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    75º aniversário da vitória sobre nazismo
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    Entre 1944 e 1945, a escritora Clarice Lispector foi voluntária no hospital que recebia os feridos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar de manter a distância de assuntos políticos, "a seu modo, Clarice agiu".

    Clarice Lispector é uma das mais celebradas escritoras brasileiras. Mas poucos sabem que nossa estrela foi voluntária durante a Segunda Guerra Mundial, quando cuidou e escreveu cartas para os feridos de guerra aliados na Itália.

    Em plena Segunda Guerra Mundial, Clarice Lispector acompanhou o marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, para assumir seu novo posto em Nápoles, no sul da Itália, onde lutavam os pracinhas da FEB e os pilotos de caça da Aeronáutica.

    "Ela embarca na Base Aérea de Parnamirim no dia 30 de julho de 1944, e até chegar à Itália fará um longo périplo [...] finalmente chega a Nápoles no final de agosto, onde permanece até abril de 1946", conta a doutora em literatura pela Universidade de São Paulo, Mona Lisa Teixeira, à Sputnik Brasil.

    "Clarice Lispector vinha de um Brasil no qual poucas informações chegavam, em função da censura do Estado Novo", lembrou Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres, pesquisadora da Universidade do Estado da Bahia.

    "Ela começa sua viagem nesse clima de desinformação", conta Prazeres. "Seu imaginário sobre Nápoles apresentava uma cidade já organizada e estruturada pelos americanos."

    "Mas, quando chega lá, a escritora se depara com a destruição causada pelo conflito", diz Prazeres. "Ela registra em suas cartas a situação das crianças, das mulheres e da cidade como um todo, destruída e quase destituída de dignidade."

    O cenário de destruição contrastava com a formalidade do papel de esposa de diplomata desempenhado por Clarice, acreditam as pesquisadoras.

    Carice Lispector posa para foto com seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente
    © Foto / WikiCommons
    Carice Lispector posa para foto com seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente

    "Ficar nos moldes de mulher de diplomata, sempre impecável, solícita e agradável, talvez não combinasse com o temperamento de Clarice", notou Teixeira.

    "Todo mundo é inteligente, é bonito, é educado, dá esmolas e lê livros", escreveu Lispector ao amigo e escritor brasileiro Lúcio Cardoso, em carta compilada no livro "Correspondências", editado pela Rocco em 2002.

    Neste contexto, a autora decide prestar serviços aos doentes e feridos na guerra contra o nazismo. Prazeres conta que, por ser civil, Clarice "enfrentou a burocracia para conseguir a autorização para o voluntariado".

    "Penso que Clarice Lispector não se encaixava nesse mundo de aparências e precisava fazer algo efetivo, dedicar-se realmente a ajudar", disse Prazeres. "Foi também uma forma de dar sentido à própria vida."

    Clarice Lispector, em foto do acervo de Paulo Gurgel Valente
    © Foto / Paulo Gurgel Valente
    Clarice Lispector, em foto do acervo de Paulo Gurgel Valente

    "Por mais que ela tenha reticências, seja irônica com a própria ideia de ajudar e de ser útil, ela tinha uma natureza preocupada com a vida, que transparece na escrita", disse Teixeira.

    "Visito diariamente todos os doentes, dou o que eles precisam, converso, discuto com a administração pedindo coisas, enfim sou formidável. Vou lá todas as manhãs e quando sou obrigada a faltar fico aborrecida, tanto os doentes já me esperam, tanto eu mesma tenho saudade deles", escreve Clarice a Lúcio Cardoso.

    No entanto, a escritora falava pouco sobre a sua experiência como voluntária na Segunda Guerra Mundial.

    "Ela manteve uma postura muito pragmática diante desse trabalho. Em momento algum fala como se fosse um exemplo a ser seguido ou elogiado", disse Teixeira.

    Homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB).
    © Foto / Domínio Público/ Arquivo Histórico do Exército Brasileiro
    Homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

    Uma das raras menções ao voluntariado é feita na carta que Clarice escreve à sua irmã Elisa, na qual comenta ter recebido ofício de agradecimento aos seus serviços.

    "Nunca seriam demais as palavras que eu poderia dirigir a V. Ex.ª para expressar a minha admiração pela contribuição que trouxe a todos nós nestes momentos em que o Brasil precisa tanto de seus filhos. Em nome destes homens, de todos que aqui labutam e no meu próprio, beijo, agradecido, as vossas mãos dadivosas. Nápoles, 17 de abril de 1945, Dr. Sette Ramalho, Tte. Coronel Médico."

    "Que acha?", pergunta Clarice à irmã em carta: "Parece muito pouco um ofício [...] parece mais a homenagem de um cavalheiro andante à donzela-da-janela-defronte. Me emocionou um pouco, sobretudo porque eu não imaginava a possibilidade de recebê-lo."

    Mas foi a enfermeira Elza Cansanção Medeiros que revelou ao mundo que Clarice se utilizou de seus dotes literários durante o voluntariado, escrevendo as cartas aos familiares e amigos dos feridos de guerra.

    Enfermeiras brasileiras durante a campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália
    © Foto / Arquivo Histórico do Exército Brasileiro
    Enfermeiras brasileiras durante a campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália

    "Elza é quem conta algumas experiências de Clarice, fala das cartas que ela escrevia para [os feridos] enviarem aos familiares no Brasil, do cuidado com os doentes, das leituras e até de uma comida à brasileira que ela teria feito para os soldados", relata Prazeres.

    "Clarice era a mão que fazia o verbo expresso pela oralidade chegar no Brasil em forma de texto escrito", resume a pesquisadora da UNEB.

    Clarice Lispector, fotografada por Maureen Bisilliat, em agosto de 1969
    Clarice Lispector, fotografada por Maureen Bisilliat, em agosto de 1969

    Apesar das poucas referências da autora à sua experiência na Segunda Guerra Mundial, Teixeira acredita que a vivência teve impacto na obra literária da escritora.

    "Ter vivido uma experiência tão próxima à guerra deve ter contribuído para Clarice levar ao extremo a introspecção e a capacidade de seus personagens de expressarem emoções, frequentemente reprimidas pela dinâmica mais pragmática do cotidiano", acredita Teixeira.

    "Muito antes de sentir 'arte' senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria era 'fazer' alguma coisa, como se escrever não fosse fazer nada", escreve Clarice, em trecho publicado na coletânea "Todas as crônicas", editada pela Rocco em 2018.

    "A seu modo, Clarice Lispector agiu", concluiu Prazeres.

    Neste ano, Brasil e Rússia, aliados durante a Segunda Guerra Mundial, comemoram os 75 anos da vitória sobre o nazismo. A Sputnik Brasil traz uma série de reportagens especiais sobre esse período trágico do século XX, para garantir que ele nunca se repita.

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    Tags:
    Segunda Guerra Mundial, literatura, Brasil
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