão novamente como iguais”, afirmava o político russo Vladimir Zhirinovsky logo depois da vitória de Trump ser confirmada.

    Negar não bastou

    Entretanto, as dúvidas em torno de um suposto envolvimento russo nas eleições presidenciais dos EUA nunca foram embora. E o que começou como fumaça virou um incêndio que nem mesmo o “negociador” Trump conseguiu debelar. Foi o começo do fim daquilo que nunca passou de um desejo frívolo.

    “Após a sua vitória eleitoral, Trump logo deixou de exaltar Putin. Mesmo que a ira e a evidência fossem aparentes pela interferência eleitoral de Moscou, o Kremlin continuava esperando que a sua perigosa jogada fosse dar certo”, afirma a revista dos EUA.

    O suposto vídeo de Trump com prostitutas em Moscou, em 2013, ou as conversas que Trump e o seu então conselheiro Mike Flynn com o embaixador russo Sergey Kislyak, ou ainda as ameaças de retaliação do governo do democrata Barack Obama só ajudaram a agravar o quadro.

    Era pressão demais para Trump resistir. Então veio o bombardeio de uma base síria e uma série de indiações saídas do Congresso dos EUA de que o país não poderia fazer concessões a Moscou. Pelo contrário. Foi o início da discussão acerca de sanções econômicas, já antes do aguardado encontro entre Trump e Putin, na cúpula do G20, na Alemanha.

    “No momento em que Putin e Trump tiveram sua primeira reunião cara a cara, em julho, a relação que Trump esperava estava definitivamente fora da agenda”, explica a publicação, apontando que o presidente dos EUA ainda tinha esperanças de obter concessões do líder russo em temas envolvendo a Síria, a Coreia e a Ucrânia. Sem sucesso.

    “Ao invés de ser o início de uma amizade em ascensão, Hamburgo marcou pouco mais do que a troca de platitudes por dois homens presos por circunstâncias: Trump bloqueado pelas alegações de ‘Russiagate’; e Putin paralisado pelo medo de parecer fraco”, sentencia o artigo.

    O que restou?

    Para autoridades russas ouvidas pela Newsweek, as chances de uma relação positiva e de amizade entre Trump e Putin estão acabadas. Na visão do Kremlin, as mais recentes sanções contra a Rússia mostram que o republicano foi vencido pelo establishment dos EUA e não governa mais.

    “O que há para Putin falar com ele?”, questionou o parlamentar russo Sergei Zheleznyak.

    Enquanto a Rússia garante que não foi e nem será afetada por tais sanções econômicas, é comum nos dois países que se chegue a uma conclusão: as relações estão em um estágio muito ruim, e o cenário a curto e médio prazo não parecem nada animadores, sobretudo pelas dificuldades que Trump enfrenta ou enfrentará até o fim do seu mandato, em 2020.

    “O fracasso de Putin e Trump em lançar uma nova era pós-Guerra Fria custará muito caro aos dois. O líder russo enfrenta um profundo isolamento internacional e um lento estrangulamento econômico. Mas é pior para Trump. Suas palavras de louvor incentivaram a infeliz tentativa de Putin de ajudá-lo a entrar na Casa Branca. Não há evidências, até agora, de que o Trump diretamente instigou esse esforço. Mas o abraço de Putin ainda pode ser politicamente fatal para o magnata que só queria ser o ‘melhor amigo’ do homem forte russo”, conclui o artigo.

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    Tags:
    sanções econômicas, relações bilaterais, Guerra Fria, russiagate, diplomacia, política, Kremlin, Casa Branca, Sergei Zheleznyak, Sergey Kislyak, Vladimir Zhirinovsky, Michael Flynn, Vladimir Putin, Donald Trump, Rússia, Estados Unidos
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